
Um levantamento feito pelo Grupo de Investigação da RBS (GDI) revela que os casos de furto de gado aumentaram em 124 municípios do Rio Grande do Sul e estão concentrados no oeste, centro e leste do Estado, conforme dados detalhados em um mapa elaborado pela RBS TV. Ou seja, em uma a cada quatro cidades gaúchas, o abigeato segue avançando. Apesar disso, os dados totais indicam queda desse tipo de crime no semestre.
O GDI realizou um cruzamento de dados entre as ocorrências no Estado comparando os primeiros seis meses de 2024 e 2025. Na média geral, os casos diminuíram de 1.657 para 1.443. Em relação ao número de prisões houve aumento: de 15 para 32.
Em Glorinha, na Região Metropolitana, o produtor Barcellos de Oliveira instalou câmeras com visão noturna e contratou caseiro para vigiar a propriedade de 40 hectares. Nada disso impediu a ação dos criminosos.
— De noite vieram ali, pegaram a novilha, levaram a mansa, a corda e bateram no campo vizinho — contou.
No primeiro semestre do ano passado o município registrou dois casos. Este ano, no mesmo período, foram 10.
Sul do Estado
Em Pelotas foram 23 ocorrências no primeiro semestre deste ano, 20% a mais que no mesmo período do ano passado. O produtor Antônio Oppitz contabiliza um prejuízo de até 40 cabeças:
— Além das perdas diretas, tem o impacto indireto. Hoje recolho todo o gado da estância à noite para evitar ataques.
Segundo ele, quadrilhas chegam a recrutar ou ameaçar funcionários das propriedades.
— Tem cerca cortada, roubo de material e trabalhadores que desistem de permanecer na fazenda por medo — relata.
Em Rio Grande, um boi foi encontrado baleado na cabeça e um terneiro recém-nascido apareceu morto na propriedade, na última semana.

Região Central
Em Santa Maria, as vítimas aguardam o avanço das apurações. Lá, os casos subiram de 33 para 37 no semestre. Uma idosa que teve duas vacas de leite levadas — animais usados para produção de queijo — desabafou:
— A gente no Interior tem pouca segurança. Até hoje não descobriram quem foi.
2024 x 2025
Em Arroio dos Ratos os casos saltaram de dois para 11; Capão do Leão, de oito para 22; Cachoeira do Sul, de sete para 17 e Butiá, de nove para 17. Em Santa Vitória do Palmar, foram 26 ataques — dois a mais que no mesmo período do ano passado.
"Churrasco"

O diretor da Divisão de Repressão aos Crimes Rurais e de Abigeato (Dicrab) da Polícia Civil, delegado Heleno dos Santos, diz que acompanha os casos e que vai atuar nas regiões indicadas pelo levantamento do GDI.
— Estamos nos antecipando ao crime para não esperar que a situação vire um caos e cause ainda mais prejuízos ao produtor — disse.
Investigações apontam ainda que parte do esquema envolve produtores legalizados, que compram e “esquentam” o gado furtado.
— Esses dados de movimentação de gado são falsificados no sistema. Um animal furtado no Sul aparece registrado no Norte e pode ser vendido como se fosse legal — explica o delegado.
O uso de tecnologia e cruzamento de informações se tornaram a principal arma da polícia. Escutas telefônicas autorizadas pela Justiça revelaram o uso de códigos pelos criminosos. Em uma das conversas, um suspeito utiliza a palavra “churrasco” para se referir ao abate de um animal, e negocia as peças a serem transportadas.
— Ô meu, atrasou o churrasco aqui. Não sei o que tu vai querer fazer, vai querer que eu leve um pouquinho mais tarde? Daqui uma hora ai ficar pronto ainda (sic)
— Bah, agora né?
— Eu tenho que dividir para não fazer M...
— Faz o seguinte, traz dois dianteiro...
— Dianteiro e traseiro?
— Um dianteiro e um traseiro.

A mesma investigação apura se o grupo está ligado à apreensão de 44 cabeças de gado em São Gabriel e a outras 67 encontradas em Júlio de Castilhos, nas últimas duas semanas.

