
Desde que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, publicou na manhã da terça-feira (7) uma mensagem afirmando que "uma civilização inteira morreria esta noite" caso o Irã não reabrisse o Estreito de Ormuz até as 21h, o resto do planeta passou o dia angustiado em compasso de espera.
Após novas rodadas de ataques na região e tentativas de negociações ao longo da tarde, um acordo de cessar-fogo temporário foi anunciado pelo presidente norte-americano por volta das 19h30min. As conversas começam na sexta-feira (10) no Paquistão. Segundo a Casa Branca, há discussões sobre a possibilidade de negociações presenciais.
"Desde que a República Islâmica do Irã concordasse com a abertura completa, imediata e segura do Estreito de Ormuz, concordo em suspender os bombardeios e ataques ao Irã por um período de duas semanas. Este será um cessar-fogo bilateral!", escreveu Trump no comunicado.
Ao mesmo tempo em que Donald Trump é reconhecido pela comunidade internacional por sua imprevisibilidade, o presidente norte-americano também tem a fama de "bravateiro" ou, no mínimo, de alguém que usa ameaças como poder de barganha em uma negociação.
Para João Jung, professor de Relações Internacionais da PUCRS, Trump levou em consideração o desgaste que sofreria em caso de realizar novos ataques de grandes proporções no território iraniano.
— Havia um grande custo político e diplomático para Trump e ele fez esse cálculo antes de anunciar este cessar-fogo temporário. Internamente, o conflito vem minando a popularidade de Trump nos Estados Unidos, com o presidente sofrendo cada vez mais contestações, e um escalonamento não seria visto com bons olhos. Externamente, há também um desgaste crescente com os aliados dos EUA no Oriente Médio, que vinham sofrendo ataques de retaliação do Irã, inclusive hoje. A ameaça não foi necessariamente uma bravata. No fim das contas, foi um cálculo que ele fez e optou por não atacar — afirma Jung.
Para Roberto Uebel, professor de Relações Internacionais da ESPM-SP, o anúncio do cessar-fogo, neste momento, é conveniente tanto para os Estados Unidos quanto para o Irã.
— Por um lado, é uma guerra que já tinha custado muito a popularidade do presidente Trump nos Estados Unidos, especialmente considerando que em novembro teremos eleições de meio de mandato lá. Haverá um redesenho de estratégias para a construção de uma narrativa de que os Estados Unidos ganharam a guerra. Por outro lado, para o Irã também é muito conveniente esse anúncio, porque o país consegue reorganizar as suas forças, sua infraestrutura, e talvez buscar novas alianças para reforçar sua posição — destaca o docente.
Posicionamento do Irã
Cerca de uma hora após a publicação da mensagem de Donald Trump, o Irã também fez um anúncio em relação ao cessar-fogo. Além de confirmar a adesão à proposta, os iranianos confirmaram que reabrirão o Estreito de Ormuz.
"Por um período de duas semanas, a passagem segura pelo Estreito de Ormuz será possível mediante coordenação com as Forças Armadas do Irã e com a devida consideração das limitações técnicas", disse, em nota, o ministro Seyed Abbas Araghchi.
Desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, o Irã tem utilizado principalmente duas estratégias de ação. Além de fazer bombardeios a instalações militares dos Estados Unidos e de países aliados dos norte-americanos no Oriente Médio, os iranianos também tomaram medidas de impacto econômico, como justamente a restrição imposta ao Estreito de Ormuz.
— O Irã tem um relevante poderio militar, inclusive demonstrou recentemente ter mísseis de longo alcance, mas, mesmo assim, não tem a mesma capacidade militar de Estados Unidos ou mesmo Israel. Por isso, os iranianos se valem muito de sua posição estratégica em relação à produção e ao escoamento do petróleo para aumentar sua capacidade de negociação. Quanto mais passava o tempo sem Trump conseguir uma solução para o trânsito do petróleo, mais aumentava o preço dos combustíveis e a pressão interna sobre o presidente norte-americano. Por isso, seu foco principal estava na reabertura de Ormuz — destaca o professor de Relações Internacionais da ESPM-SP Fabio Andrade.

Em complemento, o professor Jung ressalta a eficiência da estratégia de retaliação iraniana como forma de resistência e poder de barganha nas negociações.
— Além do Estreito de Ormuz, o Irã já sinalizava com a possibilidade de fechar o Estreito de Bab el-Mandeb, que é outro gargalo das cadeias globais, o que aumentaria ainda mais a pressão sobre os preços dos combustíveis e do comércio internacional como um todo. Do ponto de vista militar, o Irã também se mostrou resiliente com a estratégia de reação cruzada, atacando países vizinhos que são parceiros dos Estados Unidos, como Kuwait, Bahrein, Emirados Árabes e Qatar, que não têm a mesma capacidade de autodefesa de Israel, e esses ataques também vinham gerando um desgaste diplomático para os Estados Unidos na região, o que entrou no cálculo de Trump — reforça.
Próximos passos
O anúncio feito por Trump e posteriormente confirmado pelo Irã se refere a um cessar-fogo temporário, inicialmente de duas semanas. O professor Fabio Andrade avalia ser precipitado afirmar que o anúncio garantirá uma paz definitiva na região.
— Trump estava esperando um momento em que pudesse cantar vitória na guerra, e talvez esse momento tenha chegado, mas não há garantias de que o conflito acabe de vez. O anúncio se refere a um cessar-fogo temporário, de duas semanas, com condições a seguir para os dois lados. Caso haja novos estremecimentos entre as duas partes durante esse período, as agressões podem voltar — ressalta.
Logo após o anúncio do cessar-fogo, o preço do petróleo registrou relevante queda em relação ao observado ao longo do dia. Por isso, um dos efeitos do anúncio da trégua temporária deverá ser o de certa normalização dos preços no mercado internacional.
— Esse período de cessar-fogo pelo menos tira um pouco da pressão inflacionária que já avançava por diversos países, inclusive os Estados Unidos. O Brasil, agora, também poderá ter uma previsibilidade maior em relação ao preço do petróleo, o impacto nos combustíveis e também em outros produtos afetados pelo seu uso — destaca o professor Roberto Uebel.



