
Navios voltaram a cruzar o Estreito de Ormuz desde que o Irã aceitou reabrir a passagem estratégica no âmbito de um acordo de cessar-fogo com os Estados Unidos, informou nesta quarta-feira (8) a empresa de monitoramento marítimo MarineTraffic.
"O graneleiro NJ Earth, pertencente a um armador grego, atravessou o estreito às 08h44min (horário local) enquanto o Daytona Beach, com bandeira da Libéria, realizou sua travessia antes, às 06h59min (horário local), pouco depois de ter partido do porto de Bandar Abbas", segundo a conta da empresa na rede social X.
Estados Unidos e Irã concordaram com trégua de duas semanas. Durante esse período, os trânsitos por Ormuz serão realizados "em coordenação com as forças armadas iranianas", declarou no X o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi.
Nesta quarta-feira, ambos os países declararam vitória.
— Uma vitória total e completa, 100%, sem dúvida — disse o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à AFP por telefone, logo após o anúncio.
Ele também afirmou que a questão do urânio iraniano, que os países ocidentais alegam poder ser usado para fabricar armas nucleares, seria "perfeitamente resolvida".
"O Irã alcançou uma grande vitória", declarou o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, afirmando que "o inimigo sofreu uma derrota inegável, histórica e esmagadora". As autoridades do país anunciaram negociações com representantes de Washington a partir de sexta-feira (10) no Paquistão, que tem desempenhado um papel fundamental como mediador.
O conflito começou em 28 de fevereiro com a ofensiva conjunta israelense-americana contra o Irã, que, em seu primeiro dia, resultou no assassinato do líder supremo Ali Khamenei. No mesmo dia, Trump pediu a queda da República Islâmica, posição que posteriormente abandonou. Em 2 de março, o conflito se espalhou para o Líbano, onde o exército israelense luta contra o movimento pró-iraniano Hezbollah, apoiado por Teerã.
O presidente americano exigiu que o acordo garantisse a abertura "total, imediata e segura" do Estreito de Ormuz, vital para o fornecimento global de hidrocarbonetos, e anunciou na Truth Social que as negociações estão "muito avançadas" para uma paz duradoura.
O Irã propôs a Washington um plano de 10 pontos para garantir a paz, que inclui o reconhecimento, por Washington, do programa de enriquecimento de urânio iraniano, além da suspensão de todas as sanções que têm prejudicado a sua economia há anos.
O documento, publicado pelo Conselho Supremo de Segurança Nacional e divulgado pela mídia estatal, inclui "o princípio da não agressão, a manutenção do controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz, a aceitação do enriquecimento de urânio e a suspensão de todas as sanções primárias e secundárias".
"O Irã realizará negociações com os Estados Unidos em Islamabad, capital do Paquistão, por um período de duas semanas", indicou o conselho, especificando que "isso não significa o fim da guerra" e que esse período poderá ser prorrogado "por mútuo acordo entre as partes". Araghchi confirmou no X que os líderes iranianos concordaram em reabrir o Estreito de Ormuz "por um período de duas semanas se os ataques contra o Irã cessarem".
O anúncio de cessar-fogo foi feito uma hora antes de expirar o último de uma série de ultimatos enviados por Trump ao Irã. Desta vez, Trump ameaçou erradicar "uma civilização inteira".
Israel, contudo, negou pouco depois que o cessar-fogo também se aplicasse ao Líbano e, de fato, emitiu uma ordem de evacuação para vários bairros no sul de Beirute, reduto do movimento pró-Irã Hezbollah, com o qual está em guerra novamente desde 2 de março. Desde o início do conflito, pelo menos 1,5 mil pessoas morreram, segundo uma contagem das autoridades libanesas.
Apesar de todos esses anúncios, algumas horas depois, duas pessoas ficaram feridas nesta quarta-feira no Bahrein por um drone iraniano, disseram as autoridades. O exército israelense informou que o Irã lançou três rajadas de mísseis em direção ao seu território logo após o anúncio de Trump. Israel "permanece em alerta máximo, pronto para responder a qualquer violação" do cessar-fogo, afirmou.
Petróleo
Após o acordo, os preços do petróleo, tanto WTI quanto Brent, despencaram para menos de US$ 100 (R$ 516), depois de atingirem cerca de US$ 120 (R$ 619) no auge da crise. Na Ásia, as bolsas de valores de Tóquio (+5,4%) e Seul (+7%) fecharam com altas significativas.
Apesar do otimismo do mercado, a International Air Transport Association (IATA) — Associação Internacional de Transporte Aéreo, em tradução livre — alertou que levará "meses" para normalizar o fornecimento de combustível e afirmou que um aumento nos preços das passagens aéreas é "inevitável".
Tarifa de 50% a fornecedores de armas
Donald Trump afirmou nesta quarta-feira, em uma postagem na sua rede social Truth Social, que o país "trabalhará em estreita colaboração com o Irã" e que Teerã passou por uma "mudança de regime muito produtiva" e indicou avanço nas negociações bilaterais.
O republicano também elevou o tom ao afirmar que qualquer país que forneça armas militares ao Irã será "imediatamente tarifado em 50% sobre todos os bens vendidos aos EUA", sem exceções.
Segundo o republicano, não haverá enriquecimento de urânio por parte do Irã, um dos pontos centrais das tratativas. Ele acrescentou que Washington atuará junto aos iranianos para "remover toda a 'poeira' nuclear profundamente enterrada", sob monitoramento rigoroso.
"Nada foi tocado desde a data do ataque", disse, mencionando ainda vigilância por satélites da Força Espacial dos EUA.
Trump também declarou que Washington e Teerã estão discutindo alívio tarifário e de sanções.
"Estamos, e estaremos, conversando sobre alívio de tarifas e sanções com o Irã. Muitos dos 15 pontos já foram acordados", escreveu.

