
Dezenas de famílias israelenses viram hoje o alvorecer da interminável noite de 7 de outubro de 2023. Vinte reféns que eram mantidos pelo grupo terrorista Hamas desde o atentado que deu início a uma guerra na Faixa de Gaza foram libertados nesta segunda-feira (13). O acontecimento é parte do acordo de cessar-fogo que promete encerrar o conflito.
— Isso não é apenas o fim da guerra, é o fim de uma era de terror e morte e o início de uma era de fé e esperança. É o amanhecer histórico de um novo Oriente Médio — projetou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cujo governo participou das negociações para a paz na região.
A emoção dos reencontros entre os reféns e seus familiares se espalhou pelo mundo, em vídeos e fotos. Mas algumas famílias não tiveram esta alegria: o Hamas também entregou os corpos de quatro reféns que morreram no cativeiro terrorista. Outros 24 cadáveres israelenses ainda devem ser entregues, mas não há data definida para isso.
— Não esquecemos (os reféns) por um momento sequer e não descansaremos até que todos retornem às suas famílias e sejam enterrados em Israel. — disse o brigadeiro-general Effie Defrin, porta-voz das Forças de Defesa de Israel (FDI) em um vídeo.
Em 7 de outubro, o Hamas sequestrou 251 israelenses, entre eles muitos jovens civis que participavam de uma festa de música eletrônica. O ataque também causou cerca de 1,2 mil mortes.
Miriam Zlochevsky Tunchel, brasileira que está em Hod Hasharon, região próxima de Tel Aviv, relatou à Rádio Gaúcha o clima entre israelenses diante do retorno dos reféns:
— O que eu mais senti em todo esse tempo foi esse senso de coletivo. As pessoas estavam esperando o seu irmão, o seu pai, a sua mãe, não importa se eles eram parentes de sangue.
Além da libertação dos reféns ainda vivos e devolução dos corpos daqueles que morreram, o acordo prevê a soltura de 250 prisioneiros palestinos. Vários ônibus saíram da penitenciária israelense de Ofer, na Cisjordânia ocupada, nesta segunda.
Cessar-fogo

Também nesta segunda-feira aconteceu a chamada "cúpula da paz". Representantes de 20 países se reuniram no Egito. Durante este evento, foi assinado o acordo de cessar-fogo em Gaza.
Foram signatários os países que mediaram o armistício entre Israel e o grupo Hamas:
- Estados Unidos, representados pelo presidente Donald Trump
- Egito, representado pelo presidente Abdul Fatah Al Sisi
- Catar, representado pelo emir Tamim bin Hamad Al Thani
- Turquia, representada pelo presidente Recep Tayyip Erdogan
Também estiveram na cúpula o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, a premier da Itália, Giorgia Meloni, o premier do Reino Unido, Keir Starmer, e o presidente da França, Emmanuel Macron. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, não participou. De acordo com a assessoria dele, a ausência se deu pela proximidade de um feriado judaico.
Mais cedo, Netanyahu falou ao parlamento israelense a respeito da libertação dos reféns e disse que após dois anos de guerra, devem se iniciar agora "tempos de paz":
— Dentro e fora de Israel.
Na prática, o cessar-fogo entre Israel e Hamas está em vigor desde as 6h de sexta-feira (10). Nessa data, o exército israelense anunciou a retirada das tropas da Cidade de Gaza.
— Faz dois dias que nós estamos num silêncio, que eu até comentei com meu marido, que parece que estamos em outro país. Foram dois anos muito difíceis aqui para a gente — contou na manhã desta segunda à Rádio Gaúcha a brasileira Carla Weisberg, moradora de Sderot, cidade que fica a poucos quilômetros da Faixa de Gaza.
Lula celebra acordo, mas critica Netanyahu
A jornalistas, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, celebrou o cessar-fogo:
— É um motivo de alegria saber que o povo palestino e o povo de Israel vão viver em paz agora.
Questionado sobre o eventual impacto que o fim da guerra poderia ter nas relações entre Brasil e Israel, Lula foi enfático:
— O Brasil não tem problema com Israel. O Brasil tem problema com Netanyahu. A hora que Netanyahu não for mais governo, não haverá nenhum problema entre Brasil e Israel, que sempre tiveram uma relação muito boa. Nós sabemos o papel que o povo judeu tem feito, inclusive lutando contra a atitude de Netanyahu. Nós sabemos que o povo judeu não concordava com boa parte daquela guerra.
Próximos passos
O acordo de cessar-fogo assinado nesta segunda tem outros termos e etapas, além da libertação de reféns e prisioneiros, mas ainda não está claro como algumas destas metas serão cumpridas. São elas:
- entrada imediata em Gaza de alimentos, água, fornecimento de energia, restabelecimento de hospitais e infraestrutura, bem como equipamentos para limpar escombros e reabrir estradas;
- nova governança em Gaza, com um comitê palestino tecnocrático e apolítico. Esse órgão será supervisionado pelo “Conselho da Paz”, comandado pelo presidente dos EUA, Donald Trump
- infraestrutura militar e de túneis em Gaza deverá ser destruída, sob monitoramento internacional
- recuo de tropas israelenses. A primeira fase do acordo exige que Israel recue as suas tropas para uma "linha amarela" acordada em Gaza, o que aconteceu na sexta-feira. Após esta retirada parcial, os militares ainda poderão permanecer ao longo da fronteira entre Gaza e o Egito, em uma área conhecida como corredor de Filadélfia.
O premier israelense, Benjamin Netanyahu, e o presidente dos EUA, Donald Trump, também citam como essencial para a paz a desmilitarização do Hamas. No entanto, o grupo rejeitou publicamente as exigências propostas neste sentido. Alguns mediadores acreditam, porém, que o Hamas pode estar disposto a considerar o desarmamento parcial. O acordo ora assinado prevê que integrantes do grupo que entregarem as armas poderão receber anistia.
— O Hamas está realmente aberto a discutir como não representará uma ameaça para Israel — disse o primeiro-ministro do Catar, o xeque Mohammed bin Abdulrahman al-Thani.
Reconstrução de Gaza

Trump também falou nesta segunda sobre a reconstrução da Faixa de Gaza, devastada pela guerra. Ele comentou que serão necessários muitos recursos para devolver dignidade ao povo do território.
— Eu quero agradecer às nações árabes e muçulmanas pelo compromisso que assumiram de reconstruir Gaza — disse o presidente americano.

