Por Tiago Cirqueira, Gerente-executivo de Esportes e membro do Conselho Editorial da RBS
O jornalismo tem combatido o news avoidance e a dispersão por meio da estratégia de replicar o mesmo conteúdo em 10 canais, em 10 linguagens diferentes. Isso é o básico. O transformador é entender que o poder não está mais na posse, mas na permissão e na parceria. O veículo tradicional precisa ser menos um guardião rígido e mais um parceiro flexível no jogo digital.
Aí reside a ética da nova era: quando a página Rádio Gaúcha Memes, no Instagram, faz sucesso, utilizando o Sala de Redação como matéria-prima, por exemplo, ela não está roubando audiência. De forma inusitada e bem-humorada, está validando o valor cultural do produto e fortalecendo a comunidade em torno da marca. Está gerando engajamento personalizado e, essencialmente, fazendo o que os produtores de conteúdo precisam desesperadamente fazer: rir de si mesmos e, especialmente, com o seu público.
Estamos vivendo o reinício de um jornalismo mais humano, mais diverso e, paradoxalmente, mais forte
O humor e a leveza, desde que respeitem os limites éticos e não gerem constrangimento, são formas poderosas de construir pontes. O público jovem, acostumado à comunicação interativa e cheia de referências, precisa se sentir parte da conversa. Não é apenas um ouvinte passivo de um monólogo.
Veículos globais e locais que prosperam no digital, atraindo novas audiências e fidelizando as antigas, são aqueles que investiram na diversificação da narrativa, que criaram produtos-satélite baseados na paixão do público por um assunto específico. Entenderam que o verdadeiro proprietário do conteúdo, em um sentido cultural e de identidade, é a sociedade que o abraça.
A responsabilidade do jornalismo não diminui. Precisamos ser rigorosos na informação e flexíveis na forma. Precisamos garantir a pluralidade, mas entender que a distribuição pode ser leve, envolvente e até mesmo bem-humorada. Se queremos que os veículos continuem sendo o pilar cultural e econômico da sociedade, a hora de permitir, apoiar e participar da criação de terceiros, baseada no nosso conteúdo, chegou. E não podemos deixar que ela passe.
Compreender a transformação é aceitar que a conexão se constrói através de uma comunicação multidirecional, que valoriza a comunidade e as suas diversas vontades. Não se trata do “fim” de nada. Agora, estamos vivendo o reinício de um jornalismo mais humano, mais diverso e, paradoxalmente, mais forte. É a proximidade, a colaboração e a contribuição com marcas e pessoas que nos tornarão perenes, sustentáveis e ainda mais úteis.
Vamos construir juntos essa identidade digital dos nossos produtos, daqueles que nos formam enquanto sociedade? Sermos parceiros é e será a melhor maneira de fortalecer os negócios e aproximar as pessoas. Precisamos deixar de ser a voz solene. É fundamental apagar a imagem do espelho que reflete a sociedade. A urgência está em sermos parte de uma comunidade que se reconhece no produto. E, principalmente, um produto construído junto à sociedade. _




