A Colômbia entrou nesta sexta-feira (14) em uma nova fase das buscas por centenas de desaparecidos sob prédios residenciais, escritórios e hospitais destruídos pelo forte terremoto do começo da semana, enquanto diminuem as chances de encontrar sobreviventes.
Socorristas e voluntários completaram o quarto dia de trabalhos sobre montanhas de escombros, na esperança de conseguir algum resgate milagroso após a tragédia, que deixou 287 mortos até o momento.
O terremoto de magnitude 7,4 atingiu localidades do Pacífico e da região cafeeira, no oeste do país, onde as autoridades buscam 379 pessoas que estão desaparecidas.
Máquinas pesadas já removem escombros em vários pontos do país onde foi descartada a possibilidade de haver sobreviventes. Nas áreas mais devastadas, o odor de decomposição começa a se espalhar.
O desgaste acumulado pelos dias de trabalho intenso começa a afetar o moral das equipes de resgate em Pereira, uma das cidades mais atingidas.
Vestido com batina, rosário na mão e capacete, o padre Nelson Giraldo distribui abraços aos socorristas exaustos.
"Minha cidade (...) caída, corações silenciosos, cabeças baixas, olhares tristes, gente sentada, mas com vontade de se levantar, tijolos, poeira, lágrimas, cheiro de sangue", descreveu, desolado, o religioso de 72 anos.
Diante das dificuldades, um técnico de som voluntário pede autorização para entrar em uma área destruída e introduzir microfones especiais entre estruturas metálicas e paredes.
Há esperança, "se nos permitirem entrar, fizerem com que todos fiquem em completo silêncio e pudermos colocar os microfones e pedir (às possíveis vítimas) algum sinal de vida, batidas, arranhões, gritos", disse Néstor Vélez, de 45 anos.
- Situação "apocalíptica" -
Usando capacete e lanterna, Hernán Giraldo, de 43 anos, procurava o filho sob os escombros de um hotel em Pereira, convencido de que ele ainda estava vivo. Juan Felipe Giraldo, de 24 anos, tinha casamento marcado para o próximo domingo com a namorada. À tarde, seu corpo foi encontrado.
Em Cali, a cidade com o maior número de mortos, parte do necrotério desabou, e os corpos encontrados estão sendo levados para Palmira, a 30 quilômetros de distância.
Nos arredores, cerca de 20 pessoas esperam notícias de parentes mortos ou desaparecidos. Enquanto aguardam, algumas procuram as tendas destinadas a atendimento psicológico, alimentação e hidratação ou um espaço para orações identificado por uma placa com a frase "Quer que oremos por você?".
Lorena León chegou ao local para buscar os corpos de três primas que morreram no desastre. Elas foram encontradas na quinta-feira, abraçadas sob uma mesa.
"A espera foi muito dura. Com o coração na mão e a fé intacta, sempre esperamos um milagre", disse.
Os funerais começam a se multiplicar. Em Cali, Iván Delgado participava do enterro de uma tia e de uma amiga dela, que morreram juntas. Pensando no futuro, ele afirmou que a recuperação do país "será longa e custosa".
Com apenas uma semana no poder, o novo presidente Abelardo de la Espriella enfrenta o desafio de administrar a crise e acelerar a reconstrução.
Sem entrar em detalhes, anunciou um possível aumento de impostos. Ao longo da semana, fez visitas rápidas às cidades afetadas, onde prometeu subsídios para aluguel.
"A situação é apocalíptica", declarou o presidente em Pereira ao lado da esposa, a quem encarregou da gestão dos recursos financeiros e de outras doações do setor privado.
- Solidariedade -
O terremoto destruiu mais de 13 mil moradias, deixando famílias inteiras sem abrigo e submetidas a uma nova tragédia. Em parques e espaços abertos, centenas de sobreviventes que perderam suas casas passam as noites em pequenas barracas.
Em um campo de futebol de Cali, um grupo de famílias preparava uma sopa típica em fogões a lenha. Patricia Romero, de 26 anos, contou que, após o terremoto, seu filho de oito anos passou a sofrer desmaios esporádicos "por causa do nervosismo".
"Qualquer movimento, qualquer coisa que o assuste, ele desmaia e cai", relatou enquanto os dois filhos brincavam com uma bola.
Em meio à emergência, milhares de pessoas em todo o país arrecadam alimentos, água, medicamentos e roupas para enviar às áreas atingidas.
Em Bogotá, o principal estádio da cidade foi preparado para receber toneladas de doações. Centenas de voluntários formam correntes humanas para levar os mantimentos até a área de triagem. De tempos em tempos, a multidão aplaude para manter o ânimo.
O Banco Mundial anunciou nesta sexta-feira o desembolso de US$ 200 milhões para atender à emergência. A instituição também iniciou "um estudo rápido para determinar o custo do terremoto".
Diversos países, incluindo os Estados Unidos, tradicional aliado da Colômbia, anunciaram ajuda ao país. Na quinta-feira, o governo do presidente Donald Trump elevou sua assistência para US$ 26,5 milhões.
* AFP





