
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prometeu ajuda aos manifestantes e incentivou a manutenção dos protestos contra o governo do Irã em mensagem publicada nesta terça-feira (13) nas redes sociais. A declaração foi feita um dia depois do anúncio de tarifas de 25% a produtos de países que mantêm parcerias comerciais com o país islâmico.
Na mensagem, o americano classificou como um "massacre" a repressão às manifestações. Ao menos 734 pessoas morreram, segundo uma ONG. Contudo, fontes internas no país indicam que o número de vítimas pode chegar a 2 mil pessoas.
"Cancelei todas as reuniões com autoridades iranianas até que cessem este massacre sem sentido de manifestantes. A ajuda está a caminho", escreveu Trump.
Para o analista de política internacional Uriã Fancelli, o regime iraniano se vê ameaçado pela amplitude dos protestos e pela adesão de setores distintos da sociedade: estudantes, classe média, mulheres, comerciantes.
— É um momento dramático, violento. Do jeito que a situação se apresenta hoje, este é o maior desafio para a estabilidade do regime desde 1979 — disse em entrevista ao Gaúcha+, da Rádio Gaúcha, nesta terça.
Naquele ano, o xá Mohammad Reza Pahlavi, apoiado pelos Estados Unidos, foi deposto pela Revolução Iraniana. Desde então, o Irã é uma teocracia islâmica liderada por um aiatolá — Ruhollah Khomeini (até 1989) e Ali Khamenei (de 1989 até hoje).
No entanto, a postura de Trump contradiz a recente diretriz de política externa da Casa Branca, com foco no Ocidente — e, consequentemente, na América Latina. Para o professor de relações internacionais da ESPM-Sul Ricardo Leães, o interesse americano sobre o Irã responde a pressões de aliados políticos internos e externos do republicano.
— É ainda um objetivo antigo, da década de 1990, quando a ideia era não tolerar nenhum governo hostil aos Estados Unidos. O Irã, querendo ou não, é o país que melhor representa essa oposição aos Estados Unidos nas relações internacionais do Oriente Médio — afirmou em participação no Conversas Cruzadas, de GZH, nesta terça.

Vários países europeus, inclusive a própria União Europeia, convocaram, nesta terça, os representantes do Irã por causa da repressão violenta aos protestos. O alto comissário da Organização das Nações Unidas (ONU) para os Direitos Humanos, Volker Türk, declarou-se "horrorizado" com a situação do país.
No Brasil, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que acompanha com preocupação a evolução das manifestações no Irã. A pasta disse ainda que não há registros de brasileiros mortos ou feridos no país.
"O Brasil lamenta as mortes e transmite condolências às famílias afetadas. Ao sublinhar que cabe apenas aos iranianos decidir, de maneira soberana, sobre o futuro de seu país, o Brasil insta todos os atores a se engajarem em diálogo pacífico, substantivo e construtivo", diz a nota do Itamaraty.
O professor de relações internacionais na Universidade do Vale do Taquari (Univates) Matheus Fröhlich pontua que o Brasil adotou uma linha cautelosa para tratar da crise no Irã.
— Foi uma nota bem protocolar do Ministério das Relações Exteriores aqui do Brasil. Eu acredito que tem muitos diplomatas com muitas interrogações sobre o que está acontecendo. Um país democrático, como é o caso do Brasil, também precisa, e eu acho que foi o caso, deixar aberto para os cidadãos apresentarem descontentamento com seus mandatários — comentou, também durante o Conversas Cruzadas.
Resposta iraniana

Nesta terça, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, disse à rede de notícias Al Jazeera que o governo ordenou o bloqueio da internet depois de "se deparar com operações terroristas e perceber que as ordens vinham de fora do país".
Em relação às ameaças de Trump, o chanceler iraniano afirmou:
— Estamos preparados para qualquer eventualidade e esperamos que Washington escolha uma opção sensata. Independentemente da opção escolhida, estamos preparados para ela.
O governo iraniano também reagiu aos protestos opositores realizando atos públicos em Teerã e outras cidades do país. O aiatolá Ali Khamenei classificou as manifestações favoráveis ao governo como uma "advertência" aos Estados Unidos.
Para o professor Leães, não há, no momento, sinais de que o governo será deposto:
— Embora esses protestos tenham ocorrido, o governo foi capaz de mobilizar a população que o defende em Teerã e outras grandes cidades iranianas. Mas é aquela coisa: se a gente está falando de ondas de protestos que vêm e vão, toda vez que elas aparecem, elas vão criando fissuras e aumentando as dificuldades para que o governo consiga se manter.
O país teria marcado, para esta quarta (14), a primeira execução decorrente dos protestos. Segundo a organização humanitária curdo-iraniana Hengaw, o manifestante Erfan Soltani, 26 anos, será enforcado por participar de um ato contra o governo na cidade de Karaj.
De acordo com a família, o jovem não teve acesso a um advogado nem direito à ampla defesa. A sentença de morte é definitiva, segundo os relatos dos parentes de Soltani.
O símbolo da oposição

Considerado um dos símbolos da oposição ao regime dos aiatolás, o ex-príncipe herdeiro Reza Pahlavi está enviando mensagens aos manifestantes desde o exílio, nos Estados Unidos.
O filho do xá Mohammad Reza Pahlavi chega a oferecer aos manifestantes conselhos sobre estratégia e os momentos adequados para ir às ruas. No domingo (11), em entrevista à Fox News, Pahlavi afirmou estar "preparado para voltar ao Irã na primeira oportunidade".
— A gente não sabe o tamanho da força que ele tem. Ele mora já há muitas décadas no Exterior. Entre os iranianos da diáspora, ele tem um apoio bastante grande. Mas não tem como a gente medir o apoio dele dentro do país — avaliou Uriã Fancelli.
— Quem vai ser essa oposição, quem são esses membros dessa diáspora que é politicamente engajada com isso? São os monarcas de antes da Revolução Iraniana, são outras organizações que também são seculares? Ainda isso está muito em aberto — questionou Matheus Fröhlich.
Clement Therme, do Instituto Internacional de Estudos Iranianos, considera que Pahlavi não ficou marcado pelos excessos do regime imperial, liderado por seu pai, já que deixou o país ainda na adolescência:
— Ele é um símbolo. Seu nome é muito conhecido — comentou Therme em entrevista à AFP.
Apesar disso, o ex-príncipe não obteve pleno reconhecimento internacional como líder alternativo do Irã, como explicitou Trump:
— Eu o vi e ele parece uma boa pessoa, mas não tenho certeza de que seja apropriado neste momento (me reunir com ele) como presidente — disse o americano.



