
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recebe neste sábado (7) em seu clube de golfe na Flórida vários governantes da América Latina e do Caribe para a reunião de cúpula "Escudo das Américas", que abordará o crime organizado, a imigração ilegal e a interferência estrangeira no continente.
O encontro acontece no âmbito do que o republicano chama de "Doutrina Donroe", a sua versão da histórica Doutrina Monroe, com a qual pretende intervir para promover os interesses de Washington no hemisfério ocidental, aumentar a segurança do país e interromper a influência de potências como a China.
Um exemplo da aplicação da doutrina foi a operação das forças americanas que terminou com a captura do ex-ditador venezuelano, Nicolás Maduro, em 3 de janeiro em Caracas, ou o bloqueio imposto ao fornecimento de petróleo a Cuba.
Em Doral, perto de Miami, o presidente receberá líderes de direita, incluindo aliados próximos como o argentino Javier Milei, o equatoriano Daniel Noboa e o salvadorenho Nayib Bukele, elogiado por Trump por sua bem-sucedida e polêmica campanha para reduzir drasticamente a violência das gangues.
Os convidados compartilham a preocupação de Washington com o avanço do crime organizado no continente, um fenômeno que afeta inclusive países que até recentemente eram considerados bastante seguros, como Chile e Equador, explica Irene Mia, especialista em América Latina no Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS, na sigla em inglês).
A situação, que ajudou a direita latino-americana a vencer eleições recentes, faz com que a política intervencionista dos Estados Unidos no restante das Américas não receba a rejeição que seria de se esperar, dada a longa história de intervenções de Washington no continente, acrescenta a analista.
Além de Bukele, Milei e Noboa, Trump convidou os presidentes de Bolívia, Costa Rica, República Dominicana, Honduras, Panamá, Paraguai, Guiana e Trinidad e Tobago, assim como o presidente eleito do Chile, José Antonio Kast.
Alguns governantes souberam aproveitar taticamente a boa relação com o republicano, além da afinidade ideológica. O hondurenho Nasry Asfura recebeu, por exemplo, um apoio importante do presidente americano nas eleições do ano passado. No caso de Milei, a sua boa relação com Trump ajudou na concessão, por parte de Washington, de uma linha de financiamento e swap cambial de US$ 20 bilhões no ano passado. Mas a coalizão de governos gera dúvidas sobre o seu alcance e duração, segundo Irene Mia.
A analista ressalta que as propostas de Washington para a América Latina são baseadas em uma agenda puramente negativa.
— Tudo se reduz às ameaças que a região representa para a segurança dos Estados Unidos: migração e crime organizado — disse.
Ausência do México e do Brasil
Mia também aponta outra fragilidade da reunião de cúpula dedicada ao combate ao narcotráfico: a ausência de México e Brasil, governados pelos presidentes de esquerda Claudia Sheinbaum e Luiz Inácio Lula da Silva.
Os cartéis mexicanos comandam a cadeia global do narcotráfico e as organizações criminosas brasileiras controlam portos cruciais utilizados para o envio ilegal de drogas à Europa, explica Mia. Uma iniciativa sem eles "não conseguirá resolver os problemas", acrescenta.
A analista também alerta para o risco de basear as alianças na proximidade ideológica, já que os governos podem mudar nas próximas eleições e estabelecer prioridades diferentes. Para ela, o apoio dos Estados "é bastante frágil devido à relação problemática" entre a América Latina e os Estados Unidos.
— É um equilíbrio muito delicado saber se a população aprovará a política de Trump e até quando — conclui.
Nova ameaça ao Irã
Mais cedo, em postagem nas redes sociais, Donald Trump sugeriu que os Estados Unidos atacariam o Irã "com muita força". Ele ameaçou ampliar as ofensivas e incluir novos alvos.
"Hoje o Irã será atingido com muita força!", publicou o republicano na plataforma Truth Social. "Sob séria consideração para a destruição completa e morte certa, por causa do mau comportamento do Irã, estão áreas e grupos de pessoas que não eram considerados como alvos até este momento", seguiu ameaçando.
Trump escreveu a mensagem horas após o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, afirmar que o país nunca se renderia a Israel e aos Estados Unidos. Pezeshkian, em um discurso exibido pela televisão estatal, pediu desculpas aos Estados vizinhos do Golfo pelas represálias do Irã e acrescentou que Teerã não atacaria mais estas nações, exceto em caso de ataques procedentes de seus territórios.
Em sua publicação, Trump fez referência a Pezeshkian e afirmou que o Irã "pediu desculpas e se rendeu a seus vizinhos do Oriente Médio, prometendo que não vai mais atirar neles". "Esta promessa só foi feita por causa do ataque implacável dos Estados Unidos e de Israel", escreveu Trump.
"O Irã não é mais o 'valentão do Oriente Médio', e sim, 'o perdedor do Oriente Médio' e continuará sendo por muitas décadas até que se renda ou, mais provavelmente, entre em colapso completo!", afirmou o republicano.




