
Ao invadir a Venezuela e capturar Nicolás Maduro, o governo dos Estados Unidos recuou dois séculos nos princípios de sua política externa para deflagrar, nos primeiros dias de 2026, um novo capítulo da geopolítica mundial. Estabelecida em 1823 e invocada agora por Donald Trump, a rediviva Doutrina Monroe pretende colocar a América Latina à mercê dos interesses políticos e econômicos da maior potência militar do planeta.
Maduro nem sequer havia desembarcado em território norte-americano, no sábado (2), quando Trump explicitou o objetivo da operação militar: gerenciar a exploração do petróleo local. Com 303 bilhões de barris no subsolo, a Venezuela detém a maior reserva do óleo no mundo. Durante a entrevista coletiva que detalhou a operação que depôs Maduro, Trump foi enfático ao resgatar os fundamentos de uma diplomacia baseada em isolacionismo político, ameaça bélica e intervencionismo territorial.
Duzentos e três anos após ser formalmente anunciada ao Congresso dos Estados Unidos pelo seu criador, o então presidente James Monroe, tal filosofia agora foi rebatizada por Trump de “Doutrina Donroe”, neologismo que mistura os nomes do idealizador original ao do seu atual congênere.
— Tudo remonta à Doutrina Monroe. Ela é muito importante, mas nós a superamos por muito. Agora eles a chamam de "Doutrina Donroe". É a doutrina que havíamos esquecido. Sob o governo Trump, reafirmamos o poder americano de forma muito capaz. Fizemos isso no meu primeiro mandato e fazemos ainda mais agora. O futuro será determinado pela capacidade de proteger comércio, território e recursos centrais à segurança nacional. Tarifas tornaram nosso país rico e nossa segurança mais forte do que nunca. Essas são as leis do aço que sempre determinaram o poder no mundo, e vamos mantê-las — disse Trump.
Ataque à Venezuela
Embora tenham bases similares, a Doutrina Monroe e a Doutrina Donroe surgem em contextos muito diferentes. No século 19, a hegemonia global era exercida pela Grã-Bretanha. Temendo uma recolonização da América Latina pelas nações europeias, os Estados Unidos fizeram da América Latina sua principal área de influência.
Sob o lema “América para os americanos” e praticando a chamada “diplomacia do dólar”, Monroe incentivou uma política imperialista movida a intervenções militares, políticas e econômicas na região. Como resultado, houve interferência americana com troca do poder em vários países da região, como Honduras, Cuba, Nicarágua, Haiti e na própria Venezuela.
Para Fábio Andrade, professor de relações internacionais da ESPM-SP, os Estados Unidos agora veem sua própria hegemonia global ameaçada, sobretudo no campo econômico. Ante a perda de mercados para a China, Trump busca se reposicionar no mapa dos negócios ostentando superioridade militar na vizinhança. Seria uma exibição de poder de Trump em busca de equilíbrio na tensa relação com China e Rússia, visando uma divisão da influência territorial como contrapesos da estabilidade global.
— Mudar a grafia para Donroe revela o personalismo de Trump, mas mais importante é a diferença na distribuição política de poder que torna essa Doutrina Monroe 2.0 mais perigosa. Lá atrás, James Monroe tentava criar uma zona de influência na América, mas o predomínio econômico e político era da Inglaterra. Não havia confronto ou questionamento dessa hegemonia. A doutrina 2.0 tem outro contexto de repartição de poder. Os Estados Unidos ficam com hegemonia na América, a Europa fica meio neutra, o Leste Europeu fica com a Rússia e o Oriente com a China. Note que, apesar de comunicações diplomáticas duras, Rússia e China reagiram só no papel. A Rússia era o principal parceiro da Venezuela e soltou uma nota de apenas cinco linhas — comenta Andrade.
Desta vez, há outros complicadores para Trump. No campo doméstico, o presidente dos Estados Unidos enfrenta uma crise econômica com inflação, desemprego em alta e baixa popularidade. Há ainda uma eleição de meio de mandato em novembro, com renovação de parte do Congresso.
Para manter maioria e ascendência na política interna, Trump precisa não só de respeito internacional como do fortalecimento do dólar como moeda de referência nas transações internacionais. Em revide às sanções norte-americanas, desde 2017 a Venezuela vendia petróleo em outras moedas, sobretudo o euro e o yuan.
Mais recentemente, os países do BRICs (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) discutiram a adoção de uma alternativa ao dólar. Com as reservas venezuelanas sob seu controle, os Estados Unidos retomam o predomínio dos petrodólares como referência no mercado do combustível.
— O cálculo atual do Trump com a Doutrina Donroe prevê a contenção de expectativa negativa no dólar por meio do desmonte do chamado sul global e do Brics. Há um respeito mútuo entre Trump, Vladimir Putin e Xi Jinping. Eles desconfiam um do outro, mas se respeitam. Esse jogo vai permanecer válido enquanto não houver uma ofensiva muito agressiva da China em relação ao dólar, Trump não abre mão de que o dólar seja a grande moeda global — diz o professor Fábio Andrade.
Cientes do pragmatismo que move as ações do presidente norte-americano, Cuba, Colômbia e México temem novas investidas militares como forma de reafirmação do poder de Trump. Ao comentar a captura de Maduro, ele fez questão de citar os três países como eventuais alvos de futuras ofensivas.
Acusando o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, de enviar cocaína aos Estados Unidos, Trump disse que ele precisa “cuidar do próprio traseiro”. A presidente do México, Claudia Sheinbaum, segundo Trump, “é uma boa mulher, mas não governa o México. Os cartéis governam”. Sobre Cuba, Trump afirmou que está no seu horizonte "ajudar o povo" cubano.
— Quando o presidente fala, é preciso levá-lo a sério. Se eu morasse em Havana e estivesse no governo, eu estaria pelo menos preocupado — disse o secretário de Estado, Marco Rubio, descendente de cubanos e o personagem mais hostil do governo americano ao regime da ilha.
No Brasil, as preocupações com a retomada da Doutrina Monroe ficaram explícitas no tom da nota com que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu à deposição de Maduro. O petista condenou a ação militar, mas em nenhum momento citou Maduro, Trump ou os Estados Unidos.
Após um período de altercações diplomáticas diante da taxação das exportações brasileiras, a Casa Branca e o Palácio do Planalto vivem o melhor momento nas relações bilaterais. Washington recuou na oneração da maior parte dos produtos brasileiros e retirou as sanções da Lei Magnitsky sobre o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes.
— Trump mostrou que a possibilidade de intervencionismo não era um blefe. Foi uma mobilização militar sem precedentes na região do Caribe e Maduro está preso, respondendo por narcoterrorismo na Justiça americana. Mas não creio em uma intervenção na Colômbia e no Brasil, pois são países que terão eleição neste ano. O que pode haver é pressão externa, com discurso e posicionamento público. Não podemos esquecer que o Brasil tem operações conjuntas com o exército americano na Amazônia, não há histórico de inimizade. O Brasil não reconheceu a eleição de Maduro e foi contra a entrada da Venezuela nos BRICs. Já em Cuba a situação é diferente — afirma Daniel Correa da Silva, professor de relações internacionais na Universidade do Vale do Itajaí.
Outro fator favorável ao Brasil é o “realismo flexível” que norteia a Estratégia de Segurança Nacional editada pelo governo Trump em dezembro e cujos fundamentos recriam a Doutrina Monroe. Esse princípio coloca interesses políticos e comerciais acima de diferenças ideológicas.
“A política dos Estados Unidos será realista ao que é possível e desejável buscar em suas relações com outras nações. Buscamos boas relações e relações comerciais pacíficas com as nações do mundo sem impor a elas mudanças democráticas ou outras mudanças sociais que difiram amplamente de suas tradições e histórias”, apregoa o texto.
Nesse sentido, a abertura do governo Lula a reivindicações norte-americanas, como acesso a terras raras (das quais o Brasil tem 23% das reservas mundiais) e parcerias no combate ao narcotráfico, bem como investimentos de gigantes nacionais nos Estados Unidos, como Embraer e JBS, surgem como coringas em negociações diplomáticas.
— Agora, caso haja uma vitória de Lula na eleição, não são baixas as chances de a direita não ir mais pra frente de quartel pedir golpe, como fez em 2022, mas pra frente da embaixada americana pedir intervenção. Haverá pressão, inclusive dentro dos Estados Unidos, por não reconhecimento de uma eventual vitória de Lula — completa o professor Fábio Andrade, da ESPM-SP.











