
Rene Barbachan está sentado em uma cadeira, dentro do piquete da prefeitura de Porto Alegre, no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho, o Harmonia. Perna cruzada e celular no ouvido, conectando pessoas e resolvendo pequenos problemas que vão surgindo. Está empenhado em honrar o título que recebeu: o de patrono do Acampamento Farroupilha 2025.
Depois de alinhar os seus compromissos, sai a caminhar pelos 100 mil m² da pequena cidade gaudéria montada quase às margens do Guaíba. E, ali, o cozinheiro e assador de 63 anos é uma celebridade: recebe apertos de mão, pedidos de fotos e é convidado para se integrar em rodas de conversa para prosear. Existe uma grande admiração dos acampados por quem ajudou a construir uma significante parte da cultura do Estado.
— Está sendo um momento único e inimaginável. Sempre trabalhamos duro, tivemos grandes batalhas para consolidar o Acampamento, para melhorar ele. Só que eu nunca tive o pensamento: "Bah, um dia vão me homenagear". Sempre fiz o que fiz pelo Acampamento de coração aberto, sem almejar nada. Quando o convite chegou, eu fiquei maravilhado — explica Barbachan, enaltecendo também a emoção de estar presente no acendimento da Chama Crioula no Acampamento Farroupilha no dia 7 deste mês.
A relação dele com o evento que está em sua 43ª edição remonta a 1985, quando o agora patrono e outros gaudérios começaram a acampar no Harmonia. A ideia do grupo era aproveitar melhor o desfile do 20 de Setembro. Tal movimento se repetiu no ano seguinte, ganhando mais adesão. Em 1987, já nascia o Acampamento Farroupilha, com reconhecimento do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG). O resto é história.
As festas do Acampamento
Barbachan conhece cada cantinho do Acampamento. Pilchado da cabeça aos pés, guia a reportagem até os seus pontos preferidos dentro do Harmonia com destreza, passando por atalhos e contando detalhes de cada um dos 236 piquetes presentes. Um dos que gosta de destacar, sempre que possível, é o Fronteira Seca, no lote 120. É um ponto para celebrar a noite inteira, enfatiza, reunindo churrasco, fandango e trago.
— Fora dos dois palcos, o lugar onde ocorrem os melhores shows é no piquete Fronteira Seca, de Santana do Livramento. Ele começa a função no final da tarde e vai até clarear o dia. Todos os dias. É o melhor do mundo — garante o patrono. — E a cerveja é sempre bem gelada — acrescenta.
Por falar nos palcos do Acampamento Farroupilha, o patrono salienta que eles são bases importantes do evento tradicionalista. São dois espaços: o Palco Jayme Caetano Braun, com estrutura 360º, e o Palco Nico Fagundes. Nomes como Tchê Barbaridade, César Oliveira & Rogério Melo, Tchê Guri, Shana Müller, Pirisca Grecco e Jairo Lambari Fernandes passam por essas estruturas ao longo da programação. Além disso, há apresentações de CTGs, declamadores, trovadores, chuleadores e da tradicional Missa Crioula.
— Esses dois palcos são muito especiais, com grandes apresentações. E ambos de porteiras abertas: tu vens aqui e assiste aos melhores shows de artistas tradicionalistas do Rio Grande sem gastar nada — aponta Barbachan.
Comida e turismo
O patrono do Acampamento Farroupilha 2025 faz questão de ir até o estacionamento do Harmonia que dá de frente para a Avenida Augusto de Carvalho. Naquela área, relembra que teve o seu primeiro piquete, na década de 1980. Dali, viu o evento se estruturar e se tornar o que é hoje — cheio de orgulho de ter sido um dos pioneiros deste movimento.
Quem quiser encontrar com Rene, se ele não estiver circulando pelo Harmonia, pode ir até o lote 218, no galpão Agrupamento Crioulo Hélio Barbachan — nome dado em homenagem ao seu pai. Ele não comercializa nada em seu piquete, apenas para os membros e em eventos fechados. Por isso, indica para quem estiver querendo "engraxar o bigode" durante o Acampamento Farroupilha ir até a Estância da Harmonia, ao lado do palco central.
— Quem pilota as rodas-gigantes com os costelões, aqui, é o nosso amigo William San Martin. E, se está na mão dele, está muito bem. Ele é um grande assador. Pensa em carne bem boa — garante o patrono.
No mesmo espaço em que é possível comer um churrasco de primeira, Rene também aponta a placa do Turismo Farroupilha de Galpão, projeto para qual os piquetes se preparam para receber os visitantes com uma imersão na cultura e no tradicionalismo por meio de atividades práticas e lúdicas. É um orgulho para o patrono, que diz também estar envolvido desde a concepção da iniciativa:
— O Turismo de Galpão uma verdadeira aula do que é a essência do Acampamento. Muitas pessoas dizem que o evento é para "brincar de gauchinho”. Isso transparece. Mas, com o Turismo de Galpão, tu consegues mostrar realmente o porquê que nós estarmos aqui.
A programação do Turismo de Galpão inclui oficinas em piquetes parceiros, caminhadas guiadas com guia credenciado e a Ciranda Escolar, que leva estudantes da rede pública ao Acampamento Farroupilha. Todas as atividades são gratuitas e com vagas limitadas. As inscrições podem ser feitas aqui.
— Tudo isso que vemos aqui partiu de um movimento genuíno, sem querer nada em troca. Sem envolvimento político, partidário, nada. Só de gente do cavalo, que gosta das nossas tradições. Essa é a essência do Acampamento Farroupilha — finaliza o patrono.


