
O resultado do segundo turno da eleição presidencial no Peru segue incerto nesta quarta-feira (10), com o empate técnico de 0,77% entre o esquerdista Roberto Sánchez e a candidata de direita Keiko Fujimori. Segundo a contagem preliminar do Escritório Nacional de Processos Eleitorais, com 97% das urnas apuradas, Sánchez, da legenda Juntos pelo Peru, tinha 50,071% dos votos, ante Fujimori, do partido Força Popular, com 49,929%.
A diferença entre ambos é de aproximadamente 26,7 mil votos — em um universo de aproximadamente 17,6 milhões de votos válidos.
Após o fechamento das urnas no domingo (7), o presidente do Tribunal Nacional de Eleições (JNE, na sigla em espanhol), Roberto Burneo, afirmou que o resultado final poderá ser conhecido apenas "nos próximos 30 dias" e pediu serenidade à população e aos partidos. Milhares de seguidores se reuniram em dois pontos da capital peruana para comemorar antecipadamente os resultados de seus candidatos.
— Estamos em um empate técnico, até o momento, não há nenhum vencedor. Serão dias longos — afirmou Fujimori, diante de seus apoiadores, a quem pediu paciência.
Sánchez também citou um "empate".
— Que a contagem prossiga dentro dos padrões de uma eleição transparente — declarou em uma praça lotada de apoiadores.
Keiko Fujimori, filha do ex-presidente autocrata Alberto Fujimori (1990-2000), está em sua quarta tentativa de chegar à presidência. No segundo turno, ela enfrentou Sánchez, herdeiro político do ex-mandatário Pedro Castillo, preso pela tentativa fracassada de autogolpe de Estado de 2022.
Muitos eleitores afirmaram esperar que as eleições acabem com a criminalidade que assola o país e com a turbulência política da última década: o Peru teve oito presidentes desde 2016.
Celebração dos dois lados
Fujimori, uma administradora de 51 anos, apela ao legado ambivalente do pai, que estabilizou a economia, derrotou a insurgência, mas foi acusado de crimes contra a humanidade.
— Estou feliz porque sei que ela vai fazer um bom governo. Por quê? Porque ela quer limpar a imagem do pai — afirmou Gladys Silva, dona de casa de 56 anos, durante o evento do partido de Fujimori em Lima.
Sánchez, congressista e ex-ministro de 57 anos, reivindica o legado camponês de Castillo. Como demonstração de lealdade, usa o chapéu camponês que ganhou dele, prometeu indultar o ex-presidente e o visitou na prisão no domingo.
— Queremos mudança porque estamos cansados da corrupção, do fujimorismo que administra o país como se fosse sua chácara — disse Marlene Veramendi, 46 anos.
A votação, para a qual foram convocados 27 milhões de eleitores, aconteceu sem incidentes, ao contrário do caótico primeiro turno de abril.
"Legitimidade frágil"
Sob a palavra "ordem", Fujimori prometeu prosperidade e advertiu sobre o perigo do "comunismo". Sánchez moderou o seu discurso de "mudança radical" do primeiro turno, se distanciou dos ultranacionalistas e disse à AFP que quer ter uma relação "respeitosa" com Washington.
O esquerdista acusa Fujimori de integrar a "ditadura" do Congresso poderoso que derruba presidentes, onde ela é influente. Sem afetar o segundo turno, um juiz mandou Sánchez a julgamento por supostas anomalias financeiras em seu partido. Se for eleito presidente, ele terá imunidade, mas ficará vulnerável diante de um parlamento inclinado à direita.
— O eleito terá metade do país contra si e uma legitimidade frágil, razão pela qual, sem maioria legislativa, deverá construir uma coalizão para governar — disse à AFP o cientista político Paulo Vilca.
O vencedor substituirá a partir de 28 de julho o presidente interino José María Balcázar.
Criminalidade no Peru
Apesar da desilusão política, a maior preocupação dos peruanos é a insegurança em um país onde abundam as quadrilhas criminosas e as denúncias de extorsão aumentaram nove vezes em cinco anos.
Para enfrentar a violência, Fujimori sugere a linha-dura: militarizar as prisões e as zonas conflituosas, e expulsar migrantes para acabar com a "praga social" com a "mesma força" com que seu pai venceu a insurgência nos anos 1990.
Sánchez propõe enfrentar a corrupção na polícia e na justiça, diante do que denuncia ser uma cumplicidade das elites políticas com a criminalidade. A sua base social está na zona rural empobrecida, onde a insegurança é menor. A base de Fujimori fica em Lima, onde a taxa de homicídios triplicou em 2025 na comparação com 2020, chegando a 23 por 100 mil habitantes.
O vencedor das eleições governará um Peru economicamente estável, com crescimento do PIB de 3,4%. Mas sete em cada 10 trabalhadores estão na informalidade.
Fujimori defende propostas neoliberais, o respeito à propriedade privada e a atração de investimentos americanos. Sánchez prometeu aumentos salariais e tentou tranquilizar os investidores, ao dizer que vai manter a abertura econômica e a independência do estratégico banco central.




