Se a chegada de um boneco com luzes piscantes ao quarto de Andy, em 1995, gerou ciúmes e medo nos brinquedos antigos diante da possibilidade de serem substituídos, a realidade piorou consideravelmente em 2026.
Agora, não importa se tem luzinha, asas que abrem e fecham, frases heroicas ou muitas articulações. As telas chegaram e empurraram os brinquedos para dentro das caixas.
Pelo menos é isso o que a trama de Toy Story 5 (2026), que estreou na quinta-feira (18), aborda. Quando Bonnie ganha um tablet chamado Lilypad, Woody, Buzz, Jessie e toda a turma são deixados de lado. Os brinquedos partem, então, em busca de se reconectar com a criança — e mais do que isso: puxar a pequena de volta para o universo lúdico, criando relações reais.

Só que a tarefa não é fácil. Afinal, as telas podem estimular mecanismos cerebrais de recompensa associados à liberação de dopamina, impulsionados pela gratificação imediata oferecida pela rolagem infinita. O problema é que, juntamente com um consumo sem limites, podem surgir prejuízos na linguagem, na criatividade, na atenção, no sono, na saúde física e no desenvolvimento socioemocional.

Um levantamento realizado no ano passado pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, em parceria com o Datafolha, mostrou que crianças de zero a dois anos ficam em média duas horas por dia usando telas — só que a recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) é que, nesta faixa etária, sequer haja esse contato.
Já entre dois e cinco anos, o limite recomendado é de até uma hora por dia. Dos seis aos 10, entre uma e duas horas. A pesquisa ainda mostrou que 78% das crianças de zero a três anos estão expostas diariamente às telas. Esse número é ainda maior entre as de quatro a seis anos, chegando a 94%.
— A gente percebe que as crianças estão brincando menos. É muito mais fácil para um pai ou uma mãe entregar uma tela para acalmar o filho. Só que isso é uma perda de tempo de qualidade. É preciso, antes de tudo, trabalhar com os pais, para que estes busquem a interação com as crianças. Tirar 20 minutos de brincadeiras durante a noite ajuda a relaxar, melhorar a qualidade do sono — explica a psicóloga especialista em infância e adolescência Monica Vagliati.

O lúdico
Uma exposição em excesso às telas pode ocasionar problemas de saúde mental. E especialistas avaliam que deixar de lado atividades como interagir com brinquedos e com outras crianças pode criar uma grande dificuldade para lidar com as frustrações.
Na frente da tela, sem um controle parental, caso um conteúdo não seja do agrado, é só pular para o próximo. Isso treina o algoritmo e o confronto é excluído da vida do pequeno. Em uma brincadeira saudável entre pessoas, é preciso ceder em algumas narrativas, entender o próximo e se adaptar.
— As telas não precisam ser demonizadas. Elas só não podem substituir a brincadeira ao ar livre, com brinquedos. É quando isso ocorre que surge a maioria dos problemas. O jogo imaginativo é um dos meios mais poderosos de reduzir o estresse tóxico, fortalecer vínculo de pais e filhos e a ajudar a proteger a criança contra a ansiedade e a depressão — destaca Thiago Pianca, psiquiatra da infância e adolescência.
O especialista, por sinal, reforça que nem é necessário ter bonecos como Woody ou Jessie para que a criança possa exercitar o universo imaginativo. Caixinhas, pedrinhas, potinhos, enfim, qualquer coisa serve para o faz de conta. Além disso, o psiquiatra detalha que, por meio destas atividades mais simbólicas, os pequenos conseguem processar melhor os sentimentos.
— É uma espécie de laboratório seguro para as crianças testarem papéis diferentes, podendo romper alguns limites, experimentar até estratégias de enfrentamento em relação a emoções que estão difíceis de lidar. Tudo isso acontece no brincar. Suprimir esse brincar, então, é muito complicado e prejudicial — complementa Pianca.
Além da contribuição para a saúde mental, as atividades como correr, esconde-esconde, pega-pega, entre outras ao ar livre, são importantíssimas para a infância, pois diminuem, por exemplo, o risco de obesidade.
Não é proibido
Isso não significa que toda interação com telas seja prejudicial. Elas precisam apenas ser utilizadas com supervisão dos pais e dentro de um tempo limitado, conforme a idade — evitando, principalmente, que seja antes de dormir. Celulares e tablets, assim como se revela ao longo de Toy Story 5, não são vilões se usados corretamente.
Se bem utilizados, os dispositivos oferecem conteúdos que podem ser divertidos, mas explorando o lúdico e entregando aprendizado. Existem, por exemplo, aplicativos desenvolvidos especificamente para o público infantil, que auxiliam no processo pedagógico, de raciocínio e, até mesmo, para aproximação com outros idiomas.
Conteúdos audiovisuais, como filmes de animação — a própria franquia Toy Story —, podem ser instrumentos interessantes para que os pequenos conquistem um repertório maior e, até mesmo, compreendam melhor as suas emoções.
Ou seja, a televisão é uma opção relevante, dentro de um limite diário, é claro. Inclusive, a psicóloga Monica Vagliati, em seu consultório, utiliza os personagens da animação da Disney/Pixar para interagir com seus pacientes. E incentiva que as crianças conheçam as histórias.
— Dou o exemplo do dinossauro Rex, que é pura ansiedade e medo. A criança entende muito melhor essas emoções por essa identificação com ele. Então, é importante a gente incentivar as crianças a assistirem a esses filmes, porque têm histórias lindas. Inclusive, com a mensagem de que as crianças não precisam se desfazer do que é do passado. Na verdade, pode ser até mesmo um link com os pais — avalia a psicóloga.
GZH Kids: lazer em família + descontos exclusivos para crianças
GZH Kids traz descontos para aproveitar o melhor de parques, passeios e restaurantes com as crianças, economizando e construindo memórias. Ao mesmo tempo, oferece acesso a aplicativos educativos com controle parental, que buscam transformar o momento de acesso às telas em um processo seguro, divertido, lúdico e de aprendizado.





