
Hugo Chávez governou a Venezuela entre 1999 e 2013, ano em que morreu de câncer. Nicolás Maduro, então vice-presidente, foi eleito para comandar o país e deu continuidade ao governo de Chávez, reforçando de forma contínua o culto à figura do ex-presidente e ao chamado "chavismo", ideologia que moldou a vida política da Venezuela nos últimos 25 anos.
Com a captura de Maduro pelos Estados Unidos no último sábado (3), além das dúvidas que surgem sobre a administração direta do governo venezuelano, emergem também questionamentos sobre o futuro do chavismo e de sua influência no país.
Na tarde da segunda-feira (5), Delcy Rodríguez tomou posse como presidente interina da Venezuela. Rodríguez era vice de Maduro e liderará, pelo menos inicialmente, a transição na política venezuelana.
Nascida em Caracas, Delcy tem 56 anos e é filha do fundador do partido marxista Liga Socialista, Jorge Antonio Rodríguez, e irmã de Jorge Rodríguez Gómez, ex-prefeito de Caracas e considerado um grande intelectual chavista — a própria Delcy começou sua trajetória política em 2003, ainda no governo de Hugo Chávez.
Agora, como presidente interina em meio à crise política que se instalou no país, terá que buscar um equilíbrio entre suas convicções ideológicas, a pressão do governo norte-americano, a vontade popular e a influência de outros segmentos relevantes da sociedade venezuelana, como as Forças Armadas.
Ataque à Venezuela
Chegada de Chávez ao poder
Nascido em 1954 em Sabaneta, no Estado de Barinas, Hugo Rafael Chávez Frías era filho de dois professores e cresceu em uma família humilde. Ainda na juventude, decidiu ingressar no Exército, onde fez carreira até iniciar suas atividades no âmbito político.
— Até o final da década de 1970, a Venezuela vivia uma "pax petroleira", isto é, as elites governavam o país com base nos rendimentos da exploração do petróleo. Com a crise dos preços do petróleo, as mazelas sociais da Venezuela, como a desigualdade e a miséria, começaram a se acentuar na década de 1980, gerando maior instabilidade no país e protestos contra as políticas neoliberais que passaram a ser adotadas — afirma a historiadora e professora da UFRGS Claudia Wasserman, especialista em história da América Latina.
No início da década de 1980, Hugo Chávez começou a se dedicar de vez à política e se tornou um dos fundadores do Movimento Bolivariano Revolucionário 200 (MBR-200). Em 1989, eclodiu em Caracas uma grande revolta contra o governo local, que ficou conhecida como "Caracaço", e Chávez já se apresentava como um dos líderes desse movimento. Em 1992, o MBR-200 tentou derrubar o governo de Carlos Pérez, mas o golpe fracassou e suas lideranças, incluindo Chávez, foram presas.
A crise econômica e social na Venezuela era grande na década de 1990, e Pérez acabou destituído do poder em 1993. Sob forte clamor popular, Hugo Chávez foi libertado do cárcere em 1994. Decidido a se tornar presidente, amparado por sua crescente popularidade e pelo sentimento de mudança presente na sociedade venezuelana, Chávez venceu as eleições presidenciais do país em 1998, angariando 56% dos votos, iniciando seu governo em 1999.

Bases do Chavismo
Entre as bandeiras de Hugo Chávez, estava o combate à desigualdade e à pobreza, explica a professora Wasserman.
— Quando falamos de tradições das Forças Armadas na América Latina, há um grupo que sempre foi mais ligado a interesses das elites e de potências estrangeiras, e outro que, por mais que muitas vez também autoritários, tinha mais apreço pelas questões sociais, pelos mais pobres e pelos trabalhadores. Hugo Chávez se insere nesse segundo grupo, tendo tido como inspirações, além de Simón Bolívar, figuras como o peruano Juan Velasco Alvarado, o boliviano Juan José Torres e o panamenho Omar Torrijos, assim como Fidel Castro, que foi a primeira pessoa que ele visitou após se tornar presidente venezuelano — observa.
— Chávez também bebeu da fonte do caudilhismo, sendo influenciado pelo argentino Juan Domingo Perón, também egresso do Exército, e pelo brasileiro Getúlio Vargas, este que não era militar, mas que também foi um expoente desta tradição sul-americana de líderes populistas, nacionalistas e personalistas, por vezes com viéses autoritários, que Chávez acabou seguindo — acrescenta Rodrigo Stumpf González, professor do Departamento de Ciência Política da UFRGS.
No poder, Chávez buscou praticar o que chamava de "Socialismo do Século 21". Entre suas principais ações, passou a utilizar os rendimentos oriundos da exploração do petróleo para realizar programas de distribuição de renda, o que impulsionou sua popularidade. Também se notabilizou por nacionalizar dezenas de empresas que atuavam no país e por levar a cabo uma reforma agrária, entre outras iniciativas. Ainda ficou marcado por um forte discurso contra os Estados Unidos.
Em 2002, Chávez sofreu uma tentativa de golpe e foi preso. Ainda gozando de grande popularidade, acabou solto poucos dias depois e retornou ao poder, governando o país até sua morte, em 2013.
Durante seu mandato, Hugo Chávez seria reeleito presidente em 2000, 2006 e 2012. Militar de carreira, foi recrudescendo seu governo nos últimos anos de gestão, com maior autoritarismo e influência das Forças Armadas, pois se dizia perseguido por ameaças estrangeiras. Passou a nomear pessoas de sua confiança para exercer cargos estratégicos da administração federal e do Judiciário venezuelano, e também começou a ser acusado de perseguir adversários políticos.

Maduro presidente
Quando Chávez morreu, Nicolás Maduro já era seu vice-presidente — o próprio Maduro anunciou a morte de Chávez à população em transmissão da rede estatal de TV. Maduro seria oficializado presidente em eleição realizada em 2013, e depois reeleito em 2018 e 2024, já em pleitos onde foi amplamente acusado de fraude.
Maduro não era militar de carreira, mas foi um dos militantes mais fervorosos do MBR-200. Quando Chávez foi preso na década de 1990, o sucessor foi uma das principais vozes defendendo sua libertação. A partir disso, iniciou a trajetória política que o levaria a ser o herdeiro do chavismo.
— O problema é que Maduro não tinha muitos dos predicados que favoreceram Chávez. Não tinha o mesmo carisma nem a mesma popularidade, os rendimentos do petróelo já não estavam mais tão altos quanto anteriormente, o que prejudicou os programas de distribuição de renda, e não tinha a mesma capacidade de articulação política e nem dentro das Forças Armadas, que foram crescendo em influência no governo. Chávez era apoiado pelas Forças Armadas, já Maduro se tornou dependente delas para se manter no poder — destaca a professora Claudia Wasserman.
Diante desse cenário, Maduro começou a sofrer cada vez mais contestações internas e externas. O presidente então se tornou ainda mais autoritário, sofrendo graves acusações de perseguição política, violação de direitos humanos e corrupção em diversas instâncias. Sob seu governo, a Venezuela mergulhou em uma crise econômica e social sem precedentes, que levou milhões de venezuelanos a deixarem seu país em busca de melhores condições de vida na última década.
Futuro do chavismo

A baixa popularidade de Maduro levou também a um desgaste do chavismo enquanto ideologia política e social, como aponta Matheus Fröhlich, professor de Relações Internacionais na Universidade do Vale do Taquari (Univates).
— Como já vinha se desenhando antes da captura de Maduro, o chavismo deixou de operar como ideologia de massas e passou a funcionar como um mecanismo de sobrevivência estatal. Com a saída abrupta de Maduro de cena, o núcleo governista busca preservar-se por meio da continuidade institucional. Nesse contexto, Delcy Rodríguez emerge como a face pragmática do regime, buscando evitar o colapso do aparato estatal e sinalizando disposição para negociar com os Estados Unidos, especialmente em agendas relacionadas à estabilidade territorial, ao fluxo de petróleo e à contenção do caos humanitário — ressalta.
Donald Trump havia afirmado que os Estados Unidos "governariam" o país durante um período de transição, mas Delcy Rodríguez já foi empossada presidente interina e parece haver interesse das duas partes para trabalharem em conjunto, pelo menos inicialmente.
— Delcy Rodríguez vem de uma família de forte tradição marxista, que depois se vinculou intrinsecamente ao chavismo. Mas, neste momento, deve exercer um papel mais pragmático, na tentativa de estabilizar o país e evitar o agravamento de revoltas que possam levar a conflitos mais sérios dentro do território venezuelano. Por isso, o Exército também deve ter um papel importante neste período — observa o professor Rodrigo Stumpf González.
Após ser tirado do poder, Maduro foi levado aos Estados Unidos, onde será julgado e deverá permanecer preso. Ao mesmo tempo em que sua deposição foi comemorada por venezuelanos que sofriam com a crise social do país, outra parte da população protestou contra a derrubada forçada do presidente exercida por uma potência estrangeira.
Para a professora Claudia Wasserman, há dois cenários que podem acontecer agora, inclusive em paralelo.
— A elite venezuelana deve tentar aproveitar este momento para tentar enterrar o chavismo de vez, mas esse grupo é proporcionalmente pequeno na Venezuela e seus líderes nunca conseguiram angariar muita popularidade. Por outro lado, mesmo com o desgaste que Maduro já enfrentava, deve voltar a crescer o sentimento contra os Estados Unidos na população venezuelana, que teve sua soberania violada com o sequestro do presidente. Nesse contexto, o chamado chavismo pode voltar a crescer, porque a figura de Hugo Chávez remete tanto a tempos mais prósperos do país quanto à imagem de enfrentamento aos norte-americanos — afirma.










