
A música que coloca espora em Deus. Que afirma: Ele é gaúcho. Uma canção que, duas décadas depois de seu lançamento, estourou.
Querência Amada é a 2ª colocada na votação A Música do Rio Grande, em que 74 especialistas consultados por Zero Hora escolheram as canções que mais representam os gaúchos.
A série de reportagens multimídia, que termina neste sábado (20), tem o objetivo de ajudar a preservar a memória dessas obras e de seus compositores, valorizando seus legados.
Veja nesta reportagem:
"Deus é gaúcho"
Composta por Teixeirinha (1927-1985), Querência Amada é a segunda faixa do lado A do disco Aliança de Ouro, de 1975. Trata-se de um xote de exaltação ao Rio Grande do Sul.
A letra enfatiza a paisagem ("O céu azul do Rio Grande" e "Planície e serra"), personalidades políticas ("Berço de Flores da Cunha/ E de Borges de Medeiros/ Terra de Getúlio Vargas/ Presidente brasileiro"), as mulheres ("Da linda mulher gaúcha/ Beleza da minha terra"), os gaúchos ("Do povo vem o carinho/ Bondade nunca é demais") e até um pouco de autoafirmação ("Sou da geração mais nova/ Poeta bem macho e guapo/ Nas minhas veias escorre/ O sangue herói de farrapo"), além de criar uma imagem divina regionalista ("Deus é gaúcho").
Assista a vídeo sobre "Querência Amada":
Música fala a língua do povo
Victor Mateus Teixeira Filho, mais conhecido como Teixeirinha Filho, destaca que o pai era um artista que amava o Estado e se mostrava minucioso nas composições.
— A música tinha que chegar certinha, bem rimada. A poesia vinha do fundo do coração dele. Era um artista nato. Por isso, acho que todo o brilhantismo do pai está em Querência Amada — observa.
O cantor Teixeirinha Neto, filho de Teixeirinha Filho, acrescenta:
— É uma música que fala a língua do povo, algo em que meu avô era fluente. Ali está a linguagem do Rio Grande. Há na letra exatamente aquilo que orgulha o gaúcho.
Roupagem moderna
Apesar de ser a canção mais regravada de Teixeirinha e ter se tornado uma das músicas mais populares do regionalismo gaúcho, Querência Amada não foi uma música de trabalho (single) do disco Aliança de Ouro nem teve maior repercussão em 1975.
Porém, em meados dos anos 1990, quando Teixeirinha já havia partido (morreu em 4 de dezembro de 1985), a canção ganhou popularidade com a versão de Oswaldir & Carlos Magrão. Em especial, com sua levada country e introdução com guitarra.
A ex-dupla (hoje, cada um segue carreira solo) regravou Querência Amada pela primeira vez quando ainda vivia em São Paulo, e a faixa entrou no repertório do disco Velha Gaita (1993), pela gravadora Continental.
Os dois voltaram ao Rio Grande do Sul em 1995 e assinaram com a gravadora Acit. No disco lançado no ano seguinte, que leva o nome da dupla, incluíram uma nova versão de Querência Amada — por meio da qual a música foi amplamente difundida. Teixeirinha Filho destaca:
— Eles tiveram a felicidade de gravar a música com uma roupagem moderna. Colocaram aquela guitarra estilo Mississippi, que ficou bonita demais. Aquilo tocou as novas gerações, fazendo com que a música fosse cantada pelos artistas que vêm para cá.
Teixeirinha Filho e Teixeirinha Neto interpretam "Querência Amada":
Sensação de pertencimento
A canção também receberia um empurrãozinho do futebol: o zagueiro Adílson Batista, que jogava pelo Grêmio na época, chegou a cantá-la em programas esportivos. A faixa também embalou trilhas de reportagens do vitorioso Grêmio de Felipão, campeão brasileiro daquele ano. Só que a canção transcende o futebol. Teixeirinha Filho destaca:
— Querência Amada não é só para os gremistas, é também para os colorados. É para o pessoal do Juventude, para todos os clubes (risos).
Para o neto, a música traz uma sensação afetiva de pertencimento:
— Temos nossas qualidades e defeitos, mas acho que nossas qualidades são muito fortes. Querência Amada desperta esse orgulho de estar presente e amando este chão.
Letra de "Querência Amada"
(Teixeirinha)
Quem quiser saber quem sou
Olha para o céu azul
E grita junto comigo
Viva o Rio Grande do Sul
O lenço me identifica
Qual a minha procedência
Da província de São Pedro
Padroeiro da querência
Oh, meu Rio Grande
De encantos mil
Disposto a tudo pelo Brasil
Querência amada dos parreirais
Da uva vem o vinho
Do povo vem o carinho
Bondade nunca é demais
Berço de Flores da Cunha
E de Borges de Medeiros
Terra de Getúlio Vargas
Presidente brasileiro
Eu sou da mesma vertente
Que Deus saúde me mande
Que eu possa ver muitos anos
O céu azul do Rio Grande
Te quero tanto, torrão gaúcho
Morrer por ti me dou o luxo
Querência amada
Planície e serra
Dos braços que me puxa
Da linda mulher gaúcha
Beleza da minha terra
Meu coração é pequeno
Porque Deus me fez assim
O Rio Grande é bem maior
Mas cabe dentro de mim
Sou da geração mais nova
Poeta bem macho e guapo
Nas minhas veias escorre
O sangue herói de farrapo
Deus é gaúcho
De espora e mango
Foi maragato ou foi chimango
Querência amada
Meu céu de anil
Este Rio Grande gigante
Mais uma estrela brilhante
Na bandeira do Brasil



