
Cinco quilômetros das movimentadas ruas de Nova York separam os locais de onde devem sair algumas das decisões que vão determinar o futuro da Venezuela. No sul da ilha de Manhattan, Nicolás Maduro foi submetido, nesta segunda-feira (5), a uma audiência de custódia — o primeiro passo formal do processo judicial que motivou a captura do líder venezuelano no sábado (3), em Caracas.
— Eu sou inocente. Eu sou um homem decente. Eu sou um presidente — declarou Maduro ao juiz.
Na mesma ilha nova-iorquina, mas às margens do Rio East, o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) ouviu as preocupações da comunidade internacional acerca da crise desencadeada após a ação militar dos Estados Unidos. A Casa Branca justificou a intervenção aos diplomatas do mundo: Maduro, segundo os EUA, é chefe do Cartel de los Soles, uma organização terrorista responsável por tráfico de drogas, assassinatos e perseguições políticas.
— Maduro era um fugitivo da Justiça. Ele é o chefe de uma organização terrorista estrangeira nefasta — declarou Mike Waltz, embaixador americano na ONU.
Na Venezuela, Delcy Rodríguez foi empossada como presidente interina do país. Vice de Maduro e a primeira na linha de sucessão, ela recebeu a ordem da Suprema Corte para assumir o cargo por 90 dias, prorrogáveis.
Ataque à Venezuela
A ida ao tribunal
Do Centro de Detenção Metropolitano, um complexo penitenciário no Brooklyn, Maduro foi transferido para o Tribunal Federal no sul de Manhattan. O venezuelano vestia uma roupa marrom, estava algemado e foi acompanhado por agentes a um helicóptero. A esposa dele, Cilia Flores, foi levada logo atrás. Do lado de fora do tribunal, manifestantes pediam a liberdade de Maduro.
As acusações, que sustentaram a prisão, foram apresentadas formalmente:
- Conspiração para praticar narcoterrorismo
- Conspiração para importar cocaína para os EUA
- Uso de armas de guerra em crimes de tráfico
- Conspiração armada ligada ao narcotráfico
Mesmo declarando inocência, Maduro e Cilia devem ter a prisão preventiva decretada.
A audiêcia foi restrita. Como é comum nos EUA, a imprensa não pôde gravar imagens ou áudios da sessão. A artista Jane Rosenberg registrou em desenho a presença de Maduro e de Cilia na Corte de Nova York. Segundo a reprodução, os venezuelanos vestiam camisa azul-marinho de manga curta sobre um uniforme laranja de presidiário. Ambos usavam fones de ouvido, provavelmente para ouvir a tradução das falas.

O julgamento é conduzido por Alvin Hellerstein, juiz de 92 anos que atuou em casos dos ataques terroristas de 11 de setembro. O magistrado marcou uma nova audiência para 17 de março, data em que os dois prestarão depoimento.
Um júri deve ser formado para, ao longo dos próximos meses, julgar o casal. As penas pelos crimes imputados, somadas, podem chegar a 60 anos, mas Maduro e a esposa podem, inclusive, ser condenados à prisão perpétua.
O advogado Barry Pollack, que atuou no caso do fundador do WikiLeaks, Julian Assange, é o defensor de Maduro, segundo o The Wall Street Journal.
O debate na ONU
Antes da manifestação americana no Conselho de Segurança, dois poderosos integrantes do colegiado — e opositores políticos dos EUA — criticaram a ação do governo Trump. Enquanto a Rússia acusou Washington de tentar se apropriar do petróleo venezuelano, a China condenou o uso da força militar contra Caracas.
— Há algum tempo, a comunidade internacional vem expressando repetidamente grave preocupação com as sanções, o bloqueio e as ameaças de uso da força impostas pelos EUA à Venezuela — afirmou o embaixador Sun Lei.
O representante americano negou que o país esteja em guerra ou ocupando outra nação.
— Não há guerra contra a Venezuela ou seu povo. Não estamos ocupando um país. Trata-se de uma operação de cumprimento da lei — disse Mike Waltz.

Os Estados Unidos alegaram possuir "provas esmagadoras" dos crimes imputados ao presidente venezuelano e voltaram a denunciar o processo eleitoral do país — a reeleição de Maduro foi questionada pela oposição e pela comunidade internacional.
O governo americano ainda disse no Conselho de Segurança que Trump "deu uma chance à diplomacia" ao oferecer "várias saídas" para Maduro, que as teria recusado.
Reino Unido e França também apontaram que houve fraude nas eleições venezuelanas e prestaram solidariedade ao povo do país. A representação diplomática de Paris, contudo, afirmou que os Estados Unidos violaram a Carta da ONU ao invadirem a Venezuela.
O embaixador venezuelano nas Nações Unidas, Samuel Moncada, acusou os EUA de sequestrarem Maduro e disse que a ação deveria preocupar outros países:
— Seu desrespeito não afeta apenas a Venezuela, mas também estabelece um precedente extremamente perigoso para todos os Estados representados nesta Casa, independentemente de seu tamanho, poder ou alianças.
Depois de diplomatas da Argentina e do Chile, o embaixador brasileiro na ONU, Sérgio Danese, se manifestou.
— O Brasil rejeita categórica e firmemente a intervenção armada em território venezuelano, em flagrante violação da Carta das Nações Unidas e do direito internacional. Os bombardeios em território venezuelano e a captura de seu presidente ultrapassam um limite inaceitável — declarou.

A posse em Caracas
O país é governado interinamente por Delcy Rodríguez, vice de Maduro, empossada nesta segunda.
— Venho com dor pelo sequestro de dois heróis que temos como reféns nos Estados Unidos — disse Rodríguez ao fazer seu juramento.
Ela recebeu o aval de lideranças militares do país, do filho de Maduro, que é deputado, e até mesmo da Casa Branca, que se disse disposta a trabalhar com Rodríguez, desde que tomadas as "decisões adequadas". Em sinal conciliatório, Delcy Rodríguez convidou Trump a "colaborar" com a Venezuela.

O parlamento eleito em 2024 também tomou posse nesta segunda. O Legislativo do país é controlado pelo chavismo. Gritos de "força, Nico", em referência a Maduro, foram entoados pelos aliados.
Ainda nesta segunda, o país ordenou que a polícia busque e capture "todos os envolvidos na promoção ou apoio ao ataque armado dos Estados Unidos".
Na fronteira com o Brasil, a presença de generais brasileiros provocou movimentação de militares venezuelanos, informou Rodrigo Lopes, enviado de Zero Hora, em Pacaraima (RR). O Ministério da Justiça brasileiro prevê aumento do fluxo de refugiados na região. Em média, cerca de 500 venezuelanos têm ingressado no país diariamente pelo trecho.










