
O tiroteio que interrompeu o jantar promovido anualmente pela Associação de Correspondentes da Casa Branca neste sábado (25) se soma a uma escalada de violência política nos Estados Unidos, mas também pode servir para desviar o foco em um momento de crise de popularidade de Donald Trump.
As motivações do episódio ainda não foram esclarecida. O atirador, Cole Tomas Allen, de 31 anos, foi preso ainda na noite de sábado. Ele é formado em engenharia mecânica e ciência da computação e atua como professor "por vocação", segundo sua descrição em uma rede social.
Na coletiva que concedeu após o ocorrido, Trump elogiou o trabalho do Serviço Secreto por protegê-lo e prender o atirador. O presidente americano relembrou outros atentados que sofreu e pediu uma solução pacífica das diferenças internas.
Segundo o professor de Relações Internacionais da ESPM de São Paulo, Roberto Uebel, o episódio é consequência de um discurso de polarização que domina o debate nos Estados Unidos há anos.
— Isso, claro, não justifica. Não justifica a ação do atirador. Mas certamente ele é influenciado por esses discursos de polarização, de incitação à violência, que tem sido uma marca desse segundo governo do presidente Trump. É uma sociedade que está muito enraivecida, muito polarizada e altamente armada — comenta.
Episódios extremos de violência contra presidentes e candidatos não são novidade no Estados Unidos. Franklin D. Roosevelt, Harry S. Truman, Gerald Ford, Ronald Reagan e George W. Bush sofreram atentados. Porém, neste segundo mandato de Trump, eles ficaram mais frequentes.
O professor cita o assassinato do influenciador e apoiador de Donald Trump, Charlie Kirk, e da presidente da Câmara de Representantes de Minnesota, a democrata Melissa Hortman, ocorridos em 2025.
Retórica
Essa não é a primeira vez que Trump é vítima de um atentado (relembre abaixo). Para o professor da ESPM, esses casos acabam sendo incorporados como instrumentos retóricos de Trump.
— A postura dele quando tem na Pensilvânia, quando ele sofre o atentado ali, é uma postura de utilizar aquilo como demonstração de força, em um momento que ele estava com problemas na campanha — relembra.
Na mesma linha, o professor de Relações Internacionais da Universidade Veiga de Almeida (UVA) e apresentador do podcast Petit Journal, Tanguy Baghdadi, aponta para os desdobramentos eleitorais que essa retórica poderá ter.
— Depois desses ataques, Trump se coloca como o outsider, como aquele que tá tentando fazer coisas que os outros nunca fizeram. Isso faz parte da retórica dele que por isso tentam matá-lo então tem uma lógica aqui de uma excepcionalidade — avalia.
Uebel avalia que esse caso pode ofuscar a guerra no Irã, que vem dando dor de cabeça para a popularidade do Republicano. Na última semana, pesquisa da Reuters/Ipsos mostrou que apenas 32% dos americanos aprovavam o governo, enquanto 62% o rejeitavam.
— Pode ser que tenha um reflexo na popularidade do presidente. É interessante acompanhar como é que se traduz nos próximos dias, com a população dando mais confiança, reconhecendo mais o papel de liderança do Trump ou não — completa Uebel.
Em novembro, os americanos irão às urnas nas chamadas Midterms, eleições para senadores e deputados. Neste ano, analistas avaliam que têm potencial para abalar a atual maioria republicana nas duas casas legislativas.
Episódios recentes de violência política nos EUA
Comício na Pennsylvania, junho de 2024
Ainda durante a campanha eleitoral, em 2024, Donald Trump foi baleado enquanto fazia um comício em Butler, na Pennsylvania, no dia 13 de junho. O então candidato foi atingido na orelha direita e precisou ser retirado às pressas.
Outras pessoas também foram beleadas e uma, Corey Comperatore, de 50 anos, morreu.
O atirador, Thomas Matthew Crooks, foi morto por um atirador de elite da equipe de segurança na hora. Ele tinha 20 anos e trabalhava como auxiliar de cozinha.

O episódio levou à renúncia da diretora Serviço Secreto do país, Kimberly Cheatle, pelo que foi classificado como uma falha grave operacional do órgão em décadas.
Mar-a-Lago, setembro de 2024
Algumas semanas depois, o serviço de segurança prendeu Ryan Wesley Routh, de 58 anos, nas proximidades da residência de Donald Trump na Flórida. O caso ocorreu em 15 de setembro.
Routh portava um rifle e foi condenado a prisão perpétua em fevereiro deste ano por por planejar o assassinato de Trump e por acertar em um agente.
Parlamentares democratas, junho de 2025
A deputada estadual Melissa Hortman, e seu marido, Mark, foram mortos a tiros dentro de casa, em Mineápolis, em Minessota, no dia 14 de junho. Segundo os investigadores, o atirador foi identificado como Vance Luther Boelter, de 57 anos.
No mesmo dia, Vance também baleou o senador John Hoffman e sua esposa, na mesma cidade.
Charlie Kirk, setembro de 2025
O podcaster e influenciador Charlie Kirk, apoiador de Trump, foi morto em 10 de setembro de 2025. Tyler James Robinson, de 22 anos, se entregou 33 horas após o ataque e foi acusado de homicídio qualificado. O julgamento ainda não foi concluído, mas a sentença pode levá-lo à pena de morte.
Mar-a-Lago, fevereiro de 2026
Em fevereiro deste ano, um homem foi morto a tiros ao tentar invadir o perímetro de segurança da residência de Mar-a-Lago. O incidente ocorreu por volta de 1h30min, pelo horário local – 3h30min no horário de Brasília. Trump estava em Washington no momento.
*Sob orientação da jornalista Dione Kuhn




