
O Fórum Econômico Mundial começa nesta segunda-feira (19), em Davos, na Suíça, sob um clima de tensão global alimentado pelas recentes investidas do presidente dos EUA, Donald Trump — da ofensiva na Venezuela ao avanço sobre a Groenlândia e às novas pressões tarifárias sobre aliados europeus —, enquanto a guerra na Ucrânia permanece sem solução.
O tema do evento, que ocorre até sexta-feira (23), é "Um Espírito de Diálogo", buscando promover a cooperação entre líderes políticos, empresários e organizações. Ao todo, são esperados cerca de 3 mil participantes de mais de 130 países.
A tradicional reunião de líderes globais deve contar com a presença de 64 chefes de Estado e governo, segundo a organização, entre eles o próprio presidente norte-americano, que volta ao evento após seis anos da última aparição, com holofotes e expectativas voltados para sua fala, marcada para quarta-feira (21). Trump estará acompanhado da maior delegação norte-americana da história do fórum, incluindo os secretários de Estado, Marco Rubio, e do Tesouro, Scott Bessent, além do enviado especial para a Ucrânia e o Oriente Médio, Steve Witkoff.
O fórum ainda reunirá o chanceler alemão, Friedrich Merz; o primeiro-ministro canadense, Mark Carney; o presidente francês, Emmanuel Macron; o presidente argentino, Javier Milei; o presidente colombiano, Gustavo Petro; a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen; o vice-premiê chinês, He Lifeng; além do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.
Cinco temas centrais devem orientar painéis, discursos e sessões especiais deste ano (veja a agenda dos líderes mundiais ao final da reportagem):
- Como podemos cooperar em um mundo cada vez mais fragmentado?
- Como podemos destravar novas fontes de crescimento?
- Como podemos investir mais nas pessoas?
- Como podemos implementar a inovação em escala e de forma responsável?
- Como podemos prosperar respeitando os limites do planeta?
Lula fica de fora e ministra representa o Brasil
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que já participou de edições anteriores, não vai a Davos em 2026. A representante do governo brasileiro será a ministra da Gestão e da Inovação dos Serviços Públicos, Esther Dweck.
A ministra participará de plenárias com temas de governança digital, compras sustentáveis e debates sobre a América Latina. Na quinta (22), assinará a adesão do Brasil ao First Movers Coalition (FMC), iniciativa do próprio Fórum Econômico Mundial, que visa acelerar a viabilidade comercial de tecnologias e produtos com baixa emissão de carbono a partir de um sistema de compras sustentáveis que envolve, até o momento, 14 países, seis dos quais do G7.

Convite ao Irã foi retirado
Nesta segunda-feira, os organizadores do fórum informaram que o ministro das Relações Exteriores do Irã não participará da cúpula de Davos, pois a presença dele foi considerada "inapropriada" após a violenta repressão a manifestantes na República Islâmica. Abbas Araghchi seria orador na terça-feira (20), no entanto, diversos ativistas haviam instado os organizadores do Fórum a retirar o convite, após a recente repressão a uma onda de protestos na República Islâmica que deixou milhares de mortos.
"O ministro das Relações Exteriores iraniano não participará de Davos", anunciou o Fórum Econômico Mundial na rede social X.
O movimento de protesto no Irã, iniciado em 28 de dezembro por comerciantes que protestavam contra a inflação galopante antes de se ampliar para incluir demandas políticas, foi sufocado por uma repressão severa. Segundo o último balanço da ONG Iran Human Rights (IHR), com sede na Noruega, ao menos 3.428 manifestantes morreram em consequência da repressão.
O que esperar de Trump

O presidente americano voltará ao Fórum Econômico Mundial após provocar uma nova avalanche na ordem global. Mas, para o republicano, sua principal audiência está em casa.
A primeira aparição de Trump em seis anos na reunião da elite política e econômica mundial ocorre em meio a uma crise crescente por sua tentativa de assumir o controle da Groenlândia, território autônomo da Dinamarca.
Os outros líderes presentes na cidade montanhosa suíça estarão ansiosos para ouvir de outros marcos do primeiro ano de Trump de volta ao poder, das tarifas aduaneiras a Venezuela, Ucrânia, Gaza e Irã. No entanto, para o presidente dos EUA, o discurso principal será dirigido, em grande medida, ao seu país.
Os americanos estão indignados com o custo da vida, apesar das promessas de Trump de criar uma "era dourada", e seu partido poderia sofrer um castigo nas eleições legislativas de meio de mandato, em novembro. Isto significa que Trump dedicará pelo menos parte de seu tempo na luxuosa Davos a falar das questões internas dos Estados Unidos.
Um funcionário da Casa Branca disse que Trump "apresentará iniciativas para reduzir os custos da moradia" e "enaltecerá sua agenda econômica, que impulsionou os Estados Unidos a liderarem o mundo em crescimento".
Mas, na Suíça, Trump não vai poder evitar a tempestade global de acontecimentos que ele próprio gerou desde 20 de janeiro de 2025. Ele estará ao lado de muitos líderes dos mesmos aliados europeus da Otan, aos quais acaba de ameaçar com tarifas caso apoiem sua tentativa de assumir o controle da Groenlândia.
Também alimentaram as tensões as tarifas que Trump anunciou no começo de seu segundo mandato. Segundo antecipou o funcionário da Casa Branca, Trump "ressaltará que os Estados Unidos e a Europa devem deixar para trás a estagnação econômica e as políticas que a provocaram".

Guerra na Ucrânia estará sobre a mesa
O presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, espera se reunir com Trump para assinar novas garantias de segurança com vistas a um esperado acordo de cessar-fogo com a Rússia, assim como líderes do G7. Não há, contudo, nenhuma reunião agendada.
"Não foram programadas reuniões bilaterais para Davos até este momento", informou a Casa Branca.
O presidente dos Estados Unidos tem pressionado a Ucrânia para aceitar um plano destinado a pôr fim ao conflito.
Enquanto isso, Trump está considerando realizar em Davos a primeira reunião do chamado "Conselho de Paz" para a Faixa de Gaza, devastada pela guerra, após anunciar seus primeiros membros nos últimos dias.
Expectativa de discussões sobre a Venezuela
Também surgem perguntas sobre o futuro da Venezuela, após a operação militar americana para depor seu líder, Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, parte da nova abordagem de Trump para a região.
O líder norte-americano ainda terá de dividir o ambiente no resort suíço com o presidente colombiano, Gustavo Petro, que foi ameaçado por Trump após a operação militar na Venezuela.
O líder colombiano de esquerda, no entanto, manteve uma conversa por telefone com Trump na semana passada, na qual os dois suavizaram suas diferenças de longa data. O republicano anunciou que Petro o visitará na Casa Branca durante a primeira semana de fevereiro.
Ao apresentar a edição de 2026 do Fórum, o presidente do evento, Borge Brende, disse esperar "algumas discussões" sobre a situação na Venezuela.
Em seu primeiro comparecimento a Davos, em 2018, Trump foi vaiado ocasionalmente, mas voltou com força em 2020, quando desqualificou os "profetas da fatalidade" sobre o clima e a economia. Agora, volta como um presidente mais poderoso do que nunca, dentro e fora do seu país.
Riscos globais
Segundo dados do "Relatório de Riscos Globais 2026", divulgados pelo próprio Fórum Econômico Mundial, a confrontação geoeconômica foi apontada como o risco global de curto prazo mais crítico, podendo superar ameaças como guerras e desastres.
O trabalho deste ano foi feito em parceria entre a Marsh, empresa global de resseguro e capital, pessoas e investimento, e o Zurich Insurance Group, com 1,3 mil especialistas e 11 mil líderes empresariais. O foco são os principais riscos iminentes, nos próximos dois anos e em uma década.
Para 18% dos entrevistados, o risco mais provável de desencadear uma crise global em 2026 é a confrontação geoeconômica, seguida pelo conflito armado entre Estados (14%).
Também ganham destaque no documento o risco econômico, com forte aumento na percepção de recessão econômica e inflação; os riscos tecnológicos, baseados em desinformação e insegurança cibernética; e o impacto adverso da inteligência artificial (IA), considerado o risco tecnológico com maior aumento na avaliação de severidade no longo prazo (subiu da 30ª para a 5ª posição).
O relatório ainda aponta que o multilateralismo está em retrocesso, com redução de transparência, confiança e respeito ao Estado de Direito.
Já os riscos ambientais foram relegados a segundo plano no curto prazo, embora a longo prazo continuem sendo os mais severos, por eventos climáticos extremos.
Agenda dos principais discursos de líderes mundiais
Terça-feira (20)
- 10h50min: discurso especial de Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia
- 11h20min: discurso especial de He Lifeng, vice-primeiro-ministro da China
- 14h: discurso especial de Emmanuel Macron, presidente da França
- 16h:30min: discurso especial de Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá
Quarta-feira (21)
- 9h30min: discurso especial de Abdel Fattah El-Sisi, presidente do Egito
- 10h: discurso especial de Pedro Sánchez, primeiro-ministro da Espanha
- 14h30min: discurso especial de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos
- 15h45min: discurso especial de Javier Milei, presidente da Argentina
Quinta-feira (22)
- 11h30min: discurso especial de Friedrich Merz, chanceler federal da Alemanha
- 14h: discurso especial de Prabowo Subianto, presidente da Indonésia



