
Pelo menos 66 pessoas foram presas em Porto Alegre no ano passado por aplicarem o golpe do seguro, conforme dados da Delegacia de Roubo de Veículos da Polícia Civil (DRV). Após pesquisar documentos judiciais e da segurança pública, a reportagem reconstituiu casos e conversou com envolvidos. Alguns cometeram o crime porque foram convencidos por mecânicos a entregar o veículo para desmanche, ganhando duplamente: com a venda do automóvel e com o seguro pago pelo roubo que não existiu. Outros aderiram ao delito para, com o dinheiro do seguro, trocar por um carro mais novo. Ou ainda por estarem endividados.
Foi o caso do comerciante H., 45 anos, preso em 15 de agosto após cair em contradição sobre o desaparecimento de seu veículo. Em depoimento à Polícia Civil, H. disse que sua GM Captiva foi roubada em 26 de junho na Zona Norte por dois homens armados que o abordaram num cruzamento. No entanto, câmeras analisadas do local não mostraram nem o veículo, nem o roubo. Os policiais descobriram que, na época em que o suposto crime foi comunicado, a caminhonete não rodava há mais de 15 dias. Confrontado com a inconsistência de seu relato, H. admitiu que o crime foi simulado, como contou à reportagem:
— Eu estava desempregado, endividado, e havia acabado de me separar. O veículo tinha problemas mecânicos graves, o conserto custaria mais de R$ 20 mil. Aí um amigo mecânico sugeriu o golpe do seguro e aceitou ocultar a Captiva, para simular o roubo e enganar a seguradora. Eu recebi os R$ 35 mil previstos na apólice de seguro, dei uma quantia para o mecânico e registrei o assalto. Foi uma inconsequência — relembra.
H. foi preso em flagrante por falso testemunho e estelionato. O comerciante foi enviado ao Núcleo de Gestão Estratégica do Sistema Prisional (Nugesp), uma cadeia provisória situada na zona leste de Porto Alegre. Ficou três dias numa cela com oito homens. Solto, aguarda o processo judicial.
Eu acho que não vale a pena. Aprendi a lição, na verdade. A gente comete uma falha e acaba tendo de reconstruir a vida. Continuo atrás de emprego, só que ficou mais difícil. Hoje eu tenho essa dívida no meu nome, né? Eu tenho essa marca horrorosa que me aconteceu. Acho que foi até inocente da minha parte, sabe? Mas eu não julgo ninguém, eu vou te falar que partiu de mim, né? Porque não foi ninguém que me obrigou a fazer isso.
H.
Comerciante
Outro relato é o da professora E., 43 anos, que trabalha numa escola da zona norte da Capital. Ela detalhou como foi desmascarada e presa em outubro pela Polícia Civil, após alegar roubo do seu Citroen C4 em 19 de setembro numa vila. O crime teria sido cometido dois motociclistas. Conforme relatou a GZH, ela estava com desejo de trocar de carro e sondou G, marido de uma colega de serviço e motorista de aplicativo, para realizar o golpe e sumir com o veículo. Pagou R$ 1 mil pelo serviço. O homem teria contratado dois rapazes do seu bairro para desaparecerem com o Citroen.
Como não houve testemunhos que corroborassem o depoimentos, nem imagens comprovando o roubo, E. teve uma crise nervosa e acabou admitindo que inventou a história. G. foi preso em flagrante enquanto esperava E. prestar o depoimento. A professora e o motorista passaram três dias encarcerados no Nugesp. Como cometeram crime não violento, acabaram soltos e agora responderão na Justiça.
Entrei em uma fria, sei lá, não estava batendo bem da cabeça. Eu conversei com as gurias que trabalham no colégio e uma delas falou que o marido dela poderia se desfazer do carro. Primeiro tu pensas não, não vai dar certo, tenho medo...depois acha que vai dar tudo certo, né...Pensa só no dinheiro, pensa que vai comprar um carro novo. Aí deu tudo errado.
E. 43 ANOS
Professora

— Eu não sou uma pessoa da máfia, não sou traficante, não sou nada disso. Sempre trabalhei, estudei, faço até curso universitário à noite, trabalho o dia inteiro.
E. afirma que faz terapia uma vez por semana e tenta entender porque teve a ideia de aderir ao golpe do seguro.
Meu psicólogo falou: "Por que que tu não conversaste comigo? Por que não falou?"...talvez por eu ser sozinha, por não ter ninguém, não ter muitas amizades, sou muito fechada, assim, muito na minha, sei lá, acabei me iludindo e entrei numa fria. Agora, pelo resto da minha vida vou ter que responder por isso.
Outros casos
A reportagem tentou contato com outros investigados, mas não obteve retorno. Todos respondem em liberdade ao inquérito. Confira, abaixo, como ocorreu a descoberta da fraude.
Contradições a respeito do Lifan
A estudante S., 30 anos, foi presa em 12 de agosto. No depoimento, disse que saiu às 22h de uma rua no bairro Partenon para pegar seu Lifan após ter saído de um ginásio onde disse que treinava vôlei. Ela alegou que foi abordada por um homem de moletom, que a obrigou a entregar a chave do carro. Policiais rapidamente apontaram inconsistências na declaração. O professor de Educação Física a desmentiu sobre ela ter ido treinar. Além disso, imagens de câmeras de vigilância não registraram qualquer roubo nas imediações do ginásio esportivo.
O que aponta a polícia
O veículo tinha sido guinchado por pane mecânica em 24 de julho e levado a uma oficina, por problema na caixa de câmbio. S. alegou ao mecânico que não tinha condições de pagar o conserto e guinchou o veículo mais uma vez, sendo que ele continuava estragado. Confrontada com as contradições, admitiu ter inventado o assalto, para solicitar o seguro.
Dívidas com BMW e golpe com namorado
A dentista R., 33 anos, alegou que teve seu BMW furtado em 14 de maio no bairro Rio Branco. Quebras de sigilo telefônico mostraram que ela combinou o golpe com o namorado. A mulher veio de Pelotas, no sul do Estado, para revender o automóvel em Porto Alegre. Chegando à Capital, colocou em prática o golpe. Ela alegou que havia muitos gastos de manutenção com o veículo (R$ 20 mil em consertos só em 2025) e uma dívida no financiamento. O valor do seguro seria utilizado para cobrir os gastos. Seu companheiro é quem teria arquitetado o crime. O casal gastou R$ 7,2 mil na apólice e conseguiria um carro novo, avaliado em R$ 97 mil pela tabela Fipe.
O que aponta a polícia
O nervosismo de R. ao prestar queixa do suposto roubo fez com que os policiais desconfiassem. Ela caiu no choro, informou endereços diferentes de onde teria ocorrido o furto. Policiais rastrearam a trajetória do veículo e comprovaram que ele não tinha passado pelo local do furto. Permaneceu quatro dias no Nugesp.
Dodge Journey vendido por R$ 3 mil
O comerciante Q., 57 anos, contou para a Polícia Civil ter sofrido um assalto em 14 de outubro no bairro Sarandi. Dois homens encapuzados, armados, a bordo de um carro popular, teriam levado seu Dodge Journey. A desconfiança dos agentes surgiu em razão da existência de registros policiais anteriores da vítima, que já alegara ter sofrido outros roubos e também possuía o nome na Serviços de Assessoria S.A (Serasa), ou seja, sem acesso a crédito por causa de dívidas. Além disso, o veículo não foi flagrado por nenhuma câmera de vigilância no Rio Grande do Sul em 2025, indicando que não teria circulado em todo o ano passado.
O que aponta a polícia
Pressionado, Q. admitiu que não houve o roubo. Ele confessou ter vendido seu veículo em 2024, após a enchente, para um desmanche de automóveis. O carro tinha sido atingido pela água, completamente inundado e não possuía condições de rodar, argumentou. Vendeu por R$ 3 mil, para que a firma reaproveitasse as peças. A oficina trabalhava com outros carros danificados pela cheia. Q. ficou preso três dias. Para efeito de comparação, o modelo 2018 custa R$ 87 mil, conforme a tabela Fipe de janeiro.
"Não aguentava mais o carro"
A advogada J., 34 anos, foi presa em 26 de dezembro. Ela declarou que teve roubado o seu Renault Sandero no dia 17 daquele mês, às 22h. Teria sido abordada por dois homens numa moto preta. O rastreador colocado no veículo pela seguradora parou de funcionar no mesmo endereço e horário do roubo, o que despertou a atenção da polícia (como se o aparelho tivesse sido descartado pelo proprietário). Além disso, J. não mencionou em depoimento a existência do rastreador. Outro detalhe: um dia antes do suposto roubo, imagens do carro foram localizadas em Cachoeirinha, sendo que a proprietária disse que não esteve lá.
O que aponta a polícia
Encurralada, a advogada admitiu ter mentido porque "não aguentava mais o carro", que tinha gastado muito com a retífica do motor. Após tentar vender o Sandero via internet e não conseguir, ela disse que deu o automóvel para uma pessoa e requisitou o seguro. Passou três dias presa no Nugesp.
*Os nomes dos envolvidos não serão expostos nesta reportagem para não prejudicar as investigações.

