
Preso após um golpe de Estado fracassado em 1992, Hugo Chávez aglutinava seguidores em sucessivos protestos por sua libertação. Numa manifestação no bairro de Catia, em Caracas, um de seus seguranças pediu a palavra e fez um discurso contundente pela soltura do chefe.
A eloquência do rapaz atraiu a atenção de uma advogada de Chávez. Nascia ali uma paixão que, duas décadas depois, conduziria os rumos da Venezuela. Da morte de Chávez, em 2013, à madrugada do último sábado (3), Nicolás Maduro e Cilia Flores sustentaram um regime ditatorial que começou no Palácio Miraflores e terminou em uma prisão norte-americana.
A trajetória política de Maduro sempre esteve vinculada à esposa. Nascida em 15 de outubro de 1956 em Tinaquillo, uma pequena cidade da região central do país, Cilia cresceu em um barraco com chão de terra. Ainda na infância, a caçula de seis irmãos se mudou com a família para a periferia de Caracas.
Ela tinha 36 anos e ele, 30, quando se conheceram. Maduro era motorista de ônibus e militante sindicalista que havia se aproximado de Chávez no final dos anos 1980, ganhando a confiança do tenente-coronel. Cilia tinha se formado advogada na Universidade Santa María quatro anos antes e começava a se encantar pelas ideias socialistas que vicejavam na oposição ao então presidente Carlos Andrés Pérez.
Após a malsucedida tentativa de deposição de Pérez, em 1992, Chávez e colegas oficiais do Exército foram presos. Especializada em direito penal e trabalhista, Cilia assumiu a defesa do grupo e conseguiu sua libertação em 1994.
Um ano antes, ela fundara o Círculo Bolivariano de Direitos Humanos, ingressando no Movimento Bolivariano Revolucionário 200, que dava sustentação política aos rebeldes. Na mesma época, Cilia e Maduro passaram a viver juntos. Em 1998, quando Chávez foi eleito presidente da República, Maduro conquistou uma cadeira na Assembleia Constituinte.
O casal seria eleito para dois mandatos consecutivos no parlamento a partir de 2000, sendo que em 2006 ela sucedeu o marido na presidência da Assembleia Nacional, posto até então jamais alcançado por uma mulher. De personalidade forte e afeita ao poder, Cilia presidiu o Comando Político da Revolução Bolivariana e integrava o Comando Tático para a Revolução, organizações que coordenam a base do chavismo.
Durante a tentativa de deposição de Chávez, em 2002, ela ajudou a conceber o planejamento para fazer dos Círculos Bolivarianos uma força paramilitar contra as marchas da oposição, usando seus militantes como brigadas de defesa presidencial no Palácio de Miraflores.
No comando da Assembleia, Cilia proibiu a entrada de jornalistas no plenário e foi acusada de nepotismo, empregando ao menos 16 parentes na máquina pública. Em 2012, foi nomeada procuradora-geral da República.
Com a morte de Chávez, em 2013, uma nova eleição foi convocada e Maduro eleito presidente. Três meses após a posse, Cilia e Maduro se casaram. Para destacar o papel da esposa no novo governo, Maduro disse que Cilia seria a “primeira-combatente”, justificando que “primeira-dama é um conceito para a alta sociedade”.
Em quase 40 anos juntos, o casal não teve filhos. Cilia continuou atuante no governo, mas se recolheu aos bastidores do poder, com poucas aparições públicas. Sua maior exposição foi apresentando programas de rádio e TV, como o Com Cilia na Família. Mesmo sua atuação no parlamento, onde conquistara nova cadeira em 2021, era discreta.
Nos altos círculos do chavismo, porém, é consensual o entendimento de que ela era a mulher mais poderosa e influente do país, inclusive ajudando a neutralizar os questionamentos à legitimidade de Maduro nos momentos mais delicados de sua presidência.

Cilia teve dois sobrinhos presos pela Administração de Repressão às Drogas dos Estados Unidos (da sigla em inglês DEA), em 2015, quando supostamente tentavam embarcar 800 quilos de cocaína para o território norte-americano com o objetivo de “obter uma grande quantia de dinheiro para ajudar sua família a permanecer no poder", conforme a acusação. Detidos em Porto Príncipe, no Haiti, eles foram condenados a 18 anos de prisão em Nova York, em processo semelhante ao agora enfrentado pelos tios.
Nesta segunda-feira (5), Cilia e Maduro foram apresentados à Justiça americana, acusados de narcoterrorismo, conspiração para importar cocaína, posse de metralhadoras e conspiração. Diante do juiz federal Alvin K. Hellerstein, no Tribunal Distrital Federal de Nova York, em Lower Manhattan, Cilia tinha a têmpora e a pálpebra enfaixadas. Segundo seu advogado, Mark Donnelly, ela teria sofrido fratura nas costelas e tinha hematomas causados pelos militares que efetuaram a prisão.
Os sobrinhos de Cilia foram soltos em 2022, numa troca de prisioneiros negociada entre a Casa Branca e o Palácio de Miraflores. Por enquanto, não há nenhum aceno de liberdade no horizonte de Maduro e sua primeira-combatente.



