
Desde o primeiro ataque de Estados Unidos e Israel, em 28 de fevereiro, não foram raras as ameaças e ultimatos de Donald Trump, presidente americano, ao Irã. Nenhum recado, contudo, foi tão extremo quanto o da manhã de terça-feira (7). Trump prometeu a morte de "uma civilização inteira" caso o governo iraniano não cedesse aos americanos.
O prazo estipulado pela Casa Branca para a liberação da passagem findaria às 21h, no horário de Brasília. Cerca de uma hora e meia antes, no entanto, Trump anunciou a suspensão de ataques contra o Irã. A decisão atendeu a um pedido do Paquistão.
"Eu aceito suspender o bombardeio e o ataque contra o Irã por um período de duas semanas", publicou, nas redes sociais.
O comunicado tranquilizou o mundo após 10 horas de tensão e representou mais um movimento de idas e vindas retóricas de Donald Trump. Desde o primeiro ultimato, quando prometeu "obliterar" o Irã, o americano já adiou ataques pelo menos três vezes. As falas, além de repercussão política e militar, influenciam no comportamento da economia, principalmente em relação ao preço do petróleo.
— Minha previsão é que, à medida que nos aproximarmos de um novo prazo — mais um em uma longa série de ultimatos —, o presidente declarará vitória e dirá: "Consegui levar o Irã à mesa de negociações; vou conceder mais duas semanas". E assim, dentro de algumas semanas, veremos o mesmo filme novamente — disse à AFP Peter Loge, diretor da Escola de Mídia da Universidade George Washington.
Plano de 10 pontos
O principal desejo de Washington era a liberação do Estreito de Ormuz, hidrovia controlada pelo Irã e considerada essencial para a economia do planeta — por lá, passa 20% da produção mundial de petróleo. O brete geográfico está com a circulação restrita desde o início de março, impactando o preço dos combustíveis em todo o mundo — com reflexos já sentidos no Brasil.
Segundo Trump, o cessar-fogo bilateral foi condicionado justamente à abertura "completa, imediata e segura" de Ormuz.
"A razão para tal é que já cumprimos e superamos todos os objetivos militares e estamos muito avançados em um Acordo definitivo sobre a paz a longo prazo com o Irã e a paz no Oriente Médio", escreveu o presidente americano.

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, disse que Teerã vai suspender ações defensivas no estreito desde que os ataques contra o país sejam interrompidos.
"Por um período de duas semanas, será possível a passagem segura pelo Estreito de Ormuz, mediante coordenação com as Forças Armadas do Irã e com a devida consideração às limitações técnicas", informou em nota.
O governo iraniano apresentou um plano de 10 pontos para as negociações. Na avaliação de Trump a iniciativa é "viável".
Segundo a agência de notícias estatal iraniana Irna, entre os pontos, estão:
- A retirada das forças de combate americanas de todas as bases e pontos de presença na região
- Estabelecimento de um protocolo de trânsito seguro no Estreito de Ormuz, assegurando a supremacia do Irã
- Pagamento integral dos danos sofridos pelo Irã
- Suspensão de todas as sanções primárias e secundárias, bem como a liberação de todos os ativos iranianos congelados no Exterior
O Irã afirma que só aceitará o fim da guerra quando os detalhes do plano de 10 pontos forem finalizados nas negociações.
As conversas começam na sexta-feira (10) no Paquistão. Segundo a Casa Branca, há discussões sobre a possibilidade de negociações presenciais.
O dia de tensão
A ameaça de Trump, ao seu estilo, foi feita nas redes sociais — especificamente, na plataforma criada pelo próprio presidente, a Truth Social — durante a manhã. A longa mensagem era, também, vaga. Não detalhava o que seria feito e parecia mais falada pelo americano, com seus vaivéns discursivos, do que escrita, como um documento histórico capaz de alterar os rumos do mundo.
"Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada. Eu não quero que isso aconteça, mas provavelmente acontecerá. Contudo, agora que temos uma Mudança de Regime Completa e Total, onde mentes diferentes, mais inteligentes e menos radicalizadas prevalecem, talvez algo revolucionário e maravilhoso possa acontecer, QUEM SABE? Descobriremos esta noite, em um dos momentos mais importantes da longa e complexa história do mundo. 47 anos de extorsão, corrupção e morte finalmente chegarão ao fim. Deus abençoe o grande povo do Irã!", publicou Trump, em tradução livre para o português.

O Irã respondeu. Teerã disse que não ficaria de braços cruzados e falou em crimes de guerra e potencial genocídio por parte dos EUA.
— O presidente dos Estados Unidos recorreu mais uma vez a uma linguagem que não é apenas profundamente irresponsável, mas também extremamente alarmante — declarou Amir Saeid Iravani, embaixador do Irã nas Nações Unidas.
Antes, o Irã já havia ameaçado privar os Estados Unidos e aliados do petróleo e do gás da região por anos. Grupos de iranianos formaram correntes humanas para proteger as usinas elétricas, uma vez que a infraestrutura energética do país é alvo frequente dos ataques dos EUA e de Israel.
Ao longo do dia, explosões foram detectadas no Catar e nos Emirados Árabes Unidos, em resposta à ameaça de mísseis iranianos.
Reações pelo mundo
As declarações de Trump também repercutiram no mundo. O papa Leão XIV classificou como "inaceitável" a ameaça do conterrâneo americano.
— Isso é realmente inaceitável. Certamente há questões de direito internacional, mas muito mais do que isso, trata-se de uma questão moral — disse o Pontífice.
Parlamentares de oposição a Trump, mas também alguns integrantes do Partido Republicano, criticaram o presidente.
O secretário-geral da Organização das Nações Unicas (ONU), António Guterres, expressou preocupação com "declarações que sugerem que todo um povo ou toda uma civilização poderiam ser obrigados a suportar as consequências de decisões políticas e militares", segundo porta-voz.
Também na ONU, Rússia e China fizeram uso do seu direito de veto no Conselho de Segurança para derrubar uma proposta de resolução que exigia o desbloqueio do Estreito de Ormuz e promovia a escolta de navios.
No mercado, os preços do petróleo se comportaram com resultados diferentes. Depois de passar o dia acima de US$ 110, o barril baixou para cerca de US$ 101 depois do anúncio de Trump.
"Trump, que posa de imperador do mundo sem ter sido eleito para isso, impõe ao planeta um custo que está no limite do suportável sob a forma de aumento da inflação, pelo aumento do preço do petróleo e seus derivados, e pelo risco de redução do crescimento caso seja necessário um ajuste também planetário dos juros nacionais — para cima, é claro", escreveu a colunista Marta Sfredo, de Zero Hora.
Antes da guerra, o barril petróleo era vendido por aproximadamente US$ 70.


