
Retratada em filmes, livros e motivo de fascínio entre turistas, a Capela Sistina, onde começará, na próxima quarta-feira (7), o conclave que elegerá o novo papa, é símbolo de um dos principais movimentos da história da humanidade: o Renascimento, no final da Idade Média, cujos reflexos foram decisivos para a concepção do mundo moderno.
O edifício sacro guarda laços com a ascensão do antropocentrismo, a humanidade no centro das ações, o período das reformas que causaram defecções à Igreja Católica e o descobrimento e catequização nas Américas.
Construção da capela e o significado do nome
A construção da Capela Sistina, no Vaticano, aconteceu no papado de Sisto IV, entre 1477 e 1480. O nome do templo, Sistina, é uma referência ao Pontífice. Originalmente, a intenção do líder da Igreja Católica era erguer um edifício inspirado no Sancta Sanctorum, que ficava no Templo de Salomão, conforme o Antigo Testamento.
— Sancta Sanctorum era o espaço mais sagrado do Templo de Salomão. Guardava elementos como a Arca da Aliança e o Cajado de Moisés — afirma o padre Antônio Hofmeister, da Arquidiocese de Porto Alegre.
O papa Sisto IV encomendou a Capela Sistina nas mesmas medidas do Sancta Sanctorum: são cerca de 41 metros de comprimento, 13,4 metros de largura e 20,7 metros de altura. É um local sagrado de dimensão comedida se comparado a outros ambientes do Vaticano e igrejas referenciais do catolicismo mundo afora.
— No começo, a Capela Sistina era onde o papa fazia suas celebrações. Era a principal igreja do Vaticano. A Basílica de São Pedro só começaria a ser construída anos depois — comenta Luiz Carlos Susin, teólogo e professor da Escola de Humanidades da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
Embora concluída no papado de Sisto IV, a Capela Sistina ganhou as formas pelas quais é louvada como monumento da arte renascentista anos depois, no pontificado de Júlio II, entre 1503 e 1513.
Coincidentemente, Sisto IV era tio de Júlio II — ambos eram da família italiana della Rovere.
Michelangelo e a marca da Capela Sistina
Foi Júlio II quem chamou o artista Michelangelo Buonarroti para pintar o teto da Capela Sistina, onde foram registradas para a eternidade as representações da criação de Adão, do pecado original e da expulsão do paraíso. Também há afrescos nas paredes que mostram profetas e as sibilas, mulheres profetisas da mitologia grega.
— Era o que o Renascimento tentava fazer: combinar a história religiosa do Antigo e do Novo Testamento com mitos da história clássica — diz Hofmeister.
O Juízo Final
Mais tarde, entre 1536 e 1541, nos papados de Clemente VII e Paulo III, Michelangelo foi chamado e trabalhou novamente, desta vez para dar o traço final à obra: pintar o Juízo Final na parede de fundo.
— A Capela Sistina é um monumento ao Renascimento e sua arte. Ela reproduz grandes momentos bíblicos. O Juízo Final é o mais majestoso — comenta Susin, citando a passagem bíblica do fim dos tempos, quando Deus julga toda a humanidade.
Susin destaca o caráter humanista que salta dos afrescos da Capela Sistina, com corpos seminus — o que foi considerado mundano por segmentos religiosos —, saudáveis, tonificados e envoltos por cores vivas. Ele menciona a aclamada obra da criação, em que as mãos de Adão e do criador quase se tocam.
— Mostra que a mão de Deus passa autoridade e força à mão humana. A partir dali, o humano vai criar. O Renascimento é um corte que inaugura o antropocentrismo, com autonomia da ação humana. É o começo dos séculos da modernidade — analisa Susin.
Contudo, o ciclo renascentista da Capela Sistina é finalizado com o poder maior de Deus na Igreja Católica, com a representação do Juízo Final.
— O Cristo do Juízo Final tem tamanho maior do que os demais representados. Mostra um vigor que os outros não têm. Assim como o homem foi criado para ser criador, ele também vai ser julgado por Deus — comenta Susin.
A Capela Sistina e sua decoração sagrada marcam um tempo de estreita relação entre a Igreja Católica e artistas que ficaram consagrados como gênios, sobretudo Michelangelo.
— A Igreja foi promotora do Renascimento. Era uma época muito diferente e os papas vinham, geralmente, de famílias abastadas. Essas famílias e o próprio papa eram os mecenas que davam o suporte aos artistas — afirma Susin.

Tempo das reformas e dos descobrimentos
No século 16, quando a Capela Sistina ganhava seus ares fascinantes, o mundo passava por um período de contestação que causaria dissidências, crises e perda de poder na Igreja Católica. Era o tempo das reformas: o luteranismo, na Alemanha, foi o principal dos movimentos, mas também houve o calvinismo francês e o anglicanismo inglês.
Além de questões religiosas, havia disputas e tensões em torno de autonomia em territórios europeus fora do Vaticano e impostos. A Igreja Católica reagiu com a contrarreforma.
Obras como o Juízo Final, na Capela Sistina, são apontadas por estudiosos como um alerta aos considerados hereges.
— Muita gente tinha saído da Igreja Católica e ela tentava se reformar, retomar o terreno perdido na crise de Lutero. O Juízo Final recordava a todos que um dia seremos julgados por Jesus Cristo. Eu não diria que a Igreja buscava reafirmar poder, mas estava consciente de que precisava de reformas — avalia Hofmeister.
Alexandre VI, cujo nome de nascimento era Rodrigo de Borja, foi o primeiro papa eleito em conclave na Capela Sistina, em 1492. Naquele período, Portugal e Espanha mantiveram-se alinhados à Igreja Católica, o que os ajudou a partilhar o Novo Mundo. Isso marcaria a colonização e catequização, que viriam a acontecer em países como o Brasil.
— Coincidentemente, a construção da Capela Sistina e o primeiro papa eleito nela têm forte relação com o descobrimento da América — diz Hofmeister.

Susin resgata a preocupação da época em disputar a novidade que se descortinava aos olhos dos europeus.
— Descobriram um monte de gente, os indígenas, do outro lado do Oceano Atlântico. Isso preocupava porque tinha de chegar antes dos outros e mandar padres para catequizar. Houve um pacto entre Roma, espanhóis e portugueses. Roma concedia poderes aos reis, mas eles tinham de promover a Igreja na América — comenta o professor.
A capela atualmente
O padre Antônio Hofmeister destaca que, atualmente, os papas continuam fazendo pontuais celebrações religiosas na Capela Sistina, mas a sua utilização mais conhecida é o conclave e o turismo: o local se tornou ponto de visita tradicional para fiéis ou viajantes interessados em arte e história
— Pelo patrimônio artístico, faz parte do roteiro de visita dos museus do Vaticano. Se tornou o ponto alto — diz.
O conclave que começa na próxima quarta-feira (7), na Capela Sistina, não tem momento definido para acabar e ungir o sucessor do icônico Francisco. Isso dependerá da formação de maioria pelos cardeais eleitores. O certo é que, escolhido o novo papa, ele se deslocará até a Sala das Lágrimas, ambiente contíguo à Capela Sistina, atrás da parede da pintura do Juízo Final, onde trocará as vestes vermelhas de cardeal pelas brancas de pontífice. A liturgia diz que a Sala das Lágrimas é o aposento em que o escolhido sente a dádiva e a responsabilidade de ser o sucessor de São Pedro.

