
Preso desde novembro após ser detido por agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE), o brasileiro Matheus Silveira, 31 anos, voltou ao centro de uma mobilização familiar após ser transferido para uma unidade descrita pela esposa como de "condições absolutamente deploráveis".
O caso tem chamado atenção pela forma como ocorreu a prisão, durante a etapa final do processo para residência permanente, e pelas sucessivas mudanças de detenção sem comunicação clara à família.
Natural do Brasil e morando nos Estados Unidos desde 2019, Matheus trabalhava como entregador e planejava construir uma vida no país ao lado da esposa, a advogada norte-americana Hannah Silveira. O casal vivia em San Diego, na Califórnia, e havia protocolado o pedido de green card após o casamento, em agosto de 2024, segundo o UOL.
A situação ganhou novos contornos nesta semana, quando Hannah afirmou ter ficado dias sem notícias do marido e relatou dificuldades para localizá-lo no sistema de imigração. Posteriormente, ela conseguiu contato e confirmou que ele havia sido transferido para o Centro Correcional Richwood, no estado da Louisiana.
Quem é Matheus Silveira
Antes de se estabelecer nos Estados Unidos, Matheus já havia visitado o país. Publicações em redes sociais indicam uma passagem em 2015.
Segundo a mãe, Luciana Santos de Paula, ele se mudou com o objetivo de aprimorar o inglês e continuar os estudos na área de aviação. No Brasil, chegou a fazer um curso de piloto de avião.
Ele conheceu Hannah em 2022, quando ela se mudou para a Califórnia para estudar Direito após atuar como paramédica no Exército americano. O relacionamento evoluiu até o casamento, e os dois planejavam se mudar para Minneapolis, comprar uma casa e abrir um negócio.
O visto de estudante de Matheus, porém, expirou durante a pandemia de covid-19, ponto que passou a pesar no processo migratório.
Como ocorreu a prisão
Matheus foi detido em 24 de novembro de 2025, no escritório do Serviço de Cidadania e Imigração dos EUA, em San Diego, durante a entrevista considerada a última etapa para a aprovação do green card. De acordo com Hannah, o pedido havia sido aceito quando uma policial informou que "pessoas no corredor" aguardavam o casal e o advogado.
Na sequência, quatro agentes do ICE entraram na sala, colocaram o brasileiro contra a parede e efetuaram a prisão com base em um mandado relacionado à permanência no país após o vencimento do visto.
Em entrevista para o UOL, Hannah disse que "mesmo estando casados há um ano e meio e sob qualquer governo, isso de certa forma resolveria a questão civil".
Histórico citado pelas autoridades
A secretária adjunta do Departamento de Segurança Interna, Tricia McLaughlin, declarou à revista Newsweek que Matheus permanecerá sob custódia enquanto aguarda a saída dos Estados Unidos.
Segundo ela, trata-se de um "imigrante ilegal brasileiro com antecedentes criminais que permaneceu nos Estados Unidos após o vencimento de seu visto de estudante F-1".
A autoridade acrescentou que ele já havia sido preso anteriormente por dirigir sob a influência de álcool e que a solicitação de um green card não garante automaticamente o status de residente permanente.
O episódio citado ocorreu em 2022, em Nevada. A esposa afirma que ele assumiu a direção do carro para levar o veículo à casa de um amigo que, segundo acreditava, não tinha condições de conduzir com segurança.
Condições de detenção e transferência
Desde a prisão, Matheus estava no Centro de Detenção de Otay Mesa, em San Diego. Hannah relatou que os detentos não eram bem alimentados e que o marido dormia no chão em um quarto com 16 homens.
A transferência para a Louisiana gerou nova preocupação. Segundo ela, houve um pedido para que Matheus assinasse o documento autorizando a mudança sem consulta ao advogado. Hannah também afirmou que o marido está sem óculos e teria dificuldade para ler o que estava escrito.
A norte-americana disse ainda que ele foi enganado, pois teria sido informado de que seria levado para um local próximo ao aeroporto. O centro atual fica a cerca de duas horas de distância e apresenta "condições absolutamente deploráveis".
Família ficou sem notícias
Hannah contou à CNN Brasil que a última conversa com o marido havia ocorrido na noite de domingo (25), pouco antes do jantar. Ao tentar contato no dia seguinte pelo aplicativo usado pelos detentos, a conta dele já não aparecia disponível.
A esposa disse que, depois disso, "não teve mais notícias" e tinha expectativa de voltar a falar com Matheus porque "era o aniversário dele".
Representantes do consulado brasileiro e um advogado chegaram a ir ao centro de detenção para tentar localizá-lo, mas foram informados de que ele havia sido transferido para outro estado.
Saída autorizada e planos de retorno ao Brasil
Um tribunal autorizou a saída voluntária de Matheus dos Estados Unidos, o que permitiria o retorno ao Brasil em voo comercial, e não em aeronave de deportação. Ainda assim, ele ficará impedido de entrar novamente no país por 10 anos.
O brasileiro assinou o termo de autodeportação na semana passada, e a expectativa é de que o processo seja concluído nas próximas semanas, embora ainda não haja data definida para a liberação.
Segundo a esposa, durante o período de detenção, ele perdeu peso e relatou restrições na alimentação.
Recomeço planejado
Diante do cenário, o casal pretende recomeçar a vida no Rio de Janeiro após a liberação. Hannah, cujo diploma de Direito não é válido no Brasil, busca uma nova carreira e criou uma campanha on-line com meta de R$ 238 mil para custear a mudança.
Em uma publicação nas redes sociais na última terça-feira (27), ela escreveu uma mensagem de aniversário ao marido: "Espero que sorria hoje. Espero que aconteça algo que te faça rir".
No desabafo, ela acrescentou: "Espero que saiba que estou fazendo tudo que está ao meu alcance para te encontrar e te manter seguro. Você sempre foi tão forte para mim e é verdadeiramente uma honra ter a chance de fazer o mesmo por você".


