A Ucrânia classificou nesta quarta-feira (4) como 'produtivo' o primeiro dia da segunda rodada de negociações diretas com a Rússia em Abu Dhabi, sob mediação dos Estados Unidos, em busca de uma saída diplomática para a guerra.
Kiev indicou que as reuniões vão continuar nesta quinta-feira (5).
Estas conversas são as mais recentes de várias iniciativas diplomáticas que, até agora, não conseguiram chegar a um acordo para pôr fim à guerra, desatada pela invasão russa de fevereiro de 2022.
Ao destacar o custo humano do conflito, o presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, disse nesta quarta-feira que 55 mil soldados de seu país morreram.
"E há um grande número de pessoas que a Ucrânia considera como desaparecidas", declarou ele à emissora francesa France 2, segundo a tradução do canal.
Esta guerra é o conflito mais letal na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, com centenas de milhares de mortos, milhões forçados a deixar suas casas na Ucrânia e grande parte do leste e do sul do país devastados.
As conversas desta quarta ocorreram após semanas de ataques russos contra a infraestrutura energética da Ucrânia, que deixaram os moradores de Kiev na escuridão e no frio, com temperaturas que caíram para -20°C.
Apesar de o Kremlin ter reiterado suas exigências linha-dura antes das conversas, o principal negociador da Ucrânia, Rustem Umerov, disse que o primeiro dia havia sido "substantivo e produtivo, focado em passos concretos e soluções práticas".
Zelensky disse nesta quarta-feira que esperava uma nova troca de prisioneiros com a Rússia "em um futuro próximo".
- A questão do território -
Nesta quarta-feira, o Kremlin insistiu em que continuará com sua ofensiva até que a Ucrânia aceite suas condições.
O porta-voz da diplomacia ucraniana, Heorhii Tykhyi, indicou que Kiev espera dessas reuniões "saber o que realmente querem os russos e os americanos".
Acrescentou que o conteúdo das conversas tratou sobre "temas militares e político-militares", sem dar mais detalhes.
O principal ponto de atrito para resolver o conflito é o destino a longo prazo do território no leste da Ucrânia.
Moscou exige que Kiev retire suas forças de grande parte da região leste do Donbass, incluindo áreas ricas em recursos naturais, e o reconhecimento internacional de que as terras tomadas na invasão lhe pertencem.
Mas Kiev diz que o conflito deveria ser congelado ao longo da atual linha de frente e rejeita uma retirada unilateral de forças.
O presidente americano Donald Trump enviou a Abu Dhabi seu enviado internacional, Steve Witkoff, e seu genro Jared Kushner para tentar conseguir um acordo.
Para negociar com Umerov, a Rússia enviou seu diretor de inteligência militar, Igor Kostyukov.
A Europa teme ter ficado à margem do processo, apesar de França e Reino Unido liderarem os esforços para reunir uma força de manutenção da paz que poderia ser mobilizada na Ucrânia caso os beligerantes cheguem a um acordo de paz.
Era "estrategicamente importante para a Europa, em algum momento, fazer parte das negociações", declarou à AFP nesta quarta-feira a embaixadora da União Europeia na Ucrânia, Katarina Mathernova.
A Rússia ocupa cerca de 20% da Ucrânia, mas Kiev ainda controla aproximadamente um quinto da região de Donetsk.
Moscou também reivindica como próprias as regiões administrativas (oblast) de Luhansk, Kherson e Zaporizhzhia, e tem parcelas de território em pelo menos outras três regiões do leste ucraniano.
- 'Nos prepararmos para o pior' -
No campo de batalha, a Rússia tem avançado à custa da vida de muitos de seus soldados, com a intenção de desgastar o Exército ucraniano.
Nesta quarta-feira, um bombardeio russo contra um mercado na cidade de Druzhkivka (leste) causou pelo menos sete mortos e 15 feridos, informaram as autoridades regionais ucranianas.
O diretor-geral da operadora ferroviária estatal da Ucrânia disse à AFP que acredita que os ataques russos mais recentes tinham como objetivo isolar regiões inteiras do resto do país.
Após a primeira rodada de conversas mediadas pelos Estados Unidos em Abu Dhabi no mês passado, os ucranianos mostraram-se céticos sobre a possibilidade de um acordo com Moscou.
"Acho que tudo isso é apenas um espetáculo para o público", opinou Petro, um morador de Kiev. "Devemos nos preparar para o pior e esperar o melhor."
Já nas ruas de Moscou, alguns se mostravam mais otimistas.
"Todo o mundo está muito otimista com essas negociações", garantiu Larissa, uma aposentada com família na Ucrânia e entes queridos na linha de frente.
"Isso precisa acabar algum dia, todo mundo está cansado", acrescenta Anton, um engenheiro de 43 anos.
* AFP



