
Após os protestos que deixaram mais de 600 mortos no Irã, o regime do aiatolá Ali Khamenei deu sinais divergentes ao mundo. Os Estados Unidos ameaçaram Teerã com uma intervenção militar e, antes de uma ofensiva armada, anunciaram uma tarifa de 25% sobre todos os produtos vendidos por países que negociarem com o Irã.
A resposta iraniana à ameaça foi dada pelo ministro das Relações Exteriores nesta segunda-feira (12). Abbas Araghchi disse que o país está tanto preparado para a guerra quanto disposto a negociar.
— O Irã não busca a guerra, mas está totalmente preparado — afirmou em uma conferência com embaixadores estrangeiros.
Um novo relatório divulgado por ONGs de direitos humanos aponta que o total de mortos nos protestos contra o governo chegou a 648 pessoas. No entanto, o número real pode ser ainda maior, já que as autoridades iranianas não estão divulgando integralmente os dados oficiais das operações policiais.
— Estas manifestações representam, sem dúvida, o desafio mais sério que a República Islâmica enfrentou em anos, tanto por sua magnitude quanto por suas reivindicações políticas, cada vez mais explícitas — comentou Nicole Grajewski, professora do Centro de Pesquisas Internacionais da Sciences Po, em Paris, à AFP.
Outra reação do governo iraniano aos protestos opositores foi colocar gente nas ruas. Aliados do regime foram convocados para manifestações de apoio e se reuniram, nesta segunda, na Praça Enghelab ("Revolução"), em Teerã.
O aiatolá Ali Khamenei classificou as manifestações favoráveis ao regime como uma "advertência" aos Estados Unidos.
— Isso foi uma advertência aos políticos americanos para que parem com suas enganações e não confiem em mercenários traidores. Essas manifestações em massa, cheias de determinação, frustraram o plano de inimigos estrangeiros, que supostamente seria executado por mercenários nacionais — declarou o líder supremo do Irã.
Em um discurso à multidão, o presidente do parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que o país trava um conflito "em quatro frentes":
- Econômica
- Psicológica
- Militar (contra os EUA)
- Contra terroristas
A TV estatal também noticiou manifestações pró-governo em outras cidades do país.

Negociação com os EUA
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou tarifas com efeito imediato a parceiros comerciais do Irã. "Esta ordem é final e definitiva", escreveu o republicano em uma rede social.
No domingo, Trump afirmou que o Irã entrou em contato com representantes americanos e propôs negociações após as ameaças de intervenção militar da Casa Branca. O presidente disse estar em diálogo com Teerã para organizar uma reunião.
Donald Trump alertou, porém, que pode ter que agir primeiro, uma vez que aumentaram os relatos sobre o número de mortos no Irã.
— Acho que eles estão cansados de ser atacados pelos Estados Unidos. O Irã quer negociar — disse.
Segundo o republicano, o Exército americano estuda "opções muito fortes" para o Irã, sem detalhar as possibilidades.
Nesta segunda, o jornal The Wall Street Journal noticiou, com base em relatos de autoridades americanas, que Trump cogita autorizar um ataque ao Irã. A publicação sustenta que, ao mesmo tempo, integrantes do alto escalão da Casa Branca tentam convencer o presidente a priorizar uma solução diplomática.

O ministro iraniano Abbas Araghchi respondeu, dizendo que "essas negociações devem ser justas, com igualdade de direitos e baseadas no respeito mútuo".
Simultaneamente, a chancelaria iraniana afirmou que um canal de comunicação estava "aberto" entre o governo de Teerã e o enviado dos Estados Unidos para o Oriente Médio.
Na Europa, o parlamento do continente decidiu banir os representantes do Irã em razão da repressão aos protestos. O presidente francês Emmanuel Macron condenou o governo iraniano.
A ministra das Relações Exteriores britânica, Yvette Cooper, disse ter conversado com Abbas Araghchi, pedindo para "cessar a violência de imediato, respeitar os direitos e liberdades fundamentais e garantir a segurança dos cidadãos britânicos" no país.
Já a Rússia condenou o que chamou de interferência de "poderes estrangeiros" no Irã.
Os protestos
As manifestações contra o governo iraniano começaram em resposta a uma crise econômica já antiga no país, em grande parte resultado de sanções dos EUA e da Europa relacionadas às ambições nucleares de Teerã. No final de dezembro, a moeda iraniana despencou em relação ao dólar americano, em meio a uma inflação que ultrapassou 40% naquele mês.
— A República Islâmica está presa em um círculo vicioso, pois quanto mais reprime, mas a situação econômica do país se deteriora — disse Clément Therme, pesquisador associado do Instituto Internacional de Estudos Iranianos, em entrevista à AFP.
A situação levou comerciantes e estudantes universitários às ruas. Após o aumento na adesão às manifestações, a internet foi cortada no país.
— Este movimento é diferente porque sintetiza todos os anteriores: as revoltas econômicas, as revoltas pela igualdade entre homens e mulheres, as revoltas estudantis e as revoltas das classes médias — avaliou Therme.
Conforme os atos cresciam, contudo, outras reivindicações surgiram. Nas redes sociais e na televisão, manifestantes foram vistos entoando slogans como "morte ao ditador" e "iranianos, levantem suas vozes, gritem por seus direitos".
O Irã é governado, desde 1979, por um regime islâmico. Naquele ano, o xá Mohammad Reza Pahlavi, apoiado pelos Estados Unidos, foi deposto pelas lideranças muçulmanas.
O aiatolá Ruhollah Khomeini, líder revolucionário, governou o país até 1989, quando morreu. Desde então, o líder supremo iraniano é o aiatolá Ali Khamenei, 86 anos.
No último final de semana, Reza Pahlavi, filho do xá deposto e figura da oposição iraniana em seu exílio nos Estados Unidos, instou nas redes sociais as forças armadas e de segurança a "apoiar o povo" nas manifestações contra o governo.


