
Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump reúnem-se nesta quinta-feira (7), na Casa Branca, em um momento delicado do ponto de vista interno para ambos. Lula desembarca nos Estados Unidos após derrotas significativas no Congresso Nacional: a rejeição histórica do nome de Jorge Messias para o STF e a derrubada do veto ao PL da Dosimetria — que beneficia diretamente condenados pelos ataques de 8 de janeiro, como o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Do outro lado da mesa, Donald Trump também não vive dias mais tranquilos. A aprovação ao seu governo despencou. Os americanos cobram o preço da escalada no Oriente Médio e da inflação nos combustíveis, gerada pelo conflito com o Irã.
A conversa, que deve ocorrer no tradicional Salão Oval, não será apenas uma troca de cortesias diplomáticas, mas uma negociação que deve abordar quatro eixos fundamentais:
- Minerais críticos e terras raras: os EUA querem reduzir a dependência da China e veem no Brasil um parceiro estratégico. Lula condiciona o acordo à transferência de tecnologia e à industrialização local (fábricas de baterias).
- A "defesa do Pix": Washington alega que o sistema brasileiro prejudica gigantes como Visa e Mastercard. Lula defende o Pix como soberania digital.
- A questão do Irã: Trump deve pressionar pelo isolamento de Teerã. O Itamaraty resiste, focando na segurança do comércio marítimo e na estabilidade dos preços do petróleo. O desafio de Lula é oferecer uma "mediação" sem parecer alinhado ao belicismo de Washington.
- Tarifaço: o Brasil busca isenção permanente na taxa global sobre aço e alumínio hoje vigente em 50% pois se baseia na Seção 232 da Lei de Expansão Comercial.
O governo Lula enxerga a visita como um contraponto às dificuldades políticas internas, enquanto Trump busca consolidar o Brasil como um parceiro estratégico que ofereça alternativa à hegemonia chinesa no setor mineral.
O vaivém da relação entre Lula e Trump
2025: tarifaço, conversa na Malásia e telefonema no final do ano
A relação entre Lula e Donald Trump atravessou intensas transformações. Em julho de 2025, o republicano aplicou um pesado tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros, medida que entrou em vigor em agosto do mesmo ano. Trump impôs a sobretaxa alegando uma "caça às bruxas" contra Jair Bolsonaro, dizendo que a maneira como o Brasil tratou o ex-presidente é "uma desgraça internacional", e afirma que as tarifas se devem "em parte devido aos ataques insidiosos do Brasil contra eleições livres e à violação fundamental da liberdade de expressão dos americanos". O governo norte-americano, na época, aplicou sanções a ministros do STF. Lula reagiu de forma enérgica. O presidente brasileiro sugeriu que o presidente norte-americano queria ser o imperador do planeta Terra. Lula ainda ainda afirmou que "o Brasil não aceitaria intromissão na decisão da justiça brasileira".
Em agosto, Lula manteve a postura de altivez, afirmando que "um homem digno não rasteja diante de outro", estabelecendo que o diálogo com Washington ocorreria apenas em termos de igualdade.
Em setembro, na 80ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, em Nova York, após o discurso de Lula na abertura da sessão, Trump declarou que os dois se abraçaram e que havia surgido uma "boa química" entre eles. Na ocasião, Lula disse que "ficou feliz" quando Donald Trump, disse que sentiu "uma química" com ele.
No mês de outubro, na Malásia, ocorreu a primeira conversa olho no olho. Os dois líderes se encontraram por cerca de 45 minutos. Um mês depois, Trump recuou e reduziu tarifas de 40% sobe produtos agrícolas brasileiros, sinalizando uma trégua. O ano de 2025 encerrou entre eles com uma conversa por telefone. Os líderes trataram das tarifas que ainda incidem sobre alguns produtos brasileiros e de ações conjuntas de combate aos grupos criminosos com ramificações internacionais.
2026: crises geopolíticas, Ramagem e o atentado
O início de 2026 trouxe desafios geopolíticos. A captura de Nicolás Maduro por forças americanas na Venezuela e a escalada de guerra entre EUA e Irã voltaram a distanciar os líderes. Lula criticou a postura beligerante de Trump, afirmando em fóruns internacionais que o americano "ameaçava todo mundo" e que o Brasil não aceitaria ser "colonizado outra vez". Enquanto Trump entrava em rota de colisão com aliados europeus, Lula aproveitava o vácuo para recuperar o protagonismo diplomático do Brasil na Europa.
Apesar das críticas públicas, o canal direto nunca foi fechado. Em janeiro, novo contato telefônico. Trump apresentou a Lula o projeto do "Conselho de Paz". Eles aproveitaram para falar sobre situação na Venezuela e combinar o encontro nos EUA. No mês seguinte, a Suprema Corte dos EUA aplicou um revés ao republicano ao considerar o tarifaço imposto a dezena de países ilegal.
O caso Alexandre Ramagem
O ex-diretor da Abin no governo de Jair Bolsonaro, condenado no STF pela trama golpista, busca asilo nos EUA. No mês passado, Alexandre Ramagem, que teve o mandato de deputado federal cassado, chegou a ser detido por agentes do ICE (a polícia de imigração dos EUA). Foi liberado dias depois e atualmente aguarda o pedido de asilo em liberdade. O episódio ganhou novos desdobramentos com o pedido americano para a saída do delegado da Polícia Federal (PF) Marcelo Ivo de Carvalho, oficial de ligação da corporação no país, sob a justificativa de que o trâmite solicitado para a cooperação jurídica — prisão e eventual extradição de Ramagem — não teria seguido os protocolos oficiais. O episódio gerou ruído entre Brasília e Washington, levantando dúvidas sobre a cooperação em inteligência e segurança entre os dois países. No final do mês, Lula da Silva manifestou solidariedade a Trump após os disparos em um hotel onde era realizado o jantar anual da Associação de Correspondentes da Casa Branca, no dia 25 de abril. Na ocasião, Trump e a esposa foram retirados do local sob escolta do Serviço Secreto.
Apesar do estresse causado pelo caso Ramagem e pelas divergências no Oriente Médio, Lula e Trump confirmam a reunião bilateral em Washington. O vice-presidente da República Geraldo Alckmin, aposta na conexão pessoal dos líderes para superar os impasses institucionais.




