
Para aqueles que se encontram no cais do porto ou pelas calçadas. Carregados de saudade. Viram copos, viram mundos. Enquanto sopra o vento desgarrado, eles sabem: o que foi nunca mais será.
Composição de Mário Barbará (1954-2018) com letra de Sergio Napp (1939-2015), Desgarrados foi apresentada pela primeira vez na 11ª Califórnia da Canção Nativa, em 1981, em Uruguaiana, interpretada por Barbará acompanhado do Grupo Nascentes. A música foi consagrada como a grande vencedora, recebendo a Calhandra de Ouro.
Desgarrados é a 9ª colocada na votação A Música do Rio Grande, em que 74 especialistas consultados por Zero Hora escolheram as canções que mais representam os gaúchos.
A série de reportagens multimídia está sendo publicada diariamente, até o dia 20 de setembro, com o objetivo de ajudar a preservar a memória dessas obras e de seus compositores, valorizando seus legados.
Veja nesta reportagem:
Como a canção foi composta
Sergio Napp nasceu em Giruá, no Noroeste do Estado, mas morava em Porto Alegre desde os 10 anos. Nunca teve a vivência campeira, mas sonhava em participar da Califórnia. Então, pensou no tema do êxodo rural quando escreveu Desgarrados.
Um dia, Napp foi a um show do Musical Saracura com participação de Barbará — natural de São Borja, na Fronteira Oeste. Gostou da voz que ouviu e foi procurá-lo. Entregou ao músico três letras. Entre elas, Desgarrados.
Assista a vídeo sobre "Desgarrados":
Porém, a música quase não participou da Califórnia. Naquele período, Barbará queria se desvincular do cenário nativista. Só que, como relatou Napp em entrevista a Zero Hora em 2013, o parceiro mudou de ideia uma semana antes do fim das inscrições. Perguntou ao autor da letra qual canção deveriam inscrever. A resposta entrou para a história.
Barbará contou a Zero Hora, em 2011, que a canção foi finalizada sem muita demora. Segundo o músico, ele viu a melodia na própria poesia de Napp.
Homenagem aos que migram para a Capital
A composição se consolidou como marco da música regionalista ao trazer a realidade do gaúcho que migrou para a área urbana do Estado, diferentemente dos temas ligados ao campo, que eram comumente abordados nas canções de então.
O cantor e compositor Pirisca Grecco chama atenção para uma particularidade de Desgarrados: não há rima na letra. Para ele, a música foi um ponto de virada da Califórnia.
— É uma mazurca (dança tradicional de origem polonesa), um valseado, com cara de Porto Alegre — explica. — Marinho (Barbará) também tinha essa identidade de ser um pouco fora do padrão. Havia um movimento bem campeiro e tradicionalista naquele período. Ele e Napp chegam retratando a realidade das avenidas da Capital.
Conforme o dicionário Michaelis, "desgarrado" significa aquele que "se distanciou do rebanho" ou "desviado do rumo". A música, portanto, atinge de um jeito diferente quem já deixou a querência há um bom tempo, principalmente para tentar a vida em um grande centro urbano.
— Hoje eu sou um desgarrado. Vim de Uruguaiana e estou aqui pela Capital — reflete Pirisca. — A gente se sente desgarrado do seio da nossa querência. Nós, músicos, temos muitos altos e baixos, sem uma constância. Essa música nos diz muito: que nós somos esses desgarrados vindos do Interior para tentar ganhar a vida na Capital. Ela bate muito forte.
Pirisca Grecco interpreta "Desgarrados":
Letra de "Desgarrados"
(Mário Barbará/Sergio Napp)
Eles se encontram no cais do porto pelas calçadas
Fazem biscates pelos mercados, pelas esquinas
Carregam lixo, vendem revistas, juntam baganas
E são pingentes das avenidas da capital
Eles se escondem pelos botecos entre cortiços
E pra esquecerem contam bravatas, velhas histórias
E então são tragos, muitos estragos, por toda a noite
Olhos abertos, o longe é perto, o que vale é o sonho
Sopram ventos desgarrados
Carregados de saudade
Viram copos, viram mundos
Mas o que foi nunca mais será
Mas o que foi nunca mais será
Mas o que foi nunca mais será
Cevavam mate, sorriso franco, palheiro aceso
Viraram brasas, contavam causos, polindo esporas
Geada fria, café bem quente, muito alvoroço
Arreios firmes e nos pescoços lenços vermelhos
Jogo do osso, cana de espera e o pão de forno
O milho assado, a carne gorda, a cancha reta
Faziam planos e nem sabiam que eram felizes
Olhos abertos, o longe é perto, o que vale é o sonho
Sopram ventos desgarrados
Carregados de saudade
Viram copos viram mundos
Mas o que foi nunca mais será
Mas o que foi nunca mais será
Mas o que foi nunca mais será
