
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, advertiu neste domingo (4) a nova líder venezuelana Delcy Rodríguez de que ela deve colaborar com Washington se não quiser "pagar um preço muito alto". A declaração ocorre um dia após a derrubada do mandatário Nicolás Maduro.
A cúpula militar venezuelana reconheceu Delcy como presidente interina com base em uma decisão da Suprema Corte, conforme anunciou o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López.
Trump voltou a endurecer o tom depois de, no sábado (3), ter afirmado que estava disposto a trabalhar com Delcy para garantir uma transição democrática "segura e criteriosa", após a extração de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, na madrugada do mesmo dia.
O presidente de esquerda, acusado de narcotráfico e terrorismo pelos Estados Unidos, encontra-se preso em Nova York, à espera de se apresentar perante um juiz nesta segunda-feira, às 14h (horário de Brasília).
— Se sua sucessora Rodríguez não fizer a coisa certa, vai pagar um preço muito alto, provavelmente maior do que o de Maduro — disse Trump em entrevista telefônica à revista The Atlantic.
Ataque à Venezuela
Eleições
Os Estados Unidos afirmam querer administrar a complexa situação venezuelana à distância, sem forçar, por ora, uma mudança de regime, mas mantendo todas as opções em aberto. Falar de eleições na Venezuela "é prematuro neste momento", declarou o secretário de Estado, Marco Rubio, em entrevista televisiva.
Washington também quer reabrir a exploração petrolífera para empresas americanas, enquanto Rodríguez advertiu, pouco depois da captura de Maduro, que seu governo está pronto "para defender nossos recursos naturais".
— Reconstruir não é algo ruim no caso da Venezuela. É um país totalmente falido. Um desastre em todos os sentidos — disse Trump.
— Vamos julgar tudo pelo que eles fizerem e ver o que fazem — afirmou Rubio, em entrevista à CBS News.
Quem é Delcy Rodríguez

Nascida em Caracas, Delcy tem 56 anos e é filha do fundador do partido marxista Liga Socialista, Jorge Antonio Rodríguez. Começou sua trajetória política em 2003, ainda no governo de Hugo Chávez. Após a chegada de Maduro ao poder, passou a ocupar cargos mais alto no Executivo.
Advogada especializada em direito do trabalho de formação, foi ministra da Comunicação e Informação, além de chanceler e presidente da Assembleia Nacional Constituinte, que ampliou os poderes de Maduro em 2017.
Há alguns meses, somou à lista de funções o cargo de ministra do Petróleo, posto-chave num país com 17% das reservas mundiais, e sua influência se estendeu à gestão da economia e ao setor privado da Venezuela. Ela foi nomeada vice-presidente em junho de 2018.
Força naval
Os Estados Unidos mantêm no Caribe uma força naval que liderou a incursão e que também está encarregada de impedir que navios petroleiros sob sanções consigam retirar o petróleo do país.
A legalidade da incursão é debatida nos Estados Unidos, onde o Congresso tem, em princípio, a prerrogativa de declarar guerra. Rubio invocou os poderes especiais de Trump para ordenar o cumprimento de uma decisão da Justiça americana.
Os Estados Unidos não reconheciam Maduro como presidente legítimo da Venezuela. No poder desde 2013, suas reeleições nos pleitos de 2018 e 2024 foram denunciadas como fraudulentas pela oposição.
— Trata-se de alguém que nunca respeitou nenhum dos acordos que firmou e a quem oferecemos, em múltiplas ocasiões, a possibilidade de abandonar o poder — justificou Rubio.
— Maduro é uma pessoa horrível, mas você não responde a uma ilegalidade com outra ilegalidade — criticou o líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, em entrevista à ABC.
A sangue frio
As forças especiais americanas mataram "a sangue frio" os seguranças de Maduro, afirmou em Caracas o ministro da Defesa venezuelano, Vladimir Padrino López.
O clima na capital venezuelana era o de uma cidade fantasma neste domingo, com algumas farmácias e supermercados abertos, mas a maioria das lojas com as portas abaixadas. Policiais vestidos de preto, encapuzados e armados com fuzis patrulhavam as ruas.
As marcas dos bombardeios em áreas próximas ao porto e ao aeroporto de Caracas provocam angústia e incredulidade entre os moradores.
— Se um míssil desses cair aqui, não sobra nada — disse à AFP Alpidio, de 47 anos, morador do bairro Bolívar de La Guaira, que não quis informar o sobrenome.
O Conselho de Segurança da ONU debaterá o caso em caráter de urgência nesta segunda-feira (5). A Organização dos Estados Americanos (OEA) fará o mesmo na terça-feira (6), em sua sede, em Washington.
Governos de esquerda de Brasil, Chile, Colômbia, México e Uruguai se uniram para denunciar a operação militar, enquanto aliados de Trump na região, como Argentina e El Salvador, manifestaram apoio. Moscou e Pequim exigiram a “libertação imediata” de Maduro.
Fim do terceiro mandato
Com a operação militar, Washington pôs fim ao terceiro mandato de Maduro (2025–2031), com o qual ele teria acumulado 18 anos no poder.
As explosões e os sobrevoos que sacudiram Caracas no sábado foram o clímax de quatro meses de pressão militar contra o líder venezuelano.
Desde setembro, os Estados Unidos realizaram bombardeios contra lanchas que supostamente transportavam drogas no Caribe, com saldo de mais de uma centena de mortos.
Desde 2020, Maduro é considerado pelos Estados Unidos o chefe do chamado "cartel de los Soles". Ao todo, seis pessoas do regime chavista são acusadas, entre elas a própria esposa de Maduro, Cilia Flores, e o ministro do Interior venezuelano, Diosdado Cabello.
Os interesses petrolíferos
Em suas primeiras declarações após a operação, Trump excluiu de seus cálculos políticos a líder opositora e Prêmio Nobel da Paz María Corina Machado, ao afirmar que "seria muito difícil" para ela estar à frente do país.
Pela Constituição venezuelana, a ausência de Maduro obrigaria a convocação de eleições em até 30 dias. Ao delegar o poder de forma temporária a Rodríguez, essa possibilidade permanece em aberto.
Trump deixou clara a intenção de incentivar o retorno de petroleiras americanas à Venezuela.
— Vamos fazer com que nossas empresas petrolíferas entrem, invistam bilhões de dólares, reparem a infraestrutura gravemente deteriorada e comecem a gerar dinheiro — disse.
Sob sanções petrolíferas americanas desde 2019, a Venezuela produz cerca de um milhão de barris de petróleo por dia e vende a maior parte no mercado negro, com grandes descontos. A petroleira americana Chevron já opera no país graças a uma autorização especial.










