
Os sonhos de um guri apegado à tradição: ele quer, entre outras coisas, mala de garupa, bombacha, bota Feitio do Alegrete, esporas do Ibirocaí, lenço vermelho, guaiaca comprada lá no Uruguai, boinas, alpargatas e, não menos importante, um cachorro companheiro. Acima de tudo, permanecer no rancho onde nasceu. E continuar sonhando.
Guri é a 5ª colocada na votação A Música do Rio Grande, em que 74 especialistas consultados por Zero Hora escolheram as canções que mais representam os gaúchos.
A série de reportagens multimídia está sendo publicada diariamente, até o dia 20 de setembro, com o objetivo de ajudar a preservar a memória dessas obras e de seus compositores, valorizando seus legados.
Veja nesta reportagem:
A canção encontra seu intérprete
Composição dos irmãos João e Julio Machado, a música surgiu como uma homenagem ao pai deles. Além de saudar essa relação, a letra transparece inocência e mantém aceso o espírito de criança.
Guri ficou eternizada pela interpretação de César Passarinho. A música foi apresentada pela primeira vez na 13ª edição da Califórnia da Canção, em Uruguaiana, em dezembro de 1983. Saiu de lá consagrada com a Calhandra de Ouro, prêmio máximo do festival.
Assista a vídeo sobre "Guri"
Originalmente, não era para Passarinho cantar a música. Julio relatou em entrevista concedida a Zero Hora em 2015 que o plano era que Neto Fagundes a interpretasse no festival. O compositor não queria expor Passarinho, que estava recém recuperado do alcoolismo. "Ele (Neto) chamaria aquele gaiteiro 'cabeludinho' que usava o chapéu sobre o rosto (Renato Borghetti) e pronto", recordou Julio.
Contudo, o regulamento do festival dizia que um cantor só poderia interpretar até duas músicas — e Neto já estava fechado com duas composições. Ficou decidido que ele tocaria violão na apresentação de Guri, enquanto Borghetti o acompanharia com a gaita.
Neto e o gaiteiro foram ao apartamento do Passarinho para convencê-lo a cantar Guri. Seria o retorno do cantor aos palcos. Quando Julio voltou a Porto Alegre após uma viagem a trabalho, Passarinho havia deixado uma fita K7 com um bilhete: "Meu irmão, um presente para ti". Era ele cantando Guri.
Dante Ramon Ledesma chorou na plateia
O cantor e compositor Dante Ramon Ledesma estava presente naquela edição da Califórnia. A performance de Passarinho mudou o rumo de sua trajetória. Segundo ele, foi um momento emocionante, em que descobriu seu amor pela música gaúcha.
— Essa canção dizia tudo em palavras simples, em uma linguagem que todos escutavam e compreendiam. Na última noite, quando ele venceu, chorei na apresentação — recorda. — Guri ficou gravada em mim porque eu também era um guri em Uruguaiana que queria encontrar o caminho certo da arte pela minha terra.
Dante Ramon Ledesma interpreta "Guri"
Assim como Marcello Caminha, Os Serranos, Joca Martins, Oswaldir & Carlos Magrão, Sérgio Reis e Os Fagundes, entre muitos outros, Dante regravou Guri para um disco de 1988 que leva o nome do próprio artista.
Natural de Río Cuarto, província de Córdoba, o cantor argentino vivia no Brasil desde a segunda metade dos anos 1970. Sua carreira musical ainda engatinhava naquele momento da Califórnia. Ao ver Passarinho, foi como se tudo tivesse ficado claro para ele.
— Comecei a me apaixonar pelo Rio Grande do Sul, a identificar quem eu era por aqui. Tudo isso quando descobri que eu era um guri a mais — reflete.
Leia texto de Juarez Fonseca sobre a canção publicado em 1983
Letra de "Guri"
(João Batista Machado/Julio Machado da Silva Filho)
Das roupas velhas do pai queria que a mãe fizesse
Uma mala de garupa, uma bombacha e me desse
Queria boinas, alpargatas e um cachorro companheiro
Pra me ajudar a botar as vacas no meu petiço sogueiro
Hei de ter uma tabuada e o meu livro queres ler
Vou aprender a fazer contas e um bilhete escrever
Pra que a filha do seu Bento saiba que é meu bem-querer
E se não for por escrito eu não me animo a dizer
Quero gaita de oito baixos pra ver o ronco que sai
Bota Feitio do Alegrete e esporas do Ibirocaí
Lenço vermelho e guaiaca compradas lá no Uruguai
Pra que digam quando eu passe: Saiu igualzito ao pai!
E se Deus não achar muito tanta coisa que eu pedi
Não deixe que eu me separe deste rancho onde eu nasci
Nem me desperte tão cedo do meu sonho de guri
E de lambuja permita que eu nunca saia daqui
E de lambuja permita que eu nunca saia daqui

