
A escalada da tensão entre Washington e Bruxelas atingiu novo patamar no final de semana. Donald Trump voltou com carga máxima, por enquanto no discurso, sobre uma possível incorporação da Groenlândia ao território norte-americano. Ele alega defesa da soberania nacional contra a influência russa e chinesa no Ártico.
Líderes europeus, em resposta, enviaram tropas e navios para a região e, de forma conjunta, se manifestaram em favor da soberania da região.
Em entrevista ao Gaúcha Atualidade, da Rádio Gaúcha, nesta segunda-feira (19), o professor de Relações Internacionais da ESPM e pesquisador da UFRGS, Roberto Uebel, apontou que a atitude europeia é uma demonstração de força e de soberania, visando mostrar que o território não está abandonado.
O impasse coloca em xeque a própria sobrevivência da OTAN, pois uma disputa armada entre aliados seria, conforme Uebel, "a decretação do fim da organização" e uma escalada militar sem precedentes no pós-guerra.
Tarifas
Ainda de acordo com o professor, no campo econômico, a resposta da União Europeia à "ameaça de tarifa adicional para quem não apoiar Trump na empreitada no Ártico pode provocar uma guerra comercial de proporções bilionárias."
— O acordo (União Europeia-Mercosul) vai avançar, caracterizando o tratado como uma "tentativa de salvaguarda dos europeus" para garantir mercados fora da esfera de influência direta de Washington.

Fórum tenso em Davos
O desdobramento da crise agora converge para o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, onde Trump deve confrontar os líderes europeus em um ambiente de alta hostilidade diplomática.
De acordo com Uebel, a pressão sobre a Groenlândia serve como um trunfo para as eleições parlamentares do segundo semestre de 2026, pois "ele precisa demonstrar essa capacidade de força para os republicanos".
"Chegou a hora"
No final de semana, Donald Trump alegou que a Dinmarca falhou em conter a influência russa sobre o território. Em publicação na rede Truth Social, no domingo (18), Trump afirmou que "chegou a hora" de resolver a questão, "e isso será feito!!!", completou.
Na publicação, o presidente afirma que a Otan vem alertando há duas décadas sobre a necessidade de reduzir a presença russa na região, mas o governo dinamarquês "não fez nada" para enfrentar o problema. O republicano tem defendido abertamente a incorporação da Groenlândia aos Estados Unidos.
A proposta, rejeitada tanto por Copenhague quanto pelo governo autônomo da ilha, reacendeu tensões diplomáticas. Líderes dinamarqueses reiteraram que o território não está à venda e que a Groenlândia já é protegida pelo acordo de defesa coletiva da Otan.

No sábado (17), Trump também ameaçou impor tarifas sobre parceiros europeus até que Washington obtenha autorização para negociar a compra da ilha. Ele argumenta que o aumento da presença chinesa e russa no Ártico torna a ilha estratégica para a segurança dos EUA.
O final de semana na Groenlândia foi marcado por protestos contra o mandatário americano. Manifestantes carregavam cartazes de protesto, agitavam a bandeira nacional e entoavam: "A Groenlândia não está à venda".

França propõe encontro do G7
O ministro francês das Finanças, Roland Lescure, afirmou nesta segunda-feira (19), que pretende reunir os países do G7 para debater questões de soberania e comércio nos próximos dias.
De acordo com a agência Reuters, Lescure afirmou que França e Dinamarca têm posições alinhadas diante do impasse diplomático.
— Estamos solidários com nossos parceiros dinamarqueses e com a Groenlândia. A chantagem entre aliados não é aceitável — afirmou.

Grã-Bretanha, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Holanda, Noruega e Suécia já responderam à ameaça em uma declaração conjunta no fim de semana.
Reuniões de emergência
A chefe de política externa da União Europeia (UE), Kaja Kallas, terá uma série de reuniões nesta segunda-feira com autoridades da Dinamarca e da Groenlândia, informou Anitta Hipper, porta-voz-chefe para política externa e de segurança do bloco, durante coletiva de imprensa em Bruxelas.
De acordo com Hipper, Kallas se reunirá com o vice-primeiro-ministro da Groenlândia, Mute Egede, com o ministro da Defesa dinamarquês, Troels Lund Poulsen, e com a ministra das Relações Exteriores da Groenlândia, Vivian Motzfeldt.
As autoridades europeias ressaltaram que os contatos diplomáticos seguem em andamento em diferentes frentes, enquanto o bloco acompanha com atenção os desdobramentos geopolíticos recentes e avalia seus próximos passos no campo diplomático e de segurança.
Bolsas europeias caem com deterioração das relações entre EUA e UE
As bolsas europeias operam em queda acentuada, com os investidores reagindo à deterioração das relações entre os Estados Unidos e a União Europeia, que podem punir o crescimento se resultarem em materialização de tarifas.
A Bolsa de Londres marcava baixa de 0,49%, a de Paris cedia 1,4% e a de Frankfurt perdia 1,3%. O mercado de Milão tinha queda de 1,7% e o de Lisboa, por sua vez, tinha perda de 0,98%. Madri tinha baixa de 0,9%.



