
A onda de calor que atinge a Europa provocou mais de 1,3 mil mortes adicionais atribuíveis às altas temperaturas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). O balanço expõe a dimensão sanitária de um fenômeno que, nos últimos dias, bateu recordes, fechou escolas, afetou transportes e colocou serviços de emergência sob pressão.
A França aparece como um dos países mais atingidos. Autoridades sanitárias francesas registraram cerca de mil mortes em apenas três dias de calor extremo, entre quarta (24) e sexta-feira (26). A maioria das vítimas era formada por pessoas com 65 anos ou mais, grupo especialmente vulnerável quando as temperaturas permanecem elevadas também durante a noite.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) afirma que a onda de calor do fim de junho derrubou recordes em diferentes pontos do continente e teve impactos sobre saúde, ecossistemas, agricultura, infraestrutura e produtividade. Em alguns locais, os termômetros passaram dos 40°C.
Na França, a temperatura média chegou a 30°C em 24 de junho, o maior valor já registrado no país. Em Pulluau, no oeste francês, a máxima alcançou 43,8°C. Espanha, Reino Unido, Alemanha, Holanda e Suíça também registraram marcas incomuns para junho, de acordo com a OMS.
O calor extremo alterou a rotina em vários países. A França suspendeu aulas em escolas, cancelou eventos ao ar livre e enfrentou perturbações no transporte ferroviário. Na Alemanha, serviços de trem e bonde foram afetados. Na Itália, cidades como Roma, Milão, Turim, Veneza, Gênova, Florença e Bolonha entraram em alerta vermelho.
A crise também chegou ao setor energético. Rios mais quentes e com menor volume dificultaram a operação de usinas nucleares e reduziram a capacidade de resfriamento em países como Hungria e Suíça. Na Itália, o nível baixo do Rio Pó permitiu o avanço da água do mar por quilômetros, aumentando a preocupação com a agricultura e áreas ambientais protegidas.
Risco silencioso
Especialistas costumam definir o calor extremo como um “assassino silencioso” porque muitas mortes não aparecem imediatamente como resultado direto da temperatura. O impacto costuma agravar doenças cardiovasculares, respiratórias, cerebrovasculares, transtornos mentais e diabetes, além de atingir com mais força idosos, crianças, gestantes, trabalhadores ao ar livre e pessoas em situação de rua.
O perigo aumenta quando as noites continuam quentes. Sem resfriamento durante a madrugada, o corpo não consegue se recuperar do estresse térmico acumulado durante o dia. Por isso, mínimas elevadas podem ser tão importantes quanto as máximas na avaliação do risco à saúde.
A OMS já havia alertado neste mês que o calor matou mais de 200 mil pessoas nos últimos quatro anos na União Europeia e em países associados. A entidade afirma que grande parte dessas mortes poderia ser evitada com planos de ação, sistemas de alerta, adaptação urbana e proteção de grupos vulneráveis.
Um estudo rápido da rede World Weather Attribution aponta que a atual onda de calor seria virtualmente impossível nos padrões climáticos de 50 anos atrás. Segundo os pesquisadores, o aquecimento global tornou episódios desse tipo muito mais prováveis, intensos e perigosos, especialmente em cidades pouco preparadas para longos períodos de temperatura extrema.
A previsão indica alívio em parte da Europa Ocidental, mas a massa de ar quente deve avançar em direção à região central do continente e aos Bálcãs. Autoridades de saúde alertam que os efeitos podem continuar mesmo depois da queda dos termômetros, porque internações e óbitos associados ao calor costumam aparecer com atraso.



