
Cevar um mate para ver o desfile farroupilha e comer um churrasco no Acampamento são hábitos comuns de muitos gaúchos durante setembro. É neste mês que os festejos do dia 20 ajudam a estreitar os laços do povo com a cultura do Rio Grande do Sul — tradição que já é acolhida até por quem não é daqui.
A estudante de Relações Internacionais Alissar Naser é uma brasiliense nascida no dia 20 de setembro a mais de 2 mil quilômetros do Rio Grande do Sul. Com mãe paranaense e pai libanês, ela não teria nada que a ligasse ao Estado além da coincidência de ter vindo ao mundo na data que marca a Revolução Farroupilha. No entanto, descobriu muito cedo que com o destino não se brinca.
— Minha mãe tinha conhecimento dos CTGs do Paraná e, quando veio para Brasília, pesquisou e achou um. Fomos a uma Sexta Campeira, meus pais viram as crianças dançando e minha mãe colocou meu irmão e eu para dançar — conta Alissar.
Foi o início de uma paixão que já dura 17 anos. Aos oito, ela também começou a declamar. Atualmente, Alissar é a segunda prenda do MTG do Planalto Central, que engloba Distrito Federal, Goiás, Tocantins, o oeste da Bahia e o restante da região nordeste do Brasil.
— A dança, principalmente, me faz sentir coisas que eu não sinto no dia a dia ou em qualquer outro lugar. Eu entendo que é o meu lugar. Gosto de dançar e vejo que o CTG é onde eu posso fazer o que eu amo — diz, ao compartilhar um de seus sonhos de vida: dançar no Enart.
Gosto de dançar e vejo que o CTG é onde eu posso fazer o que eu amo.
ALISSAR NASER
Brasiliense que é a segunda prenda do MTG do Planalto Central
Marido precisou aprender a dançar
Foi em uma noite em São José dos Campos (SP) que a família da professora paulista Mariana Paiva conheceu o grupo gaúcho Os Ponteiros. Do encontro nasceu uma paixão tão arrebatadora pela música tradicionalista do Rio Grande do Sul que resultou em uma busca por um CTG.
Quando Mariana conheceu o marido, o militar Maurício de Paiva Júnior, tratou logo de apresentá-lo ao "gauchismo".
— Em 2017, a gente foi a um rodeio em Canela e ela decidiu que me daria uma pilcha. Ela comprou toda a roupa — lembra Júnior, que precisou aprender a dançar para acompanhar a mulher, dançarina profissional e ex-instrutora de dança das invernadas em São Paulo.
O casal mora no Estado há sete anos, a um quilômetro do CTG Brazão do Rio Grande, o qual passou a frequentar. Por aqui, tiveram uma gauchinha, Liz, de três anos, que já respira tradicionalismo.
— A gente chegou no final de 2018, recém-casados, mas logo veio a pandemia. No final de 2022, nasceu nossa filha. Deste ano eu falei que não passava. Íamos dançar de qualquer jeito — conta Mariana, que se prepara para a primeira Semana Farroupilha fazendo parte de uma entidade tradicionalista.
Em 2017, a gente foi a um rodeio em Canela e ela decidiu que me daria uma pilcha. Ela comprou toda a roupa
MAURÍCIO DE PAIVA JÚNIOR
Foi apresentado ao "gauchismo" pela esposa, Mariana Paiva
Um apaixonado pela carne gaúcha
O Fabio Siqueira que frequentava shows dos Fagundes na década de 1980, em São Paulo, com colegas da então namorada, não tinha uma ligação mais forte com o Rio Grande do Sul.
Há nove anos, os negócios fizeram do Estado a segunda casa de Siqueira, que se tornou diretor de Marketing e Vendas da Ferramentas Gedore, multinacional com filial em São Leopoldo. Agora, quando passa por aqui, faz questão de comprar um item essencial para os churrascos que assa na capital paulista: a carne gaúcha.
— Na primeira vez, levei uma picanha na mala de mão, porque eu não podia perder aquela carne. Quando assei, nunca me senti tão cozinheiro. Desde então, virou um inferno na minha vida — brinca.
A picanha foi moleza. Difícil mesmo, ele lembra, foi levar uma costela que havia encomendado em um açougue.
— O atendente veio com a costela, tinha 17,2 quilos. Era enorme. Quase não passou no raio X. Foi um evento no avião. Levei no açougueiro daqui (São Paulo) para ele passar na serra, pois não cabia nem na churrasqueira – diz.
Para Siqueira, que já vivenciou muitas semanas farroupilhas no Rio Grande do Sul, essa época é perfeita para apresentar ao Brasil a tradição gaúcha. Afinal, temos uma cultura sempre pronta para encantar mesmo quem é de fora do pago.
Na primeira vez (que visitei o RS), levei uma picanha na mala de mão, porque eu não podia perder aquela carne.
FABIO SIQUEIRA
Morador de São Paulo que tem o Estado como "segunda casa"
O amigo de Telmo de Lima Freitas
Oswaldo Rocha chegou a Porto Alegre em 1981, depois de ser aprovado em um concurso da Polícia Federal. Vindo do Paraná, logo conquistou a amizade do colega de trabalho Telmo de Lima Freitas, cantor e compositor morto em 2021. Foi a partir dessa relação que Rocha se apaixonou pelo tradicionalismo gaúcho.
— É um Estado que mexe com a gente — comenta o aposentado.
Da amizade surgiu o piquete da Polícia Federal, o 38, ainda em atividade. O local teve Rocha como primeiro patrão, por quase seis anos. A patronagem só foi interrompida, de maneira abrupta, porque o então policial sofreu um acidente de trabalho:
— O piquete tem mais de 30 anos. Iniciamos acampando na Associação dos Policiais Federais do RS e depois fomos para o Parque Harmonia (Parque Maurício Sirotsky Sobrinho) por uns 17 anos. Hoje, ainda fazemos o acampamento do piquete na sede da Associação.
O galpão em que o Piquete 38 está instalado é uma homenagem a Freitas. O local leva o nome do tradicionalista, considerado o mentor. A amizade entre os dois também está eternizada em uma música de 2006, Aparte, em disco homônimo.
— Ele queria que eu participasse, mas eu não sou cantor. Então, iniciei a música falando, e ele desenrola cantando — relata.
Rocha também já foi inspiração para uma música nativista: um colega, Ademar Stocker, compôs Tributo a um Taura, contando sobre a chegada do amigo ao Rio Grande do Sul. A letra diz: "Foi o amor pela coisa do pago/ Que lhe trouxe até aqui (...)/ Oh, patrão da estância suprema/ Que nunca nos deixará a sós/ Lhe devemos um muito obrigado/ Por tê-lo mantido entre nós".
(O Rio Grande do Sul) É um Estado que mexe com a gente.
OSWALDO ROCHA
Vindo do Paraná, em 1981, apaixonou-se pelo tradicionalismo
O Rio Grande do Sul ganhou o coração de Rocha, que considera ter fincado raízes no Estado. Casado com uma gaúcha e com filhos nascidos aqui, ele ainda tem familiares no Paraná, mas não pretende se mudar mais. Com a família toda envolvida no tradicionalismo, a casa de Rocha conta com um galpão e três cocheiras, e recebeu a visita da Chama Crioula, levada por 12 cavalarianos e duas viaturas da Polícia Federal.
E Rocha garante: desde 1981, toma chimarrão todas as manhãs.

