
Acender uma vela para o Negrinho do Pastoreio para encontrar algo que desapareceu. Porém, aqui o que se deseja localizar é mais afetivo: a querência perdida. É a saudade ressoando.
Negrinho do Pastoreio é a 7ª colocada na votação A Música do Rio Grande, em que 74 especialistas consultados por Zero Hora escolheram as canções que mais representam os gaúchos.
A série de reportagens multimídia está sendo publicada diariamente, até o dia 20 de setembro, com o objetivo de ajudar a preservar a memória dessas obras e de seus compositores, valorizando seus legados.
Veja nesta reportagem:
Divindade dos objetos perdidos
A toada foi criada em 1957 pelo escritor, compositor e folclorista Luiz Carlos Barbosa Lessa (1929-2002). A canção é baseada na lenda do jovem escravo que virou uma divindade que ajuda a encontrar objetos perdidos.
A mitologia tem origem africana e cristã, sendo datada de meados do século 19. Apresentada em diferentes versões, a história versa sobre um menino escravo que recebeu um milagre de Nossa Senhora após sofrer com castigos de um fazendeiro. Na crença, quando se perde algum objeto, basta acender uma vela e pedir ao Negrinho para que o objeto reapareça.
Assista a vídeo sobre "Negrinho do Pastoreio":
Não foram poucos nomes associados à música regional gaúcha e brasileira que regravaram a composição de Barbosa Lessa: Joca Martins, Kleiton & Kledir, Luiz Carlos Borges, Inezita Barroso, Mônica Salmaso, Lucio Yanel, José Cláudio Machado e, entre muitos outros, Daniel Torres.
Para Torres, Negrinho do Pastoreio é um hino de saudade e amor à querência:
— Aquelas pessoas que vieram para a cidade e sentem saudade do Interior acendem uma velinha e fazem pedidos de esperança, amor e, principalmente, aconchego.
Folclore gaúcho
Gaúcho nascido em Santa Vitória do Palmar, de pai chileno e mãe argentina, Torres cresceu no Uruguai. Como sua família era composta por artistas circenses, era comum viajar para países como Argentina e Chile. Quis o destino que o cantor, hoje com 67 anos, se encontrasse na música.
O cantor regravou Negrinho do Pastoreio para o disco Daniel Torres Canta o Rio Grande, de 2001. O trabalho conta com diversos clássicos do cancioneiro gaúcho, como Guri, Semeadura e Merceditas. Enquanto selecionava o repertório, resolveu homenagear Barbosa Lessa incluindo a composição, especialmente por ela fazer parte do folclore gaúcho.
Emoção no estúdio
A versão de Torres contou com arranjos de Leandro Rodrigues. O resultado ficou tão bonito que fez o cantor chorar no estúdio.
— Me tocou muito. Bateu a saudade da minha família, da minha mãe, do meu pai, dos meus irmãos, de viajar pelo interior do Rio Grande do Sul em um circo, de ver tropilhas de cavalo, andar pela estância. Tudo isso Negrinho do Pastoreio trouxe para mim — emociona-se.
Torres destaca que a canção também carrega um sentimento de amor ao Estado. Até hoje o público pede para ele cantar em suas apresentações.
— A maior virtude é poder tocar o coração das pessoas, além do sentimento que o compositor colocou na letra e na melodia. Esse sentimento entra na vida da gente e levamos para o palco — conclui.
Daniel Torres interpreta "Negrinho do Pastoreio":
Letra de "Negrinho do Pastoreio"
(Barbosa Lessa)
Negrinho do Pastoreio
Acendo esta vela pra ti
E peço que me devolvas
A querência que eu perdi
Negrinho do Pastoreio
Traze a mim o meu rincão
Eu te acendo esta velinha
Nela está meu coração
Quero rever o meu pago
Coloreado de pitanga
Quero ver a gauchinha
Brincando n'água da sanga
Quero tropear nas coxilhas
Respirando a liberdade
Que eu perdi naquele dia
Que me embretei na cidade
Negrinho do Pastoreio
Traze a mim o meu rincão
A velinha está queimando
Aquecendo a tradição


