Quase duas décadas após o desaparecimento de Madeleine McCann, autoridades portuguesas e alemãs retomaram nesta terça-feira (3) as buscas no sul de Portugal. A nova operação ocorre próximo à Praia da Luz, no Algarve, onde a menina britânica, então com três anos, desapareceu em 2007 durante férias com a família.
Na época, Madeleine dormia com os irmãos gêmeos no apartamento em que a família estava hospedada, enquanto os pais jantavam em um restaurante a cerca de 100 metros. O caso teve grande repercussão internacional e gerou intensa mobilização midiática.
Uma porta-voz da polícia confirmou que as investigações foram retomadas na terça-feira, com a presença de cerca de 25 investigadores alemães, que concentraram as buscas em torno de um edifício em ruínas, em uma área coberta por vegetação.
Segundo o jornal britânico The Sun, os investigadores estão equipados com um radar capaz de escanear até 4,5 metros de profundidade, e a área de análise inclui um chalé utilizado por Brückner, localizado perto de onde Maddie desapareceu. As buscas ocorrerão até sexta-feira.
As últimas escavações ligadas ao caso ocorreram em maio de 2023, perto de um lago na região turística do Algarve, a cerca de 50 quilômetros do local do desaparecimento.

Por que a polícia reabriu a investigação?
As buscas por Madeleine McCann foram motivadas por um mandado de busca emitido pela Justiça alemã, que suspeita que a menina foi assassinada pelo alemão Christian Brückner.
A Promotoria de Brunswick lidera uma investigação preliminar contra Brückner e suspeita que ele teria matado Madeleine McCann.
"Todas as provas apreendidas pela polícia judiciária serão, com a autorização prévia do Ministério Público nacional, entregues aos agentes do Serviço Federal de Polícia Criminal Alemã", diz a polícia.
Christian Brückner está preso cumprindo pena por outro crime. Apesar da suspeita de que ele possa ser o responsável pelo desaparecimento e possível assassinato de Madeleine McCann, até o momento, não há provas concretas que confirmem sua autoria.
"Provas perturbadoras"
As investigações portuguesas do caso foram encerradas em 2008 e abertas novamente cinco anos depois, também sem sucesso. Até que, no início de maio, o jornal britânico The Sun revelou novos detalhes sobre novas evidências encontradas pela polícia alemã em uma antiga fábrica comprada por Brückner em 2008, um ano após o sumiço de Madeleine.
As evidências, descritas como "perturbadoras", foram apresentadas em um documentário que acompanha a investigação conduzida pelo The Sun. Segundo a reportagem, o material indica uma possível obsessão do suspeito por crianças. Entre os itens encontrados estavam textos sobre sequestro, imagens de abuso infantil, fotos de meninas entre quatro e cinco anos, além de brinquedos, pequenas bicicletas, armas e um disco rígido.
As autoridades britânicas seguiam monitorando o caso, mas os investigadores alemães pressionam por uma intensificação nos esforços antes que Brückner seja solto, o que pode ocorrer em setembro deste ano. Diante disso, na segunda-feira (2), a polícia portuguesa anunciou a retomada oficial das investigações.
Longo histórico judicial
Brückner, que cumpre pena de prisão por estupro, foi absolvido em outubro de 2024 na Alemanha em um julgamento por duas agressões sexuais e três estupros cometidos entre 2000 e 2017 em Portugal. Todos esses casos são diferentes do processo de Maddie, desaparecida em 2007 no mesmo país, e pelo qual Brückner, até o momento, ainda não foi formalmente acusado.
Na época dos fatos, Brückner vivia na costa portuguesa do Algarve, perto do local de férias da família McCann, e o sinal de um telefone celular registrado em seu nome foi detectado nas proximidades de seu alojamento na noite do desaparecimento.

Brückner cumpre atualmente uma pena de sete anos de prisão pelo estupro, em 2005, de uma mulher americana de 72 anos em Praia da Luz. Essa pena está prevista para terminar, teoricamente, em setembro de 2025.
Nesta terça-feira, um jornalista da emissora alemã RTL relatou ter se correspondido com Christian Brückner, a quem também visitou na prisão. O detento lamentou que "metade do mundo" o considere "um estuprador cruel", segundo o repórter.
Quem é Christian Brückner
Nascido em dezembro de 1976, na Baviera, sul da Alemanha, Brückner tem um longo histórico criminal. O suspeito foi criado em uma família adotiva onde sofreu maus-tratos e abusos. Ele se envolveu pela primeira vez em crimes sexuais contra menores ainda adolescente.
Tinha 17 anos quando um tribunal da Baviera o condenou, em 1994, a dois anos de prisão por violência contra um menor e "atos sexuais diante de uma criança". No ano seguinte, após cumprir parte da pena, mudou-se para Portugal, onde viveu por mais de 10 anos no Algarve.
Fazia bicos na região, roubava em quartos de hotel e casas de férias. No momento do sequestro de Maddie, vivia em uma autocaravana.
— Ele estava sempre um pouco irritado, dirigia rápido, e então um dia... desapareceu sem dizer nada — contou um ex-vizinho seu em Portugal à Sky News, em 2020.
Os fatos narrados pelo ex-vizinho se passaram em 2007, o ano do desaparecimento de Maddie. Brückner voltou à Alemanha, estabeleceu-se em Hannover e passou a alternar estadias entre lá e Portugal.
Linha do Tempo do caso Madeleine McCann
2007 — Desaparecimento
Madeleine McCann, de três anos, desaparece do apartamento em que estava hospedada com os pais e irmãos gêmeos na Praia da Luz, Algarve, Portugal, em 3 de maio. Kate e Gerry McCann estavam jantando com amigos próximos dali.
Pais investigados: Kate e Gerry McCann são considerados suspeitos pelas autoridades portuguesas, mas não há provas que sustentem a acusação. A imprensa internacional começa a cobrir amplamente o caso.

Outros suspeitos: ao longo dos anos, vários outros nomes foram investigados. Um dos principais alvos foi o britânico Robert Murat, que morava nas proximidades do resort. Murat processou 11 jornais britânicos pelas acusações infundadas e ganhou uma indenização de 550 mil libras — o equivalente a cerca de R$ 1,7 milhão na época e R$ 4,1 milhões em valores atuais.
2008 — Denúncia ignorada
Helge Büsching denuncia Christian Brueckner à polícia, dizendo que ele teria feito um comentário suspeito em um festival alternativo na Espanha: "Sim, ela não gritou". A denúncia é ignorada pelas autoridades na época.
2011 — Criação da Operação Grange
O então primeiro-ministro britânico David Cameron autoriza a criação de uma força-tarefa na Scotland Yard para revisar o caso. Nasce a "Operação Grange", liderada por investigadores britânicos.
2017 — Denúncia de Büsching ganha atenção
A denúncia feita por Helge Büsching em 2008 começa a ser levada a sério pelas autoridades. Ele afirma ter morado perto da Praia da Luz e conhecido Christian Brueckner pessoalmente.
2019 — Documentário
A Netflix lançou a série documental O Desaparecimento de Madeleine McCann, que mostrou detalhes do caso. Veja o trailer:
2020 — Christian Brueckner se torna principal suspeito
A polícia alemã anuncia Christian Brueckner como principal suspeito. Ele está preso na Alemanha por outro crime. Brueckner nega envolvimento no desaparecimento de Madeleine.
2023 — Desculpas formais aos pais
Policiais portugueses viajam até Londres para pedir desculpas formais a Gerry McCann, pai de Madeleine, pela maneira como ele e a esposa foram tratados no início das investigações.
Fevereiro de 2024 — "Falsa Madeleine" é desmascarada
Julia Faustyna, polonesa de 23 anos, alega nas redes sociais ser Madeleine McCann. Após exames de DNA, é comprovado que ela não tem relação com a menina desaparecida. Julia é detida por perseguição no Reino Unido.





