Exatos cem anos após a morte de seu arquiteto e idealizador, Antoni Gaudí, a famosa Basílica da Sagrada Família, em Barcelona, teve sua torre mais alta inaugurada pelo papa Leão XIV, nesta quarta-feira (10), num ritual cercado de fé, emoção, esperança e orgulho local. Em uma missa celebrada no local, o pontífice abençoou a nova estrutura e homenageou o centenário do passamento de Gaudí.
Milhares de fiéis de todas as partes do mundo se reuniram no entorno do monumento, emocionados, repetindo trechos da oração do líder da Igreja Católica. A mobilização reflete a importância da basílica e de Gaudí para a maior cidade da Catalunha. Boa parte da região carrega os traços e o legado deixados pelo arquiteto.
Desde as primeiras horas do dia, Barcelona efervescia com a presença do Papa. Jovens, idosos e sacadas da cidade carregavam as cores branca e amarela, da bandeira do Vaticano. Além disso, um forte aparato de segurança marcava as principais ruas e avenidas da região central.
Natural do Rio de Janeiro e prestes a completar 10 anos em Barcelona, a moderadora de conteúdo Katja Polisseni, 53 anos, está entre as pessoas que se aglomeravam em torno da basílica. Ela destaca que nem sempre consegue ir à igreja, mas acabou sendo impactada pelo clima na cidade:
— Hoje de manhã percebi o movimento quando fui para o trabalho, tive que ir perto de onde ele (o Papa) estava hospedado. Achei bonito a fé, as pessoas mobilizadas, saí correndo do trabalho para encontrar a minha amiga que está aqui a trabalho e viemos andando até aqui. Mas é bonito ver a fé das pessoas, com bastante jovens também.
Com os olhos pregados na basílica enquanto Leão XIV orava, o advogado espanhol Jose Arnó, 65 anos, não escondia a felicidade por participar desse momento histórico. Relembrando a história do momento, destacou a importância da fé na união dos povos:
— É uma dádiva imensa que nós, cristãos, recebemos. E poder, como barcelonês, receber o Papa e testemunhar a inauguração desta torre de Jesus, cuja construção começou sob o pontificado de Leão XIII e agora culmina com o de Leão XIV, é uma dádiva maravilhosa de Deus. Não importa a cor da pele, idioma ou país, todos estamos em comunhão com Cristo.
Show de luzes e fogos de artifício
Cerca de 9 mil pessoas, segundo a AFP, acompanharam a cerimônia de dentro da igreja, e outras milhares estiveram no entorno da imponente edificação. Após a oração, coro e homenagens da comitiva católica no local, um show de luzes e fogos de artifício iluminou e destacou a icônica nova estrutura, batizada Torre de Jesus Cristo. Fiéis vibraram como se fosse um gol em uma final de Copa do Mundo.
Durante sua homilia na basílica, onde a luz do sol entrava pelas janelas de vitrais iluminando as colunas, Leão XIV afirmou que aqueles que creem em Jesus não podem "promover a guerra".
— Esta cruz brilha de dia, refletindo a luz do sol, e brilha de noite, iluminando a cidade como um farol aberto para o Mediterrâneo — disse o pontífice na missa que foi celebrada em espanhol, catalão e latim.
A visita do papa Leão XIV, a terceira de um papa à obra-prima modernista ainda inacabada de Antoni Gaudí, depois de João Paulo II e Bento XVI, acontece um século após a morte do venerado arquiteto, um católico devoto cujo processo de canonização está em andamento no Vaticano.
O pontífice foi recebido na basílica pelo Rei e pela Rainha da Espanha, Felipe VI e Letizia, e antes de entrar, uma menina cega mostrou-lhe uma maquete da torre que ele estava prestes a abençoar.
A mais alta do mundo
A torre de Jesus Cristo, peça central que se ergue acima do complexo concluído em fevereiro, levou a Basílica da Sagrada Família a sua altura máxima de 172,5 metros, tornando-a a mais alta do mundo.
O topo fica ligeiramente abaixo da montanha de Montjuïc, com 177 metros, seguindo as instruções de Gaudí, que não queria que a construção ultrapassasse a criação de Deus.

A construção da igreja sofreu inúmeros contratempos desde que Gaudí assumiu o projeto em 1883. Financiada por doações — incluindo a receita das visitas turísticas — a conclusão da igreja estava prevista para 2026, coincidindo com o centenário da morte de Gaudí. Contudo, a pandemia forçou o abandono desse plano.
Consagrada e elevada à categoria de basílica pelo papa Bento XVI em 2010, a igreja poderá ser concluída em cerca de 10 anos. Os planos dependem de não haver novos contratempos que afetem o fluxo de visitantes pagantes.
*O repórter Anderson Aires está em Barcelona acompanhando comitiva de empresários gaúchos




