
Há um mês, Donald Trump divulgava sua nova Estratégia de Segurança Nacional (ESN). O documento de 33 páginas reafirma a decisão dos Estados Unidos de ampliar a presença militar e influência na América Latina.
O ataque norte-americano ao território venezuelano e a captura de Nicolás Maduro, levado para os EUA onde será julgado por supostos crimes de terrorismo e narcotráfico, reflete, na prática, a nova estratégia.
Em declarações feitas a bordo do Air Force One e em coletivas oficiais, o republicano defendeu o controle e intervenções militares em outros territórios (veja abaixo).
Colômbia

Donald Trump afirmou que a Colômbia "gosta de vender cocaína para os Estados Unidos" e sinalizou possíveis operações contra refinarias em território colombiano. Sobre o governo de Gustavo Petro, declarou:
— Ele não ficará lá por muito tempo.
Conforme informações divulgadas pela imprensa, Trump foi questionado por jornalistas se os Estados Unidos realizariam alguma operação militar na Colômbia:
— Parece bom para mim — respondeu.
O presidente colombiano Gustavo Petro é um dos principais críticos do mandatário norte-americano e tem feito críticas às operações militares dos EUA na América do Sul.
Petro reage
Gustavo Petro contestou as acusações de Trump que o apontam como "um líder narcotraficante". Em publicação na rede social X no domingo (4), ele afirmou que não tem "nenhum registro judicial de tráfico de drogas".
"Meu nome não consta em nenhum registro judicial de tráfico de drogas há 50 anos, nem no passado nem no presente. Pare de me difamar, Sr. Trump", escreveu na rede social X.
A chancelaria colombiana classificou as ameaças do mandatário norte-americano como uma "ingerência inaceitável" e pediu "respeito". Desde que iniciou o seu segundo mandato, em janeiro de 2025, Trump e Petro têm discordado repetidamente em temas como política tarifária e migração.
Ataque à Venezuela
México

No México, o foco recaiu sobre os cartéis de drogas, que Trump descreveu como uma ameaça direta que "governa o país". Segundo o republicano, há uma oferta recorrente à presidente Claudia Sheinbaum para o envio de tropas americanas.
— Ela tem medo de enfrentar os cartéis— afirmou o presidente.
Donald Trump não detalhou se há planos concretos para uma ação militar no México, mas disse que Washington seguirá pressionando para conter o tráfico de drogas e a atuação das organizações criminosas que operam a partir do país vizinho.
Canal do Panamá
Sobre o Canal do Panamá, a grande reclamação de Trump reside nos altos valores cobrados de embarcações americanas que cruzam a via. O controle do espaço, hipótese que violaria a soberania do Panamá, também um país independente, poderia, na lógica de Trump, "baratear" os custos no trânsito de embarcações entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Alegando "taxas excessivas" e "influência chinesa" na gestão portuária, o presidente exigiu a devolução da estrutura:
"Se os princípios deste gesto magnânimo de doação não forem seguidos, então exigiremos que o Canal do Panamá seja devolvido a nós, integralmente, rapidamente e sem questionamentos."
A ofensiva sobre a Groenlândia

Geograficamente situada na América do Norte, a Groenlândia é parte do Reino da Dinamarca desde 1953. Em 2009, o país europeu autorizou a região a ter um governo próprio e autônomo. O interesse de Trump no espaço vem desde o primeiro mandato e é baseado na questão da segurança dos Estados Unidos, uma vez que a ilha é considerada um território estratégico.
A disputa pela Groenlândia escalou com a nomeação de Jeff Landry (governador da Louisiana) como enviado especial para a região em dezembro. O objetivo declarado é transformar a ilha em parte dos EUA por razões de segurança nacional e acesso a recursos minerais.
Trump reiterou que "precisa da Groenlândia para a defesa" e não descartou o uso de força militar ou tarifas contra a Dinamarca caso a transação seja bloqueada. Em resposta, a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, afirmou:
— Exorto veementemente os EUA a cessarem as ameaças contra um aliado histórico próximo e contra outro país e outro povo que já declararam claramente que não estão à venda.
O assunto voltou à tona com o ataque à Venezuela. Em entrevista à revista The Atlantic no domingo (4), Trump disse "precisar da Groenlândia" para fortalecer o sistema de defesa americano, após ser questionado se a entrada das tropas americanas na Venezuela implicaria em uma maior disposição dos Estados Unidos para fazer intervenções militares na Groenlândia.
Reação
"Já chega!", reagiu nesta segunda-feira (5), o primeiro-ministro da Groenlândia, Jens Frederik Nielssen, após a nova ameaça de anexação feita pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que insiste em que a ilha ártica deveria fazer parte dos EUA.
"Chega de pressão. Chega de insinuações. Chega de fantasias de anexação. Estamos abertos ao diálogo. Estamos abertos às discussões. Mas isso deve ser feito pelos canais adequados e com respeito ao direito internacional", escreveu no Facebook o chefe do governo groenlandês.
A ilha atrai o republicano por conta da posição estratégica que o território possui no Ártico, além da reserva de terras raras e fontes de recursos naturais, como minério.
Publicação nas redes sociais
Ainda no sábado (3), enquanto Nicolás Maduro ainda desembarcava nos Estados Unidos para responder a acusações de envolvimento com tráfico de drogas, Katie Miller, esposa de Stephen Miller, chefe de gabinete da Casa Branca, reacendia a discussão.
No X, ela publicou uma imagem ilustrativa que exibe a Groelândia pintada com as cores dos Estados Unidos, e escreveu na postagem a palavra "soon", que significa "em breve", em inglês.
Jesper Moller Sorensen, embaixador da Dinamarca nos Estados Unidos, respondeu ao post de Katie Miller dizendo que Estados Unidos e Dinamarca são "aliados próximos" e que os países devem "continuar a trabalhar juntos" para garantir maior segurança no Ártico.
O primeiro-ministro da Groenlândia também rebateu a publicação de Katie Miller e classificou a foto como "desrespeitosa".
"A imagem compartilhada por Katie Miller, que retrata a Groenlândia envolta em uma bandeira americana, não muda absolutamente nada. Nosso país não está à venda e nosso futuro não é decidido por postagens em redes sociais", disse Frederik, que concluiu: "Não há necessidade de entrar em pânico. Mas há uma boa razão para falar contra o desrespeito".
A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, por sua vez, escreveu nas suas redes sociais que "não faz absolutamente nenhum sentido falar sobre os Estados Unidos assumirem a Groenlândia", e reforçou que, por fazer parte da Otan, o país "está coberto pela garantia de segurança da aliança".
Anexação do Canadá
Após a renúncia do primeiro-ministro canadense Justin Trudeau, Trump sugeriu em redes sociais que o Canadá se tornasse o 51º estado americano, citando déficits comerciais e gastos com segurança.
O político chegou a publicar uma foto nas redes sociais de como ficaria o mapa dos dois países juntos.
"Se o Canadá se fundisse com os EUA, não haveria tarifas, os impostos cairiam muito e eles estariam totalmente seguros da ameaça dos navios russos e chineses."
Antes de renunciar, Trudeau rebateu a ideia, comparando a chance de anexação a uma "bola de neve não derreter no inferno".
Interferência política: o caso da Argentina e de Honduras

Argentina
Em outubro do ano passado, os Estados Unidos acordaram uma linha de financiamento de US$ 20 bilhões, com a Argentina por meio de um swap cambial (troca de moedas) e compraram pesos no mercado
Donald Trump que a ajuda financeira para a Argentina dependia do resultado das eleições legislativas de 26 de outubro.
Conforme o secretário do Tesouro, Scott Bessent, o sucesso da agenda de reformas da Argentina é de importância sistêmica, e uma Argentina forte e estável que ajude a ancorar um Hemisfério Ocidental próspero está no interesse estratégico dos Estados Unidos.
Vitória de Milei
O partido de Milei, A Liberdade Avança, venceu a disputa e aumentou sua base no Congresso. O LLA venceu com 40,8% dos votos, à frente do partido peronista de centro-esquerda, que, em suas diversas vertentes, obteve 31,6%
Donald Trump parabenizou o presidente Javier Milei por sua vitória esmagadora na Argentina.
— Ele está fazendo um trabalho maravilhoso! Nossa confiança nele foi justificada pelo povo argentino, escreveu Trump em seu perfil no Truth Social.
O resultado trouxe alívio ao governo após semanas marcadas por forte pressão sobre o peso argentino e denúncias de corrupção envolvendo a irmã do presidente argentino.
Honduras

Nasry Asfura, 67 anos, também conhecido como "Tito" Asfura, teve sua vitória como presidente eleito de Honduras oficializada em dezembro. O resultado marca o retorno da direita ao poder e leva o Partido Nacional (PN) de volta à casa presidencial. A apuração dos votos, iniciada em 30 de novembro, estendeu-se por quase um mês.
Apoio de Trump
Apoiado pelo presidente dos EUA, o empresário é visto pelo republicano como um aliado estratégico contra os "narcocomunistas". Durante o processo eleitoral, Trump chegou a ameaçar o corte de ajuda financeira a Honduras — um dos países mais pobres da América Latina — caso Asfura não fosse eleito.
Na véspera da votação, Trump advertiu que, se o ex-prefeito e empresário de 67 anos não vencer a disputa, "Washington não desperdiçará dinheiro ajudando Honduras".
"Golfo da América"
Trump também chegou a afirmar que iria renomear o Golfo do México, considerado o maior golfo do mundo, para "Golfo da América". Para ele, além do novo nome soar mais bonito, também seria apropriado porque os Estados Unidos são responsáveis por todo o trabalho na Região.
Saiba mais sobre os assuntos
Estratégia de Segurança
A estratégia prevê uma presença militar mais robusta e duradoura, com três elementos principais:
- Controle Marítimo: maior presença da Guarda Costeira e da Marinha para controlar rotas marítimas, conter a migração ilegal e o tráfico de drogas e pessoas.
- Combate a Cartéis (Uso de Força Letal): ações direcionadas, incluindo, "quando necessário, o uso de força letal" para derrotar cartéis de drogas, substituindo a antiga abordagem de mera aplicação da lei.
- Acesso Estratégico: estabelecimento ou ampliação do acesso a locais de importância estratégica na região.
Canal do Panamá
O Canal do Panamá foi construído pelos Estados Unidos e inaugurado em 1914. Passou para as mãos do país centro-americano em 31 de dezembro de 1999, conforme os tratados assinados em 1977 pelo então presidente dos EUA Jimmy Carter e pelo líder nacionalista panamenho Omar Torrijos.
Groenlândia
Coberta em 80% por gelo e com 57 mil habitantes, a Groenlândia é a maior ilha do mundo e possui hidrocarbonetos e minerais importantes para a transição energética.
O território está geograficamente localizado na América do Norte, mas mantém fortes relações com a Dinamarca. A ilha, que já foi uma colônia dinamarquesa, passou a fazer parte do Reino da Dinamarca em 1953 e, até hoje, segue a Constituição dinamarquesa.
Em 2009, a Dinamarca autorizou a Groenlândia a ter um governo próprio e autônomo, permitindo até mesmo uma declaração de independência por meio de referendo.
Trump não foi o primeiro presidente dos Estados Unidos a tentar adquirir a ilha. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, Harry Truman tentou comprá-la, oferecendo US$ 100 milhões em ouro. O objetivo era garantir um território estratégico para enfrentar as ameaças da Guerra Fria.
A proposta de Truman foi rejeitada, mas, no início da década de 1950, os Estados Unidos conseguiram instalar uma base militar na ilha com a autorização da Dinamarca.










