
Não é somente sobre uma cidade. Todo gaúcho que ouve ou canta esta canção pensa em sua própria querência, em seu próprio Alegrete. É uma música que aparenta ser extremamente local, mas desperta um sentimento universal.
Canto Alegretense é a 3ª colocada na votação A Música do Rio Grande, em que 74 especialistas consultados por Zero Hora escolheram as canções que mais representam os gaúchos.
A série de reportagens multimídia está sendo publicada diariamente, até o dia 20 de setembro, com o objetivo de ajudar a preservar a memória dessas obras e de seus compositores, valorizando seus legados.
Veja nesta reportagem:
Como surgiu a canção
A canção foi composta pelos irmãos Antonio Augusto Fagundes (1934-2015) e Euclides Fagundes Filho — ou simplesmente Nico e Bagre — em 1980.
Além de compositor e folclorista, Nico atuava como advogado em Porto Alegre naquele período. Foi quando um colega de trabalho com uma causa a defender no Interior o indagou maliciosamente: "Nico, onde é que fica o Alegrete?". Natural do município da Fronteira Oeste, ele brincou: "Não me perguntes onde fica o Alegrete. Segue o rumo do teu próprio coração".
Há 45 anos esse caminho é repetido. Uma das primeiras paradas ocorreu em 1981, durante a 2ª Tertúlia Musical Nativista de Santa Maria. A música foi apresentada por Bagre, Ernesto e Neto Fagundes, que formavam o Grupo Inhanduy.
A canção não pôde concorrer à premiação, pois já havia sido tocada algum tempo antes na Semana Crioula Internacional de Bagé. Contudo, a primeira gravação da faixa acabou integrando o LP do festival.
A primeira apresentação na TV foi realizada em 1983, no Galpão Crioulo, com o grupo reforçado por Paulinho Fagundes no bombo leguero. O segundo disco do programa (Galpão Crioulo II, de 1984) ajudou na popularização do Canto Alegretense, trazendo uma versão da música interpretada por Neto com parceria de Renato Borghetti.
Assista a vídeo sobre "Canto Alegretense":
Carro-chefe do repertório
As décadas avançaram e o Canto Alegretense ganhou diferentes vozes e ritmos, mas se manteve essencialmente como o carro-chefe de Os Fagundes — grupo familiar que hoje conta com Bagre (o pai), Neto, Ernesto e Paulinho (filhos) e que teve Nico em sua formação original.
A família estima que a música tenha sido regravada mais de uma centena de vezes. É um canto gauchesco, brasileiro e internacional: nomes como Alcione, Sérgio Reis e Gabriel O Pensador, entre outros, já o entoaram. O tecladista Don Airey, da banda inglesa Deep Purple, chegou a tocar a melodia em um show na Capital. Para se ter ideia, um álbum só com versões da música foi lançado pela USA Discos em 1998. Sem esquecer o Guri de Uruguaiana, personagem de Jair Kobe, com suas paródias da música nos anos 2000. Paulinho Fagundes explica:
— A canção tem uma quadratura que a enquadra como uma estrutura universal para se improvisar e se divertir. Isso dá essa grandiosidade ao Canto Alegretense.
Um canto de todos os lugares
Em 2024, a canção ganhou nova projeção nacional com o Big Brother Brasil 24 graças ao alegretense Matteus, que a entoava constantemente na casa. No Planeta Atlântida, a música é lembrada em toda edição, não só por Neto quando realiza a abertura do festival, mas também por artistas que passam por ali.
Para o cantor e comunicador, o Canto Alegretense tem um sabor diferenciado desde a apresentação na Tertúlia. Com o tempo, a canção pautou a carreira da família.
— Viemos morar em Porto Alegre, mas acho que o Canto Alegretense segue sendo esse cordão umbilical que nos liga eternamente à nossa terra natal — pontua Neto.
Da aldeia para o mundo
Ao comentar o sucesso da canção, Ernesto cita uma máxima frequentemente atribuída a Tolstói, mas que na verdade é uma variação de uma frase escrita por Tchékhov a um amigo: "Se queres ser universal, começa por pintar tua aldeia":
— O Canto Alegretense, para mim, é universal porque é o canto da nossa aldeia, que amamos desde guri. Torna-se muito universal porque traz na essência da composição, tanto da melodia quanto da poesia, o amor à terra.
Bagre complementa:
— Embora o Canto Alegretense seja localizado no Alegrete, cada um o canta para a sua terra. É uma música que nos imortalizou.
Os Fagundes interpretam "Canto Alegretense":
Letra de "Canto Alegretense"
(Nico Fagundes/Bagre Fagundes)
Não me perguntes onde fica o Alegrete
Segue o rumo do teu próprio coração
Cruzarás pela estrada algum ginete
E ouvirás toque de gaita e de violão
Pra quem chega de Rosário ao fim da tarde
Ou quem vem de Uruguaiana de manhã
Tem o sol como uma brasa que ainda arde
Mergulhado no rio Ibirapuitã
Ouve o canto gauchesco e brasileiro
Desta terra que eu amei desde guri
Flor de tuna, camoatim de mel campeiro
Pedra moura das quebradas do Inhanduí
E na hora derradeira que eu mereça
Ver o sol alegretense entardecer
Como os potros vou virar minha cabeça
Para os pagos no momento de morrer
E nos olhos vou levar o encantamento
Desta terra que eu amei com devoção
Cada verso que eu componho é um pagamento
De uma dívida de amor e gratidão
Ouve o canto gauchesco e brasileiro
Desta terra que eu amei desde guri
Flor de tuna, camoatim de mel campeiro
Pedra moura das quebradas do Inhanduí


