
Segundo o dicionário, tradição é a comunicação oral de fatos, lendas, ritos, usos, costumes e outros quetais de geração para geração. Também é o ato ou efeito de transmitir ou entregar. Como se pode perceber, não há definição quanto aos meios empregados para isso. Cabe aos tradicionalistas, então, utilizarem o que há de mais eficiente para garantir a perpetuação dos costumes.
Entre os folcloristas que definiram muito do que se tem até hoje como cultura gaúcha, um deles foi visionário. Na obra Nativismo: um fenômeno social gaúcho (L&PM, 1985), Barbosa Lessa afirmou que a cada três décadas surge uma movimentação diferente, promovida por jovens, trazendo exemplos do próprio Estado.
— No período da Califórnia da Canção e do nativismo, ele diz que, dali a 30 anos, jovens imbuídos de um telurismo antinuclear ou cibernético iriam se juntar para buscar a tecnologia do momento, uma forma de divulgar as tradições gaúchas. Isso coincide com o ano de 2010, e em 2009 havíamos feito a primeira transmissão do Enart pela internet, com uma conexão de 2 megabytes, hoje algo impensável —conta o vice-presidente da Comissão Estadual dos Festejos Farroupilhas, Rogério Bastos.
Em 2024, a grande final do Encontro de Artes e Tradição Gaúcha (Enart) contou com 985 mil acessos no canal do YouTube, ao longo dos três dias de apresentações.
A profecia de Lessa tinha fundamento. Talvez os 30 anos entre uma geração e outra sejam abreviados em razão da evolução exponencial da tecnologia, mas a essência se mantém intacta: cabe aos jovens assoprar a brasa para manter viva a chama da tradição.
Esmiuçando o gauchês

Também é no YouTube que o publicitário Lucas Negri difunde informações sobre a cultura gaúcha. O canal Linha Campeira alcançou 100 mil inscritos quando setembro já estava na porta do brete – um termo que ele certamente adoraria explicar em seus vídeos, se ainda não o fez.
— Inicialmente, era um programa de rádio, criado em 2007 por um grupo de gaúchos que vivia fora do Rio Grande do Sul. Eu entrei em 2013 e, conforme a internet avançava, fui compartilhando em diferentes plataformas. Na época quase não existiam podcasts, mas a gente já publicava no site — orgulha-se.
Aos poucos, o programa caiu no gosto do público, tanto que hoje é distribuído para dezenas de rádios – virtuais ou convencionais. A fórmula consiste em definir um tema por semana e compartilhar histórias, curiosidades e conceitos sobre aquele assunto. Em paralelo, a seleção musical também precisa acompanhar o enredo.
Com duas horas de duração, dá tempo de ouvir cerca de 25 canções a cada episódio. E não é mais preciso esperar o horário do programa para ouvi-lo: todos ficam disponíveis no Spotify.
Natural de Ibiaçá, no norte gaúcho, Lucas conheceu os colegas de programa em Blumenau. Quando se mudou para a também catarinense cidade de Caçador, resolveu que levaria o conteúdo para o YouTube. Nos vídeos, porém, seguiu carreira solo: roteiriza, produz, grava e conta com apoio somente na hora da edição. Em um vídeo recente, ele detalha a história da chama crioula.
Informação e solidariedade
Juarez Júnior, de Gravataí, era coreógrafo de invernadas artísticas e tudo corria bem até que, em 2020, a pandemia o impediu de trabalhar nos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs). Foi quando teve a ideia de criar um perfil no Instagram para que o público que gosta de dança se encontrasse e tivesse identificação.
Nasceu ali perfil O Mundo do CTG, focado em repercutir os principais acontecimentos do tradicionalismo. Aos poucos, Juarez e a profissional de marketing Jordana de Mattos deram identidade ao projeto, com conteúdos próprios. Hoje eles compartilham receitas, fazem cobertura de concursos de danças, festivais nativistas e feiras como a Expointer. São quase 800 mil seguidores no Instagram – somados a YouTube, Facebook e Tiktok, a conta ultrapassa um milhão.
Surgido de um momento de dificuldade da humanidade, foi em outro ponto crítico que o projeto deu um salto. A solidariedade falou mais alto durante a enchente que assolou o Estado e a divulgação de formas de apoio trouxe ainda mais apoiadores para O Mundo do CTG.
— Graças a Deus, sempre tivemos um público bom, mas acredito que a cultura gaúcha em destaque no Big Brother Brasil e nosso apoio durante as enchentes fizeram o público crescer ainda mais — comenta Jordana.
Invernada pop
Prestes a completar 70 anos, o CTG Aldeia dos Anjos, de Gravataí, tem no digital o seu principal canal de comunicação. Assim como em O Mundo do CTG, essa escalada se deu na pandemia.
— Tudo parou e quisemos levar o CTG para a casa das pessoas, até para manter viva a entidade, os grupos de dança, que não podiam se encontrar. Mantivemos atividades e reuniões, produzindo materiais — conta a responsável pela comunicação e vice-presidente do Conselho de Vaqueanos da entidade, Vanessa Chamurro.
Com quase 6 mil seguidores àquela altura, os integrantes do CTG centralizaram as contas das invernadas artísticas e definiram estratégias para aumentar o alcance. A criação de conteúdo foi intensificada, retratando as atividades dos diferentes setores, como grupos de dança e departamento campeiro.
O esmero chegou ao ponto de a invernada juvenil fazer um lançamento no digital sincronizado com uma conquista no mundo físico. Em 2024, um videoclipe foi gravado para a música Primavera Pampeana, de Miro Saldanha – mas na versão preparada especialmente para a apresentação no festival Juvenart. Todas as composições também ficam disponíveis no Spotify.
— Essa coreografia foi reservada para a grande final, no domingo. Assim que saiu o resultado e nós fomos vencedores, lançamos o vídeo para engajar — explica Vanessa.
A constância deu resultado. A conta do CTG no Instagram tem, hoje, quase 30 mil seguidores. Visibilidade que aumentou a interação, com o público procurando a entidade para aprender a dançar e para participar dos eventos.
Pilchadinho teve ajuda da IA
Hanna Hann, de Caxias do Sul, trabalha com desenvolvimento de sistemas, mas foi diante de uma vitrine que ela teve a ideia que mudou sua vida: criar um livro de colorir baseado nas tradições gaúchas. Ela garante que é para todas as idades, mas o visual é encantador para a criançada.
— Foi algo completamente casual. Estava passeando com meu marido e vi muitos livros de colorir. Comentei com ele que seria legal se tivesse algo relacionado ao Rio Grande do Sul, porque temos muitas tradições — recorda.
Joé Campos, o marido, deu um jeito de incentivá-la e comprou os materiais necessários para o começo da produção. Conciliando o trabalho com a nova atividade, desenhava no tempo livre e contou com a inteligência artificial como aliada para digitalizar os traços.
— Repeti cada desenho cerca de cinco vezes, até ficarem como eu gostaria. Desenvolvi um prompt para que a IA não alterasse nada, nem agregasse algo que eu não tivesse pedido — conta.
Assim nasceu o Pilchadinho, personagem principal dos Gaúcho Goods. As cenas retratadas incluem itens clássicos do Estado, como potes de nata ou chimia, pão caseiro, chimarrão, Semana Farroupilha, além de lugares históricos.
— Eu estava conversando com meu pai antes de imprimir e perguntei se ele achava que venderia cem cópias. Ele disse para fazer, já que não tinha prazo para vender. Acabaram esgotados em menos de uma hora, foi uma euforia para mim — relata.
Em dois meses, mais de 3 mil exemplares foram comercializados em livrarias, na loja virtual Shopee ou diretamente pelo Instagram da autora. Os 500 seguidores iniciais já viraram quase 7 mil. No TikTok o salto foi maior: de 14 mil para 35 mil usuários acompanhando suas postagens.
A segunda edição traz o Pilchadinho em lugares como a Usina do Gasômetro, as Missões, a Maria Fumaça e o Monumento ao Imigrante em Caxias do Sul. Diversão e cultura para toda a família.
Big Brother Bagual, tchê!

Um alegretense movimentou a casa mais vigiada do Brasil, em 2024. Matteus Amaral ficou em segundo lugar no Big Brtother, mas caiu nas graças de grande parte do público do país. Seus símbolos foram nada mais do que hábitos corriqueiros por estes pagos, como o uso da boina.
— O que as pessoas mais perguntam sobre a nossa cultura é em relação às vestimentas. Muitos questionam se a gente usa a boina e a bombacha no dia a dia. Eu realmente uso — confirma Matteus.
O ex-BBB se diz honrado pela oportunidade que teve de representar a cultura do Estado nacionalmente, mas comenta que mostrou só um pouco do que é, de fato, a tradição do povo gaúcho. Ligado ao campo e apaixonado por cavalos desde cedo, Matteus reconhece que a rotina ficou mais ligada ao tradicionalismo depois da fama. Por isso, sempre que está em Alegrete ou visitando parceiros, ele retrata o dia a dia da lida e do trato com os animais, e segue destacando os lugares e hábitos da gauderiada para 4,6 milhões de seguidores no Instagram.
O interesse das pessoas é tamanho que ele criou uma ação especial para a Semana Farroupilha – segundo Matteus, o momento mais esperado do ano. Um grupo de 40 pessoas foi escolhido para estar com ele em Alegrete entre os dias 18 e 20 de setembro, a fim de viver uma experiência imersiva completa, com jantares, bailes e o desfile a cavalo no feriado farrapo.
— Quando cheguei ao BBB fiquei assustado, um monte de gente que eu não conhecia. Pensei: “tenho que ser eu mesmo, vou falar do jeito que eu falo, explicar sobre o que eu sou, de onde vim, e eu tenho muito orgulho disso”. Fui criado dentro da cultura gaúcha, dançando no CTG, aprendendo sobre o cavalo e a cultura gaúcha, a lida no campo. Isso é uma coisa que me orgulha muito e nada mais bonito do que representar o que a gente acredita e ama — garante.

