
A Rússia realizou um ataque à Ucrânia utilizando o sistema de mísseis Oreshnik — que têm capacidade nuclear. O resultado foi de 20 prédios atingidos, pelo menos quatro mortos e dezenas de feridos. Segundo o exército russo, a ofensiva foi uma resposta à tentativa de ataque ucraniano à residência do presidente Vladimir Putin, no final de 2025.
A grande vantagem desse tipo de armamento é a velocidade: de 3,2 mil km/h a 5 mil km/h — até cinco vezes acima da velocidade do som —, tornando dificílima a interceptação por instrumentos de defesa antiaérea ou por aviões. Esses mísseis podem carregar ogivas nucleares, o que potencializaria ataques, mas isso não ocorreu — desta vez.
Não é a primeira ocasião em que a Rússia usa esse tipo de armamento na guerra contra a Ucrânia. Em novembro de 2024, o Oreshnik foi usado contra a cidade de Dnipro, próxima à fronteira russa. Foi lançado de uma base situada a 850 quilômetros Rússia adentro. O ataque deixou sem energia várias cidades ucranianas, justo no momento de uma onda de frio congelante.
Zero Hora consultou especialistas para tentar entender o uso de armamentos hipersônicos. Os professores Roberto Uebel, que leciona Relações Internacionais na ESPM, e Eduardo Svartman, doutor em Ciências Políticas e professor de estudos estratégicos internacionais na UFRGS, acreditam que o ataque é um recado de Putin.
— As forças armadas russas avisaram que o uso dos mísseis é uma resposta ao ataque com drones a uma residência de Putin, em 2025, atribuído aos ucranianos. Seria para chegar a uma posição de força no anunciado e nunca concretizado acordo de paz entre os dois países. O principal objetivo do presidente da Rússia é ganhar tempo. Além disso, é uma provocação à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em um momento de fragilidade, já que os aliados Estados Unidos ameaçam ocupar a Groenlândia — afirma Uebel.

Svartman também acha que se trata de pressão para um acordo mais vantajoso com a Ucrânia. O pesquisador ressalta que, como o uso desses mísseis já tinha ocorrido, seria mais uma carta na mesa de negociações.
— A Rússia está tentando chegar com mais vantagem num cessar-fogo/acordo de paz. Isso acontece num momento em que, do ponto de vista do governo dos EUA, a Rússia e a Europa são menos importantes do que a China.
Editor do site especializado em assuntos bélicos Defesanet.com.br, Nelson Düring ressalta que esses mísseis foram usados para destruir reservas de gás subterrâneas dos ucranianos e são as últimas opções antes de armas nucleares.
— Os russos já ameaçaram, pelo menos três vezes, usar armamento nuclear quando suas tropas estavam na iminência de derrota. Há dois níveis de armas desse tipo: as táticas, de efeito limitado para o campo de batalha; e as estratégicas, com grande alcance e efeito destrutivo enorme. Não creio que as usem, pois seria o fim da Rússia. Os oligarcas perderiam tudo. Por isso, dispararam os foguetes hipersônicos. O efeito amplificado pela mídia serve para dar o tom ameaçador.
Zonas de influência

Apesar de a ofensiva hipersônica dos russos ter ocorrido menos de uma semana após o ataque norte-americano à Venezuela, os especialistas não enxergam relação entre os eventos. Svartman crê que Donald Trump e Putin podem ter acertado previamente as esferas de influência: EUA diminuem o apoio à Ucrânia e a Rússia, à Venezuela. Estaria dentro do cenário esperado, portanto.
Uebel também cogita que seja uma demonstração de força diante de uma Europa fragilizada pela divergência com seu principal aliado, os EUA, em relação à Groenlândia. Isso vai resultar em avanço avassalador dos russos sobre a Ucrânia e tentativa de derrubar Volodimir Zelensky? O professor pensa que não. Pelo menos não enquanto houver uma possibilidade de acordo de paz.
Especialista na criação de programas de internacionalização na área pública e privada, doutor em Filosofia com foco em conflitos internacionais pela PUCRS, Cezar Roedel também acha que o uso dos Oreschnik não é resposta ao ataque da Venezuela.
— O conflito entre a Rússia e a Ucrânia já se transformou em uma "guerra de atrito", altamente custosa (em termos de soldados e armamentos). Na medida em que o mundo se divide em zonas de influência, a Rússia passa a ser uma ameaça mais frontal ainda à União Europeia, que já saiu da zona de conforto, cujos países estão a gastar muito mais com defesa. Vejo mais como um demonstrativo de força regional do que propriamente uma resposta à extração de Maduro ou até mesmo à apreensão de navios sancionados, como vimos no fronte marítimo e na nova esfera de influência americana. O Kremlin já havia testado previamente mísseis hipersônicos na Ucrânia, antes mesmo do destacamento militar americano no Caribe — comenta Roedel.
Mas essa não é a impressão de algumas pessoas que estão no teatro dos acontecimentos. A reportagem falou com um assessor da indústria bélica que se encontra em Kiev e prefere manter anonimato. Ele assistiu aos ataques russos na noite de quinta-feira (8) e tem um diagnóstico pessimista:
— A Rússia já não respeitava a ordem internacional e a ONU. Agora o que restava de pacto acabou. Os russos fazem o que quiserem. Os americanos não estão nem aí mais para a Ucrânia, e a Europa não tem força — conclui.

