
De Washington e Teerã partiram sinais surpreendentes — porém, com poucos detalhes — de um possível arrefecimento das tensões entre Estados Unidos e Irã após a semana de protestos no país asiático. O movimento aconteceu horas depois de uma escalada que mencionava um possível ataque, do lado dos EUA, e execuções sumárias e bombardeios a bases americanas por parte do Irã.
Nesta quarta-feira (14), o presidente Donald Trump disse ter recebido informações de fontes seguras sobre o fim da "matança" nos protestos contra o regime iraniano. Já o Irã afirmou que, depois de dias de manifestações, "há calma" no país.
— A matança no Irã está parando. Parou... E não há plano para execuções — assegurou Trump, sem explicar o que garantiria a afirmação.
— Após três dias de operação terrorista, agora há calma. Temos o controle total — disse o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, à emissora americana Fox News.
Na madrugada desta quarta, um drone da Marinha dos EUA sobrevoou uma área próxima à costa iraniana. A aeronave levantou voo nos Emirados Árabes Unidos. O modelo MQ-4C Triton funciona para operações de vigilância.
Em razão de ameaças iranianas, os Estados Unidos ordenaram a evacuação parcial de uma base no Catar. O local foi alvo de mísseis em junho de 2025. Ali Shamjani, assessor do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, comentou que aquele ataque havia demonstrado "a vontade e a capacidade do Irã de responder a qualquer agressão".
Julgamentos rápidos
O chefe do Judiciário do Irã, Gholamhossein Mohseni-Ejei, passou cinco horas em uma prisão de Teerã onde há manifestantes classificados como "arruaceiros" pelas autoridades. Após a visita, prometeu julgamentos "rápidos" e "públicos".
— Se alguém incendiou uma pessoa, a decapitou antes de queimar seu corpo, devemos fazer nosso trabalho rapidamente — declarou o dirigente, nesta quarta.
A execução do manifestante iraniano Erfan Soltani, 26 anos, prevista para esta quarta, foi adiada segundo a ONG Hengaw. Ele foi preso no dia 8 de janeiro e condenado à morte por sua participação nos protestos.
Grupos de defesa dos direitos humanos afirmam que, aproveitando um corte de internet que já dura sete dias, as autoridades iranianas estão realizando a repressão mais severa em anos. A reação do regime teria deixado ao menos 3.428 mortos, segundo uma ONG.
"Só queria ter notícias"
A dificuldade de contatar os familiares foi a maior preocupação do iraniano Armin Heidary, 43 anos. Ele vive no Brasil há 14 anos e precisou da ajuda de uma pessoa no Afeganistão para falar com os pais.
— Eu achei um afegão, um cidadão do Afeganistão, que é o país vizinho. Paguei para ele. Ele conseguiu ligar para meu pai, deixou o celular no fone ao vivo. Então, eu consegui falar com eles por 30 segundos — relatou.
Apesar da curta conversa, Armin pôde se tranquilizar: todos os parentes estão vivos.
— Eles estavam se segurando para não chorar, e eu também. Só queria ter notícias, eles estão vivos — falou.
Armin só cogita voltar a viver no país natal com a queda da teocracia:
— Se mudar o regime, sim, com certeza. Ninguém gosta de ficar fora do seu país.
— Eu sempre falo com meus vizinhos, com meus amigos aqui no Brasil: "Cara, o Brasil tem uma joia: liberdade e democracia". Você não sabe o que isso significa até não ter — comentou o iraniano.
Os protestos
As manifestações contra o governo iraniano começaram em resposta a uma crise econômica já antiga no país, em grande parte resultado de sanções dos EUA e da Europa relacionadas às ambições nucleares de Teerã. No final de dezembro, a moeda iraniana despencou em relação ao dólar americano, em meio a uma inflação que ultrapassou 40% naquele mês.
A situação levou comerciantes e estudantes universitários às ruas. A violência estatal resultou em milhares de mortos, segundo ONGs.
O Ministério das Relações Exteriores do Brasil afirmou que acompanha com preocupação a evolução das manifestações no Irã. A pasta disse ainda que não há registros de brasileiros mortos ou feridos no país.
"O Brasil lamenta as mortes e transmite condolências às famílias afetadas. Ao sublinhar que cabe apenas aos iranianos decidir, de maneira soberana, sobre o futuro de seu país, o Brasil insta todos os atores a se engajarem em diálogo pacífico, substantivo e construtivo", diz a nota do Itamaraty.
O Irã é governado, desde 1979, por um regime teocrático islâmico. Naquele ano, o xá Mohammad Reza Pahlavi, apoiado pelos Estados Unidos, foi deposto pelas lideranças muçulmanas. O país é liderado por um aiatolá — Ruhollah Khomeini (até 1989) e Ali Khamenei (de 1989 até hoje).




