
Em coletiva de imprensa neste sábado (3), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou que os governos venezuelanos “roubaram” petróleo dos EUA. Ele ainda confirmou o interesse do país em explorar as reservas de petróleo da Venezuela, a partir de petrolíferas norte-americanas.
— Vamos fazer com que nossas gigantescas companhias petrolíferas dos EUA, as maiores do mundo, entrem em cena, gastem bilhões de dólares, consertem a infraestrutura petrolífera, que está em péssimo estado, e comecem a gerar lucro para o país — disse Trump.
Ele afirmou que a indústria petrolífera do país estava "um fracasso total" há muito tempo.
— Eles estavam bombeando quase nada em comparação com o que poderiam estar bombeando.
Não está claro, porém, se as empresas americanas estariam interessadas em assumir os custos da reconstrução.
— Elas serão reembolsadas pelo trabalho que estão realizando. Venderemos grandes quantidades de petróleo para outros países, muitos dos quais já o utilizam, mas eu diria que muitos mais virão.
Entraves
Mas concretizar os planos de alavancar a exploração de petróleo no país latino-americano depende de diversos fatores. Segundo especialistas ouvidos por Zero Hora, não será uma tarefa simples, considerando a tensão política e questões técnicas.
A geopolítica da Venezuela tem sido marcada, nos últimos anos, por uma combinação de colapso produtivo, disputas sobre recursos naturais e crescente pressão externa, especialmente por parte dos EUA. No centro dessa conjuntura está a indústria petrolífera venezuelana, historicamente um dos pilares econômicos do país, mas que sofreu uma queda expressiva na produção.
O volume chegou a 4 milhões de barris por dia, na década de 1970, e hoje não passa de 1 milhão de barris diários. Esse declínio é frequentemente utilizado no discurso político norte-americano como justificativa para propostas de intervenção econômica e reconfiguração da governança do setor energético venezuelano.
Ao dizer que a Venezuela "roubou" o petróleo dos EUA, Trump se refere aos investimentos feitos por empresas norte-americanas na estrutura petrolífera venezuelana, conforme o pesquisador Rodrigo Sebastian Iglesias, do Instituto do Petróleo e dos Recursos Naturais da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS):
— Algumas empresas americanas participaram desse processo durante muitos anos, como a Exxon, uma das maiores do mundo, e a Chevron. Essas empresas acabaram tendo prejuízos na época do governo Chávez.
Depois, o governo Maduro estatizou a produção por meio da PDVSA, estatal venezuelana.
A única petrolífera dos EUA que segue atuando na Venezuela é a Chevron, que segue com autorização para operar, apesar de todas as sanções internacionais que restringem operações e acesso a capital. Na prática, Chevron, Exxon e ConocoPhillips seriam as três principais “candidatas” para ingressar nesse novo mercado petroleiro econômico que se desenha na Venezuela, de acordo com Iglesias.
Planos de Trump X entraves
As declarações recentes de Donald Trump sinalizam um projeto que vai além da simples recuperação produtiva. Trata-se de uma visão que pressupõe a entrada massiva de empresas petrolíferas estadunidenses, com investimentos bilionários destinados à reconstrução da infraestrutura do setor e à retomada dos níveis de produção pré-Maduro.
Contudo, isso implicaria em uma profunda reorganização do controle sobre as reservas venezuelanas, e levanta dúvidas sobre como garantir estabilidade política, segurança jurídica e previsibilidade econômica para tais investimentos, segundo o pesquisador Henrique Gasperin, doutorando em História e Política Internacional do Geneva Graduate Institute, na Suíça.
— Acho difícil que a PDVSA seja desmantelada, sobretudo porque ela remonta a um tema muito arraigado na sociedade venezuelana e latino-americana, que é o tema da nacionalização petroleira. Um tema que foi defendido historicamente não só pela esquerda, não só pelo bolivarianismo, mas por outras correntes ideológicas e políticas organizadas do país — argumenta.
Mas isso não quer dizer que não vá haver uma grande reconfiguração do trabalho da petroleira estatal, e mesmo dos moldes de governança interna da companhia, complementa o especialista, que pesquisa sobre a relação de países latino-americanos com a indústria petrolífera.
As questões políticas e econômicas se somam aos problemas técnicos, como a própria necessidade de investimentos robustos para a reconstrução da infraestrutura petrolífera venezuelana, que não seria da noite para o dia. Há anos, a estatal Petróleos de Venezuela enfrenta falta de recursos, o que provocou a degradação das suas estruturas e equipamentos, falta de insumos e de mão de obra qualificada.
— Não só é muito custosa essa construção, mas também toma muito tempo. Para que a Venezuela retome níveis de produção similares àqueles que teve no final dos anos 1990, vários analistas petroleiros acreditam que isso demandaria anos de trabalho na reconstrução dessas infraestruturas. Seguramente, mais do que os três anos que Trump ainda tem no comando da Casa Branca — destaca Gasperin.
Além disso, boa parte da produção atual vem da Faixa Petrolífera do Orinoco, onde predomina um petróleo extremamente pesado, com alto teor de enxofre. A infraestrutura necessária para extrair, refinar e transportar esse óleo está em grande parte sucateada ou incompleta, reduzindo drasticamente a eficiência produtiva, o que também torna mais complexo esse processo e exige investimento pesado.
Isso porque esse tipo de petróleo é caro de extrair, exige grande consumo de energia e água e gera volumes elevados de resíduos contaminantes. Do ponto de vista jurídico, há ainda o impasse sobre a propriedade dos recursos naturais.
A Constituição venezuelana estabelece que o petróleo do subsolo pertence à nação, o que implicaria mudanças profundas no marco legal para permitir um controle mais direto por multinacionais estrangeiras, ressalta Gasperin. Sem essa reformulação institucional, dificilmente haveria garantias suficientes para investimentos privados de grande escala, sobretudo diante do histórico de nacionalizações.
Atualmente, a produção venezuelana representa menos de 1% da produção global, que é menos do que o Brasil produz. Ou seja – a Venezuela, que historicamente já produziu muito mais petróleo do que o Brasil, hoje, é um produtor menos relevante no mercado internacional. Isso também pode dificultar a entrada de recursos externos.
Preço do petróleo vai oscilar?
Justamente por conta dessa necessidade de vastos investimentos e construções para alavancar a produtividade na região, os especialistas acreditam que, a curto prazo, as medidas não devem ter impactos no preço do petróleo.
— Atualmente, o preço do petróleo está relativamente baixo, por conta da oferta muito grande de petróleo mundial. Então, mesmo que a capacidade produtiva da Venezuela consiga ser aumentada, que é algo que certamente não vai ser em um curto período de tempo, até eles conseguirem recuperar a infraestrutura de produção, investir e aumentar a produção, isso terá reflexos depois de uma década de trabalho, talvez — destaca Iglesias, professor da PUCRS.
Ele ressalta que, atualmente, os investimentos na indústria do petróleo são muito mais cautelosos, por conta da transição energética. Assim, essa potencialização da produtividade no país latino-americano depende de diversos desdobramentos.
Maior reserva
A Venezuela afirma ter mais de 300 bilhões de barris de petróleo no subsolo, o que corresponde a 17% das reservas globais, as maiores do mundo. Mas Caracas tem dificuldades para produzir o óleo bruto, com sua produção sendo de cerca de um milhão de barris por dia, ou 1% da produção global.
O país já foi uma potência do setor, mas as constantes crises econômica e social, somadas à má-gestão da gigante estatal PDVSA e as inúmeras sanções ao setor do país pelos EUA deixaram a indústria em frangalhos.
O setor apresentou alguma recuperação nos últimos anos, mas a produção está bem abaixo dos mais de dois milhões de barris por dia que produzia no início da década de 2010.
A PDVSA não possui mais o capital e a expertise necessários para aumentar a produção. Os campos petrolíferos do país estão degradados e sofrem com "anos de perfuração insuficiente, infraestrutura precária, frequentes cortes de energia e roubo de equipamentos", segundo um estudo recente da Energy Aspects, empresa de pesquisa. Os EUA impuseram sanções ao petróleo venezuelano, que agora é exportado principalmente para a China.


