
O quinto dia de conflitos após a ofensiva de Estados Unidos e Israel contra o Irã foi marcado por uma nova onda de bombardeios contra alvos iranianos. Foram registrados ataques em Teerã, capital do país, e no Líbano.
O funeral do líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, foi adiado. As cerimônias iriam começar nesta quarta-feira (4), com duração de três dias. Mojtaba Khamenei, filho do aiatolá morto no sábado (28), é o favorito para ser o novo líder supremo. O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, ameaçou eliminar qualquer dirigente iraniano indicado ao posto.
Ao mesmo tempo, os países mantiveram a retórica de ameaças, indicando que o confronto pode se estender — tanto em termos territoriais quanto em duração. Especialistas enxergam poucas possibilidades imediatas de negociação entre Irã, Israel e Estados Unidos.
— O Irã é uma encruzilhada de mundos. Ali, o Ocidente e o Oriente se encontram. Vai ser um conflito que pode durar mais tempo, porque o Irã se preparou por muito tempo para este momento. Pode ter repercussões na nossa vida, principalmente na questão do aumento de preços, devido à escassez de petróleo (...). Quem vai mais sofrer, no curto prazo, será a Europa; mas todo o sistema internacional vai ter, em certa medida, algum tipo de consequência. Aquela região é muito estratégica — disse Fabrício Avila, presidente do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia, durante participação no programa Conversas Cruzadas, de GZH.
O professor e pesquisador de relações internacionais Ricardo Leães pontua que, enquanto o Irã busca a saída dos EUA do Oriente Médio e o fim do projeto político do governo de Israel, israelenses e americanos buscam o fim do governo dos aiatolás.
— Qual é a estratégia do Irã? É ir aumentando os custos desta guerra em termos militares, políticos e, sobretudo, econômicos, para que a população dos Estados Unidos acabe se revoltando contra essa guerra. O cálculo do Irã é esse. Para eles, esta guerra é existencial. A sua população vai ter que aceitar um custo maior — afirmou, também durante o Conversas Cruzadas.
Ataque ao Irã
Confira, nesta reportagem, os principais acontecimentos do dia relacionados ao conflito:
Ameaças e novos ataques
As forças armadas do Irã ameaçaram atacar as embaixadas de Israel em todo o mundo se Tel Aviv atingir a diplomacia de Teerã no Líbano. O porta-voz militar Abolfazl Shekarchi afirmou na televisão que, "se Israel cometer esse crime, seremos forçados a transformar as embaixadas israelenses em todo o mundo em um alvo legítimo".
Na terça (3), o porta-voz do exército israelense, Avichay Adraee, advertiu que "os representantes do regime terrorista iraniano que ainda estão no Líbano" deveriam sair "imediatamente antes de serem atacados". Os bombardeios israelenses no Líbano mataram 72 pessoas e obrigaram 83 mil a deixar suas casas desde segunda (2).
O Exército israelense também anunciou que atingiu dezenas de alvos no Irã e "iniciou uma série de ataques em larga escala contra alvos do regime" em Teerã nesta quarta. A agência oficial iraniana Irna afirmou que 1.045 pessoas, entre civis e militares, morreram no país desde o início da ofensiva israelense-americana.
Segundo a imprensa israelense, o país pretende continuar os bombardeios contra o Irã por, pelo menos, uma ou duas semanas. Durante este período, Tel Aviv "atacará outros milhares de alvos do regime iraniano", reportou o jornal Times of Israel.
A Casa Branca afirmou que o regime iraniano está sendo "completamente esmagado" na guerra.
— Sob a liderança do presidente Donald Trump, o regime iraniano terrorista e pária está sendo completamente esmagado — declarou a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, em entrevista coletiva.
O Acnur, a agência da ONU para os refugiados, informou que cerca de 100 mil pessoas fugiram de Teerã durante os dois primeiros dias de guerra no Irã.
EUA afirmam ter afundado navio iraniano
Um submarino americano torpedeou e "afundou um navio de guerra iraniano que acreditava estar seguro em águas internacionais" no Oceano Índico, informou o chefe do Pentágono, Pete Hegseth.
A Marinha do Sri Lanka recuperou 87 corpos de tripulantes iranianos da fragata IRIS Dena, que afundou na madrugada desta quarta na costa do país. Outros 32 marinheiros foram resgatados pelas autoridades do Sri Lanka, e as buscas continuam por 61 tripulantes desaparecidos.
Irã ataca posições curdas no Iraque
A Guarda Revolucionária do Irã, exército ideológico do país, afirmou ter disparado mais de 40 mísseis contra alvos americanos e israelenses.
Sirenes de alerta aéreo soaram novamente em Jerusalém e Tel Aviv, segundo jornalistas da AFP, enquanto os militares israelenses disseram ter "identificado mísseis lançados do Irã".
A Guarda Revolucionária também afirmou ter atacado grupos armados de oposição hostis a Teerã na região autônoma curda do Iraque.
Teerã ainda anunciou ter o "controle total" do Estreito de Ormuz, ponto estratégico para o comércio mundial de petróleo na entrada do Golfo Pérsico.
Duas agências de segurança marítima informaram, nesta quarta-feira, que um navio de carga com bandeira de Malta foi atacado ao longo da costa de Omã enquanto transitava pelo estreito.
A empresa de consultoria Kpler afirmou que o tráfego de petroleiros no Estreito de Ormuz caiu 90% em uma semana.
No Mediterrâneo oriental, um míssil disparado do Irã, que seguia para o espaço aéreo da Turquia, "foi interceptado e neutralizado a tempo por sistemas de defesa aérea e antimísseis da Otana", indicou o Ministério da Defesa turco no X.
Um funcionário de alto escalão do governo turco, que pediu anonimato, afirmou que a Turquia "não era o alvo" do míssil, que teria sido direcionado "a uma base na parte grega do Chipre, mas desviou".
Impactos no mundo
O petróleo seguia em alta nesta quarta-feira. O barril de Brent do Mar do Norte subia 2,83%, a US$ 83,70 (R$ 442, na cotação atual). Na terça-feira, a cotação superou US$ 85 pela primeira vez desde julho de 2024.
Na Europa, as bolsas se estabilizaram após as fortes perdas registradas nos mercados asiáticos.
Anteriormente, as Bolsas de Dubai e Abu Dhabi reabriram com fortes quedas após dois dias de suspensão das negociações devido aos ataques iranianos no Golfo.
Evacuações no Oriente Médio
Um primeiro voo com cidadãos franceses que estavam bloqueados no Oriente Médio pousou no aeroporto Charles de Gaulle, perto de Paris, na manhã desta quarta-feira.
Espanha, Alemanha e Reino Unido também estão organizando processos de retirada. Diante dos riscos, os super-ricos de Dubai começaram a deixar o opulento centro de negócios. O espaço aéreo dos Emirados Árabes Unidos está parcialmente fechado, o que dificulta a fuga.
Espanha diz "não" à guerra
O primeiro-ministro espanhol, o socialista Pedro Sánchez, respondeu, nesta quarta-feira, com um "não à guerra" às críticas de Trump por não ceder as bases do país para os ataques ao Irã.
— Não seremos cúmplices de algo que é ruim para o mundo e também contrário aos nossos valores e interesses, simplesmente por medo das represálias de alguém — acrescentou Sánchez.
O presidente francês, Emmanuel Macron, conversou com Sánchez para "expressar a solidariedade europeia da França", informou seu gabinete.
Portugal autorizou o uso de uma base aérea do arquipélago dos Açores por parte dos EUA, mas de forma condicional. Segundo o primeiro-ministro Luís Montenegro, a permissão será concedida "sempre que essas operações sejam de caráter defensivo ou de represália, que sejam necessárias e proporcionais e que tenham como único objetivo alvos militares".








