
A Organização das Nações Unidas (ONU) declarou oficialmente, nesta sexta-feira (22), um cenário de fome generalizada na Faixa de Gaza, o primeiro a afetar o Oriente Médio. Especialistas da instituição alertaram que pelo menos 500 mil pessoas estavam em uma situação "catastrófica" até o dia 15.
A fome em Gaza "poderia ter sido evitada" sem "a obstrução sistemática de Israel", acusou o diretor do Escritório para Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA na sigla em inglês) da ONU, Tom Fletcher, em uma entrevista coletiva em Genebra.
— Esta é uma fome que poderíamos ter evitado se nos tivessem permitido. Mas os alimentos se acumulam nas fronteiras devido à obstrução sistemática de Israel — disse.
Relatório baseado em mentiras, diz Israel
A declaração da ONU provocou a ira imediata de Israel, que classificou o relatório como parcial e "baseado em mentiras do Hamas". O Ministério das Relações Exteriores do país disse que "não há fome em Gaza".
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, reagiu classificando o anúncio como "uma mentira descarada".
"Israel não tem uma política de fome. Israel tem uma política de prevenção da fome", afirmou o dirigente, segundo seu gabinete.
Entenda a classificação
Após meses de advertências sobre a fome no território, a Classificação Integrada de Segurança Alimentar (IPC), órgão da ONU com sede em Roma, confirmou que a população da Cidade de Gaza está passando atualmente por uma fome, que também deve afetar as áreas de Deir al Balah e Khan Yunis até o final de setembro.
Segundo os especialistas da ONU, mais de meio milhão de pessoas em Gaza enfrentam condições "catastróficas", o nível mais elevado de penúria alimentar na IPC, caracterizado por fome e morte.
O número, baseado nas informações compiladas até o dia 15 de agosto, pode aumentar para 641 mil até o final de setembro. Para a IPC, isto representa o agravamento mais profundo da situação na Faixa de Gaza desde que o órgão começou a monitorar o cenário.
Segundo a IPC, um cenário de fome acontece quando três fatores são registrados:
- pelo menos 20% das residências e lares (uma em cada cinco) enfrentam uma escassez extrema de alimentos
- pelo menos 30% das crianças com menos de cinco anos (uma a cada três) sofrem de desnutrição aguda
- pelo menos duas a cada 10 mil pessoas morrem de fome todos os dias
Situação do conflito
A situação é consequência do agravamento do conflito nos últimos meses, que provocou deslocamentos em larga escala da população e restrições de acesso aos suprimentos alimentares.
No início de março, Israel proibiu completamente a entrada de ajuda humanitária em Gaza. No final de maio, o país permitiu o acesso de quantidades limitadas.
Israel, que controla todos os acessos à Gaza, acusa o Hamas de saquear a ajuda humanitária e as organizações humanitárias de não distribuir os suprimentos.
Por sua vez, o grupo islamista nega as acusações. As organizações humanitárias afirmam que Israel impõe restrições excessivas e consideram muito perigoso distribuir a ajuda em plena guerra.
Negociações para cessar-fogo
Israel, que diz querer negociar um cessar-fogo e a libertação de reféns, controla quase 75% do território palestino e intensifica a pressão militar. No início da semana, o Ministério da Defesa autorizou a convocação de quase 60 mil reservistas para uma operação de ocupação da Cidade de Gaza.
A Defesa Civil do território palestino, controlado pelo Hamas, indicou que 46 pessoas foram mortas nesta sexta em ataques e disparos israelenses, mais da metade na Cidade de Gaza.
Dadas as restrições impostas por Israel à imprensa em Gaza e às dificuldades de acesso ao local, a AFP não pode verificar de forma independente estes números ou as afirmações do Exército israelense.
Na segunda-feira (18), o Hamas aceitou um projeto de acordo que, segundo fontes palestinas, prevê uma trégua de 60 dias, período em que os reféns em cativeiro em Gaza (49 no total, incluindo 27 considerados mortos pelo Exército israelense) seriam libertados em duas etapas em troca da libertação de centenas de prisioneiros palestinos. Israel, no entanto, insiste que qualquer acordo deve incluir a libertação simultânea de todos os reféns.
Quase dois anos de guerra
A guerra foi desencadeada pelo ataque violento do Hamas em Israel no dia 7 de outubro de 2023, durante o qual terroristas mataram 1.219 pessoas, a maioria civis, segundo uma contagem da AFP baseada em dados oficiais.
Também sequestraram 251 reféns, dos quais 49 permanecem em cativeiro em Gaza, incluindo 27 mortos, segundo o Exército israelense.
Duas tréguas anteriores, em novembro de 2023 e no início de 2025, permitiram o retorno de reféns e a devolução de corpos em troca da libertação de prisioneiros palestinos.
Em Gaza, a ofensiva de retaliação israelense matou mais de 62 mil pessoas, a maioria civis, segundo dados do Ministério da Saúde do território palestino – governado pelo Hamas –, considerados confiáveis pela ONU.
