
Na véspera do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, celebrado no sábado (3), o Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa 2025, divulgado nesta sexta-feira (2) pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), atingiu o pior nível desde a criação do índice, com queda generalizada nos indicadores.
Pela primeira vez, a pontuação média dos países ficou abaixo de 55 pontos, marca que classifica o cenário como de liberdade de imprensa "difícil".
Entre mais de 180 nações avaliadas, 112 tiveram piora no desempenho. A exceção veio de países como o Brasil, que subiu 19 posições em relação ao ano anterior e figura agora no 63º — desde 2022, já avançou 47 posições.
O relatório atribui a melhora ao fim do governo de Jair Bolsonaro (2019–2022) e à percepção de um ambiente menos hostil ao jornalismo.
A RSF alerta que o principal motivo para a piora global é o agravamento das restrições econômicas enfrentadas por veículos jornalísticos.
"Embora as agressões físicas contra jornalistas sejam o aspecto mais visível dos ataques à liberdade de imprensa, pressões econômicas mais insidiosas também representam um obstáculo significativo", diz o relatório.
Condições financeiras comprometem independência editorial
Segundo a RSF, a concentração da propriedade da mídia, a influência de anunciantes, a ausência ou distribuição opaca de auxílios públicos e a crise financeira dos veículos enfraquecem a prática jornalística.
Sem recursos, muitas redações enfrentam o dilema entre preservar a independência editorial ou garantir a sobrevivência do negócio.
Entre os cinco critérios que compõem o ranking (segurança, social, legislativo, político e econômico), o fator econômico foi o que mais contribuiu para a queda global.
A diretora editorial da RSF, Anne Bocandé, afirmou que "meios de comunicação economicamente fragilizados tornam-se presas fáceis de oligarcas ou governantes" e que jornalistas sem recursos perdem capacidade de resistir a pressões políticas e à desinformação.
Brasil melhora, mas liberdade de imprensa ainda é "problemática"
Apesar do avanço, a situação da liberdade de imprensa no Brasil continua sendo considerada "problemática" pela RSF.
O diretor do escritório da ONG na América Latina, Artur Romeu, diz que o salto brasileiro está ligado à mudança na relação entre governo e imprensa com a alternância de poder em 2023. O país vem de três anos de progressão.
— Um dos fatores é uma mudança de paradigma na relação entre governo e imprensa que se deu com a alternância de poder — diz Romeu.
No entanto, fatores como ameaças à integridade física de jornalistas e dificuldades na apuração de reportagens sensíveis ainda impedem que o país avance para patamares mais altos.
Quedas expressivas na América Latina
Outros países da América Latina registraram retrocessos. A Argentina, governada por Javier Milei, caiu 21 posições desde o ano passado, e está em 87ª. O Haiti, mergulhado em colapso institucional e dominado por gangues, perdeu 18 posições em relação a 2024.
El Salvador, sob o governo autoritário de Nayib Bukele, caiu 61 lugares desde 2020. Já a Nicarágua (172º) se tornou o país latino-americano com a pior colocação, ficando atrás de Cuba (165º).
Conforme o relatório, 42 países — que concentram 56,7% da população mundial — apresentam situação "muito grave" no que diz respeito à liberdade de imprensa.
Além disso, a maior ameaça à liberdade de imprensa no Brasil e no mundo detectada pela Repórteres Sem Fronteiras é a ascensão da extrema direita.
— Principalmente porque essa distorção e apropriação do conceito de liberdade de expressão, feita pela extrema direita, tem bloqueado iniciativas importantes para garantir a liberdade de imprensa — declarou ela.





