
O 11º dia da guerra no Irã, nesta terça-feira (10), enfatizou a contradição no discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na noite anterior, e a falta de um sinal claro sobre os rumos que o conflito está tomando. Trump afirmou que a ação militar estava "praticamente concluída", mas também prometeu intensificar os ataques caso o Irã impedisse o trânsito de petróleo pelo Estreito de Ormuz.
Este canal liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico, em águas que banham alguns dos maiores produtores de petróleo do planeta, como Catar, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, além do próprio Irã. Por isso, estima-se que, antes da guerra, um quinto do petróleo mundial transitasse por ali. Desde que foi atacado, em 28 de fevereiro, o Irã fechou Ormuz — na prática, prometeu afundar petroleiros que cruzassem o estreito.
Nesta terça, o porta-voz da Guarda Revolucionária do Irã, Ali Mohamad Naini, reiterou o bloqueio:
— As forças armadas iranianas não vão permitir a exportação de um único litro de petróleo da região para a parte hostil e seus aliados até novo aviso.
Começaram a surgir nesta terça informações ainda não confirmadas de que o Irã poderia estar instalando minas marítimas no estreito. Trump comentou esta possibilidade em post na rede Truth Social: "Se por qualquer razão minas foram colocadas, e não forem removidas imediatamente, as consequências militares para o Irã serão de um nível nunca antes visto".
A república islâmica também rebateu ambas as afirmações anteriores de Trump. Ainda na segunda, a Guarda Revolucionária, o exército ideológico iraniano, afirmou: "Nós somos aqueles que determinarão o fim da guerra".
À promessa americana de intensificação dos ataques, a resposta foi outra ameaça: "O Irã não se assusta com suas ameaças vazias. Outros mais poderosos que você tentaram eliminar a nação iraniana e não conseguiram. Cuidado você para não ser eliminado!", publicou nesta terça, na rede social X, o chefe do Conselho Superior de Segurança do Irã, Ali Larijani, em referência a Trump.
Diferentemente do tom do presidente, de que os objetivos poderiam estar cumpridos no Irã, o secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, disse nesta terça que este seria o dia mais intenso de ataques até agora. O governo dos Estados Unidos anunciou, por meio da porta-voz da Casa Branca, que a ofensiva neste momento visa desmantelar a infraestrutura de produção de mísseis no Irã.
Em Teerã foram ouvidas fortes explosões ao longo do dia. À noite, jornalistas da AFP sentiram poderosas detonações que foram ouvidas em um raio de vários quilômetros. No entanto, não há detalhes sobre os danos causados, nem ainda um comparativo com a intensidade das ações em dias anteriores, que pudesse confirmar ou negar a afirmação de Hegseth.
Primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, também não seguiu o discurso de Trump e disse nesta terça que está "quebrando os ossos" do regime iraniano e que a missão ainda não está concluída.
Mercado de petróleo
O impacto do conflito no mercado do petróleo preocupa e mobiliza boa parte do mundo, muito além das nações diretamente envolvidas. No Brasil, a Petrobras ainda contém e avalia o repasse das flutuações aos preços do diesel e da gasolina, dado o efeito disso na inflação do país.
O mercado está instável e muito sensível a novas informações. Na segunda, o preço do barril do petróleo Brent, que é referência internacional, se aproximou dos US$ 120, com altas acima de 30%, mas fechou o dia abaixo dos US$ 90, respondendo à projeção de Trump sobre o fim da guerra.
Nesta terça, a Agência Internacional de Energia (AIE) convocou uma "reunião extraordinária" de seus países membros para discutir o uso de reservas estratégicas de petróleo para conter a alta dos preços. O diretor da AIE, Fatih Birol, afirmou que, além "dos desafios que o trânsito pelo Estreito de Ormuz representa, a produção de petróleo se reduziu consideravelmente". Apesar da avaliação negativa, o fato de o uso das reservas estar em discussão também conteve novas altas.
Ainda nesta terça, a refinaria de Ruwais, nos Emirados Árabes Unidos, uma das maiores do mundo, com capacidade de produzir 900 mil barris por dia, foi fechada “por precaução” após um ataque de drone na região.
Ao longo do dia, uma informação que se revelou falsa ou equivocada também mexeu com as cotações do petróleo. O secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, publicou que a Marinha dos Estados Unidos havia escoltado um petroleiro para que pudesse atravessar o Estreito de Ormuz. Os preços caíram prontamente.
Wright apagou o post minutos depois. Mais tarde, a Casa Branca negou, oficialmente, a informação. A Guarda Revolucionária do Irã respondeu dizendo que nenhum navio dos Estados Unidos "ousou" se aproximar da passagem.
Mesmo com os sinais contraditórios, o mercado pareceu responder às manifestações oficiais do governo norte-americano e o barril do Brent fechou a terça com queda de 15% na cotação.
EUA divulga perdas humanas
O Pentágono divulgou nesta terça-feira (10) um balanço de perdas humanas pelo conflito. Sete militares americanos morreram em ataques iranianos, sendo seis no Kuwait e um na Arábia Saudita. Cerca de 140 ficaram feridos nos 11 dias de guerra, sendo que 108 já estão de volta ao serviço, segundo o comunicado.
— Oito militares continuam gravemente feridos e estão recebendo o mais alto nível de atendimento médico — disse o porta-voz do Pentágono, Sean Parnell.
Irã faz pedido à ONU
O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, pediu que a ONU condene a "agressão" dos Estados Unidos e de Israel, durante uma conversa telefônica com o secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres.

