O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, chegou nesta quinta-feira (15) ao segundo dia do velório do ex-presidente uruguaio José "Pepe" Mujica. Milhares de uruguaios têm se alinhado pelas ruas de Montevidéu para se despedir do ex-líder, que faleceu em 13 de maio, após uma batalha de um ano contra o câncer. O presidente chileno, Gabriel Boric, também está na cerimonia.
— O que é gratificante para nós seres humanos é que uma pessoa como Pepe Mujica não morre. Se foi o corpo dele, a carne dele se vai, mas as ideias que Pepe Mujica plantou em todos esses anos, inclusive, a generosidade de um homem que passou 14 anos no cárcere e que conseguiu sair para a liberdade sem nenhum ódio das pessoas que o aprisionaram, o torturaram. Isso é uma dádiva de Deus — afirmou Lula em pronunciamento à imprensa após participar do velório.
De acordo com o g1, Lula foi ao Uruguai acompanhado da primeira-dama, Janja da Silva. Também acompanharam o presidente o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Márcio Macêdo, o senador Humberto Costa (PT-PE), os deputados federais Jandira Feghali (PCdoB-RJ) e Guilherme Boulos (PSOL-SP), e o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante.
Lula e Janja foram recebidos no velório pelo presidente uruguaio, Yamandú Orsi, e por sua vice, Carolina Cosse.
— Pepe Mujica é um ser humano superior, uma pessoa que tentou mudar o mundo com sua singularidade, sua competência política e sua capacidade de dialogar, sobretudo com a juventude — disse Lula minutos depois de um abraço longo em Lucía Topolansky, esposa de Mujica e ex-vice-presidente do Uruguai, diante do caixão do ex-guerrilheiro.
O corpo de Mujica deve ser cremado no fim desta semana, e suas cinzas serão levadas de volta à chácara onde ele vivia, na zona rural de Montevidéu — para serem enterradas sob a árvore onde também estão os restos de sua cadela Manuela.
Amizade
Lula e Mujica, além de aliados políticos e ideológicos, eram grandes amigos e frequentemente trocavam elogios e demonstrações públicas de admiração mútua.
O presidente brasileiro estava em viagem à China quando soube da morte de Pepe. Diante da notícia, cancelou compromissos e ajustou sua agenda para comparecer ao velório. Lula retornou da viagem à China e à Rússia na madrugada desta quinta-feira (15), desembarcando em Brasília pouco depois da meia-noite.
O embarque para Montevidéu estava marcado para 10h da manhã, com chegada à capital uruguaia cerca de três horas depois. Entretanto, o encerramento do velório, que estava inicialmente previsto para as 15h, foi prorrogado por mais duas horas para permitir a presença de Lula, segundo informou o jornal uruguaio El Observador.
Lula se manifestou em nota oficial sobre a morte de Mujica e destacou seu legado político e social. Em coletiva de imprensa em Pequim, ele reforçou a homenagem à memória do ex-presidente uruguaio, que chegou a ficar 12 anos preso por perseguição política durante a ditadura no país vizinho.
— O Pepe Mujica foi um presidente muito importante para a democracia, para os setores progressistas da sociedade, para a esquerda. Porque eu acho que se ele não tivesse nascido, precisaria nascer outra vez, para que a gente tivesse um exemplo de ser humano, com muita dignidade, com muito respeito, com muita solidariedade e com muita coragem — disse Lula.

O último encontro entre os dois ocorreu na chácara de Mujica, nos arredores da capital uruguaia, no fim do ano passado. Na ocasião, Lula condecorou Mujica com a Ordem do Cruzeiro do Sul, a maior honraria concedida pelo Estado brasileiro a cidadãos estrangeiros.
— Da última vez que eu vi ele, sentado comigo, ele me disse: "Lula, eu estou indo embora". E, com a maior serenidade e tranquilidade que me disse isso, era o jeito que ele governava o Uruguai — contou Lula. — Difícil encontrar duas ou três pessoas no mundo com o caráter e a dignidade dele (Mujica).
Por conta da morte de Mujica, o presidente em exercício, Geraldo Alckmin, decretou luto oficial de três dias no Brasil.
Primeiro dia
A cerimônia de despedida teve início na manhã de quarta-feira (14) quando uma multidão começou a se reunir para prestar as últimas homenagens ao ex-presidente.
O presidente uruguaio Yamandú Orsi, seu sucessor político e quem anunciou a morte na terça-feira, liderou o cortejo fúnebre ao lado de Lucía, viúva de Mujica. A caminhada partiu da sede da Presidência e, após cerca de três horas, chegou ao Palácio Legislativo.
Antes, o corpo de Mujica havia sido levado até a Praça Independência, onde fica o Palácio Estévez, sede da presidência do Uruguai, ponto de partida das homenagens públicas. A bandeira uruguaia e outra ligada a um movimento da esquerda local foram colocadas sobre o caixão diante de uma multidão comovida.
Por volta das 10h, o cortejo seguiu pelas ruas de Montevidéu, passando por locais simbólicos, como as sedes do Movimento de Libertação Nacional (MLN), do Movimento de Participação Popular (MPP) e da Frente Ampla.
O velório começou por volta das 15h e interrompido por volta da meia-noite.



