Por Pedro Doria, jornalista, cofundador do Canal Meio e membro do Conselho Editorial da RBS
O Brasil está entrando num momento muito delicado, e isso faz aumentar nossa responsabilidade coletiva como jornalistas. Basta seguir os acontecimentos dos últimos dois meses, um por um.
Pela primeira vez na história, generais do Exército e um ex-presidente da República foram condenados por tentativa de golpe de Estado. Três escândalos de corrupção estão quicando. Do INSS, do Banco Master e da Refit. Está de pé a acusação de que o filho do presidente recebia uma mesada dos corruptos do INSS, ministros do Supremo frequentam eventos patrocinados pelo Master, mas presidentes de partidos de direita estão igualmente envolvidos.
Um ministro do Supremo tratou de elevar ao máximo o segredo do processo envolvendo o Master. Por quê? Ninguém explica. Outro ministro do Supremo decidiu inventar regras que não estão escritas em lei alguma, ou seja, legislou para dificultar ao máximo a possibilidade de o Senado cumprir seu papel constitucional de avaliar o trabalho do STF. Enquanto isso, o presidente do Senado elevou ao máximo a pressão sobre o presidente da República. Por quê? Porque o Planalto não indicou quem ele gostaria de ver ministro no STF. Um pequeno detalhe: a Constituição é claríssima. Essa atribuição não é do Legislativo. É do Executivo.
Precisamos incorporar as lições aprendidas de 2013 para cá. E não é complicado: não há heróis. Este não é um filme de Hollywood. O juiz não é herói, o procurador não é herói, o delegado não é herói, o político tampouco
No contexto geral estão uma eleição presidencial que, tudo indica, será muito apertada, no ano que vem, e uma situação fiscal que promete desembocar numa crise econômica em 2027.
Temos turbulência à frente. As redes pressionam todos para que vejam este como um jogo entre direita e esquerda. Façam suas apostas, escolham que camisa usar. Para nós, jornalistas, não é assim que funciona. Precisamos incorporar as lições aprendidas de 2013 para cá. E não é complicado: não há heróis. Este não é um filme de Hollywood. O juiz não é herói, o procurador não é herói, o delegado não é herói, o político tampouco. São funcionários públicos agindo de acordo com suas funções — ou não. As funções são descritas por regras claras em estatutos, nas leis do país e até lá em cima, na Constituição. Todos têm a capacidade de agir fora das regras ou dentro delas. Nossa função é descobrir quem fez o quê e relatar. O eleitor faz, então, suas escolhas.

