De cara limpa, à luz do dia e sem se importar com as testemunhas, o ladrão senta sobre os cabos de luz no bairro Cidade Baixa e começa a cortá-los com uma faca de cozinha, suspenso a quatro metros de altura. Sem qualquer proteção e sem ligar para o risco de morrer por descarga energética ou na queda. Interpelado por moradores, dá um sorriso e continua. A cena foi filmada em junho por um comerciante e ilustra o novo surto de furto de fios vivenciado em Porto Alegre.
Conforme a Secretaria de Segurança Pública do RS, Porto Alegre teve 1.412 casos de furtos de fios e cabos no primeiro semestre deste ano. O número já supera em 3% o total registrado em todo o ano de 2024, quando a Capital registrou 1.369 casos. Se comparados os mesmos períodos, o salto é de 110%, ou seja, o número atual é mais do que o dobro dos 673 registros de janeiro a junho do ano passado.
Em reportagem publicada em abril de 2023, o Grupo de Investigação (GDI) do Grupo RBS já mostrava a escalada desse tipo de crime, que, nesta terça-feira (29), ganhou penas mais duras com a sanção do presidente Lula à lei que aumenta as punições aplicadas ao furto, roubo e receptação de fios, cabos ou equipamentos utilizados para fornecimento ou transmissão de energia elétrica ou de telefonia e dados (leia mais abaixo).
Uma das maiores vítimas é a Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), que contabilizou 70 sinaleiras desligadas por ação dos criminosos no último semestre, contra 43 registros em todo ano passado.
É um problema recorrente também em outras áreas. Nos refletores de iluminação pública, esse delito ruma para igualar anos anteriores. A Secretaria Municipal de Serviços Urbanos de Porto Alegre (Smsurb) registrou 1.577 metros de fios furtados no primeiro semestre deste ano, contra 3,4 mil no ano passado.
O resultado é democrático: todos perdem com sinaleiras apagadas, caos no trânsito e ruas às escuras. E não só Porto Alegre, mas toda a Região Metropolitana é vitimada. Flagrantes de furto de fios em Sapucaia do Sul mostram os ladrões usando ganchos para puxar os cabos entre postes e se pendurar neles, até que arrebentem. Também cortam com facas de serrinha, sem se importar com o risco ou presença de testemunhas.
O prejuízo não é só para os motoristas e pedestres, mas também para moradores de prédios e comerciantes. Emilene Lopes, que reside na Rua Garibaldi, no Bom Fim, teve os fios de luz do seu edifício visados por ladrões três vezes em uma semana. Consequência: ficou virtualmente impossibilitada de trabalhar.
Foi num sábado. Chamamos a operadora de eletricidade e disseram que o conserto dos fios era interno, do prédio. Pagamos para emendar. Na madrugada de quarta-feira, furtaram de novo. A gente escutou e viu pela janela. Até gritamos para saírem, eles fugiram, mas já tinham cortado. Dois dias depois, acordamos sem o relógio de água. Três incidentes em uma semana.
EMILENE LOPES
Moradora da Rua Garibaldi
No bairro Santana, um grupo de moradores postou diversas reclamações por furto de fios de ar-condicionado. No bairro Mont'Serratt, a reportagem conversou com a cabeleireira Dinny Estevez. Ela fechou o estabelecimento e foi trabalhar em outra região, por ter ficado praticamente sem luz e sem poder atender entre dezembro e janeiro passados.
Roubaram os fios da rua e ficamos mais de 30 dias em meia fase ou sem nada de luz. Tive um prejuízo de mais de R$ 15 mil, o que acarretou a perda da minha sala. Foram trocados os disjuntores da rua e também tivemos de pagar um eletricista particular. Temos 28 protocolos abertos com a CEEE.
DINNY ESTEVEZ
Cabelereira do bairro bairro Mont'Serratt
À luz do dia
A retirada das capas que protegem os fios é feita às claras. Em apenas uma tarde peregrinando pela Rua Voluntários da Pátria, na região central da cidade, o Grupo de Investigação da RBS (GDI) gravou, em duas ocasiões distintas, dois moradores de rua queimando o revestimento de cabos elétricos. Fazem fogueiras com o lixo derramado sobre a calçada e colocam os fios dentro. Com olhar ausente, sequer se importam de serem filmados.
Seguimos a dupla até uma calçada próxima à Estação Rodoviária, utilizada como dormitório ao ar livre por dependentes de crack, droga que muitas vezes serve de pagamento para os ladrões que se aventuram em escalar postes.
A troca de fios furtados por drogas foi alvo de uma operação da Polícia Civil realizada em julho na área em que o GDI flagrou a queima de cabos, na Rua Voluntários da Pátria. Foram bloqueados alguns quarteirões próximos à antiga Vila dos Papeleiros e localizados depósitos de fios furtados, além de presos 12 suspeitos de furtos e receptação.
A delegada Milena Simioli, que responde pela Delegacia de Repressão a Crimes Patrimoniais da Polícia Civil, diz que a alta demanda por fios é reflexo de crise no fornecimento de cobre por parte de alguns países, como o Chile. A taxação dos EUA sobre importações da China também superaqueceu o mercado de metais. E os criminosos enxergam nisso uma grande oportunidade.
— Aí o sucateiro adquire o produto ilícito. A delegacia que reprime furtos de cabos intensificou as ações. Só no último semestre, foram 52 presos, 14 toneladas de fios recuperados e fiscalização em 81 locais suspeitos, com apoio do município de Porto Alegre. Isso ajuda a prevenir esse tipo de crime — explica.
Preço internacional do cobre retroalimenta o crime
Os ladrões, na maioria, agem motivados pela necessidade de conseguir capital para o sustento do vício em drogas. E qual a motivação dos receptadores? Alexandre Aragon, secretário de Segurança Pública de Porto Alegre, diz que o fenômeno do furto de fios é nacional (ocorre nas principais localidades do país) e tem um mercado internacional à espera do metal extraído. Ele ressalta que, após o início da guerra na Ucrânia, o preço do quilo de cobre saltou de R$ 17 para R$ 50.
Há toda uma organização criminosa que se estabelece ao redor desse comércio, em todas as grandes cidades do Brasil. De Rondônia ao Rio de Janeiro, passando por São Paulo e Florianópolis, como confirmamos com colegas desses Estados. É imperativo agir contra esse tipo de crime, porque o indivíduo que corta 10 metros de fio deixa sem luz 230 mil pessoas e nove hospitais, como aconteceu em Porto Alegre num fim de semana neste ano.
ALEXANDRE ARAGON
Secretário de Segurança Pública de Porto Alegre
Dois outros fatores, além da guerra, fazem subir o preço do cobre. Um deles é que esse metal é muito utilizado em carros elétricos e painéis solares. O outro é que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou tarifaço de 50% também para esse tipo de mineral, o que mexe com o mercado.
Ações ajudam a frear ações criminosas
Nem todas as empresas registraram aumento nesse tipo de crime. No caso da Trensurb, o prejuízo financeiro em 2024 chegou a R$ 3,59 milhões por conta dos furtos de fios da linha do trem, o maior dos últimos quatro anos. Sem contar atrasos em viagens e interrupções na prestação de serviço. No primeiro semestre deste ano, contudo, a redução foi de 91%, passando de 232 ocorrências para 21. Segundo a Trensurb, a queda nos casos está relacionada a reforços na segurança metroviária.
A CEEE Equatorial informa que tem investido em novas tecnologias e parcerias estratégicas para enfrentar o furto de cabos energéticos. Entre as iniciativas, destaca a implantação de nanotecnologia, que permite a identificação dos cabos da distribuidora, dificulta a comercialização ilegal e auxilia na recuperação do material furtado.
Há também uma colaboração com a Secretaria de Segurança Pública (SSP), que desencadeou uma ação permanente, a Operação Fios e Cabos. Tem resultado na redução significativa das ocorrências nos últimos anos.
O executivo de segurança empresarial do Grupo Equatorial, Jonathan Costa, reforça que a troca de informações entre a empresa e as forças de segurança tem sido eficaz. A CEEE contabiliza seis toneladas de cabos furtados e recuperados neste primeiro semestre. No ano passado inteiro, foram oito toneladas recuperadas. O material que é devolvido à CEEE Equatorial é encaminhado a uma empresa parceira, onde passa por triagem e é encaminhado para reciclagem ou descartado de forma correta.
Fim dos ferros-velhos e penas mais altas
O prefeito Sebastião Melo apoia projeto de lei do vereador Ramiro Rosário (Novo) que visa proibir os ferros-velhos na cidade. Existem pelo menos 37 mapeados e um número desconhecido de estabelecimentos clandestinos.
A proposta impede a instalação e o funcionamento de ferros-velhos e depósitos de sucatas metálicas em todo o território da Capital. Para aqueles que já estão operando, o prazo para encerrar as atividades seria de seis meses. A exceção são as cooperativas ou associações de catadores e recicladores. Essas organizações teriam autorização para armazenar as sucatas, desde que estejam cadastradas regularmente junto à prefeitura.
— Tem uma cadeia do crime que precisa ser quebrada. Geralmente, quem compra o fio sabe que é uma coisa furtada. Estamos com operação permanente, prefeitura e Secretaria da Segurança Pública estadual — comenta Melo.
Agora, surgiu essa iniciativa do Legislativo e vou sancionar imediatamente a proibição do ferro-velho, assim que for aprovado o projeto. Casas de bombas têm tido cabos furtados e ficado inoperantes. Esse tipo de atitude tem de ser banida da cidade.
SEBASTIÃO MELO
Prefeito de Porto Alegre
Quanto ao futuro, Melo diz que há uma normativa para que empreendimento novo na cidade faça fios subterrâneos. Mas 99% da cidade é antiga, admite. Uma ideia seria uma parceria público-privada (PPP) para enterrar os cabos.
Já a delegada Milena Simioli não concorda em fechar todos ferros-velhos, o que, segundo ela, seria uma injustiça com quem trabalha honestamente. Ela acredita ser possível fiscalizar, sem fechar.
A Conexis, entidade que representa as empresas de telefonia, destaca que furto, roubo, vandalismo e também a receptação de cabos e equipamentos deixam a população sem acesso a serviços de utilidade pública como polícia, bombeiros e emergências médicas.
Aprovação com veto
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a lei que aumenta as penas aplicadas ao furto, roubo e receptação de fios, cabos ou equipamentos utilizados para fornecimento ou transmissão de energia elétrica ou de telefonia e dados. O texto foi publicado no Diário Oficial da União (DOU) desta terça-feira (29).
Lula vetou o trecho que estabelecia que obrigações regulatórias das empresas de energia e telecomunicações afetadas por roubo ou furto de equipamentos deveriam ser suspensas por tempo definido pelas respectivas agências reguladoras.
Como ficaram as penas
- Furto: reclusão de dois a oito anos e multa
- Roubo: reclusão de seis a 12 anos e multa
- Receptação: dois a oito anos e multa
- Receptação qualificada: seis a 16 anos
Produção: Fernanda Axelrud



