
Em um Estado com tantas composições inesquecíveis, Céu, Sol, Sul, Terra e Cor foi aclamada como canção-símbolo que representa a alma e o jeito de ser do gaúcho. A obra de Leonardo (1938-2010) foi a mais votada pelos jurados do especial A Música do Rio Grande.
Zero Hora encerra neste sábado (20) a divulgação das 10 canções eleitas pelo júri. A reportagem ouviu 74 nomes do cenário local — incluindo pesquisadores, artistas, produtores e integrantes de festivais —, que listaram os maiores clássicos do cancioneiro gauchesco.
Mais de cem canções foram lembradas, das quais 10 foram selecionadas para serem celebradas nas plataformas de GZH nos últimos dias.
A votação tem como objetivo preservar a memória dessas obras e seus compositores e intérpretes, valorizando seus legados, além de ser uma maneira de comemorar o Mês Farroupilha com a arte da nossa terra.
Na primeira edição de A Música do Rio Grande, em 2000, a canção de Leonardo foi a vencedora pelo voto popular. Já entre os artistas, pesquisadores e jornalistas consultados, deu Prenda Minha.
Veja nesta reportagem:
Como foi criada a canção
A inspiração para a melodia da consagrada canção surgiu em uma manhã de domingo, no início de 1978, conforme o bajeense Jader Moreci Teixeira, mais conhecido como Leonardo. Como relatou em entrevista a Zero Hora no ano 2000, ele acordou com a melodia quase pronta na cabeça. Então, correu para o violão e organizou a música. Mais tarde, escreveu a letra.
"Procurei, no texto, dar uma ênfase de amor ao Rio Grande. Amor cultivado desde a infância", contou. "Eu queria uma música telúrica em relação ao Rio Grande e que, ao mesmo tempo, caísse na alma do povo".
Assista a vídeo sobre "Céu, Sol, Sul, Terra e Cor":
Como a composição decolou
Com a música, Leonardo foi premiado na Ciranda Musical Teuto-Riograndense, de Taquara, em 1978. O cantor e compositor dava seus primeiros passos como artista solo. Antes, chegou a formar uma dupla sertaneja com um amigo, Leopoldo, integrou o grupo Os Três Xirus e atuou como produtor musical.
Apesar da premiação, a música não teve maior repercussão. Contudo, no início dos anos 1980, popularizou-se em comerciais. Já a carreira solo de Leonardo foi decolar em 1982, quando venceu a Califórnia da Canção Nativa, em Uruguaiana, com Tertúlia.
Sobre Céu, Sol, Sul, Terra e Cor, Leonardo destacou a Zero Hora: "Tenho algumas outras obras que considero mais eloquentes, mas essa música me toca muito até pela reação das pessoas. Não tem como não ser a minha preferida".

Trilha sonora da reconstrução
Céu, Sol, Sul, Terra e Cor atravessou as décadas e foi regravada por uma lista extensa de artistas e grupos como Os Araganos, Joca Martins, Mônica Haas, Família Lima, Grupo Mas Bah!, João Luiz Corrêa, Os Fagundes, Oswaldir & Carlos Magrão, Bonitinho, José Cláudio Machado, Grupo Rodeio, Thomas Machado com Gaúcho Fronteira e, entre muitos outros, o Padre Ezequiel.
Isso sem falar das incontáveis interpretações em shows. Uma performance marcante ocorreu em junho do ano passado, durante o festival Salve o Sul. Realizado em São Paulo (SP), no Allianz Parque, o evento tinha como finalidade arrecadar fundos para auxiliar a reconstrução do RS após a enchente. Dez artistas gaúchos subiram ao palco, incluindo Luísa Sonza e Neto Fagundes, para cantar a música.
Aliás, Céu, Sol, Sul, Terra e Cor ganhou um significado especial em 2024. Foi uma música bastante lembrada no período de superação e reconstrução do Estado. Tanto que o Fantástico reuniu mais de 20 artistas gaúchos para interpretar a canção.
Sensação de pertencimento
A cantora Luiza Barbosa, 18 anos, estava tanto no palco do festival quanto no clipe do Fantástico. Tendo se projetado nacionalmente pelo reality show musical The Voice Kids, a artista é uma das vozes mais promissoras da música regional gaúcha. Para ela, Céu, Sol, Sul, Terra e Cor carrega um "sentimento bonito".
— É uma música que traz todo esse pertencimento de ser de onde a gente vem, de ter nascido neste chão que a gente carrega com tanto amor e orgulho dentro do peito — destaca Luiza.
Luiza Barbosa interpreta "Céu, Sol, Sul, Terra e Cor":
Canção desperta emoção nos gaúchos
Também é uma música que está na boca do povo. Basta caminhar pelo Acampamento Farroupilha, no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho (Harmonia), e perguntar às pessoas instaladas nos piquetes. É o caso de Luiz Domingues, 75 anos, que observa:
— Leonardo foi muito feliz em colocar em linhas melódicas o que o Rio Grande tem de bom e bonito. Quem vê o entardecer aqui no Guaíba percebe que não tem coisa mais linda.
Ao ser questionado sobre a música, Milton Matos, 62 anos, indaga:
— Tchê, quem é que não gosta de cantar o seu Estado? Falar das belezas e dos nossos costumes.
Um hino do Rio Grande
Elezina de Freitas, 69 anos, crê que a música representa o Rio Grande do Sul especialmente por ter uma letra "muito forte":
— Todo gaúcho tem orgulho de ser gaúcho e, com essa música, muito mais.
Já Laura Barbosa, 66 anos, classifica Céu, Sol, Sul, Terra e Cor como um hino do Estado. Ainda mais após tudo que aconteceu no ano passado:
— É só pensar nas tragédias que tivemos por aqui. Acho que é uma música que ilustra a esperança e a nobreza do gaúcho. Nossa fraternidade está toda nessa canção.
Letra de "Céu, Sol, Sul, Terra e Cor"
(Leonardo)
Eu quero andar nas coxilhas
Sentindo as flexilhas das ervas do chão
Ter os pés roseteados de campo
Ficar mais trigueiro com o sol de verão
Fazer versos cantando as belezas
Desta natureza sem par
E mostrar para quem quiser ver
Um lugar para viver sem chorar
É o meu Rio Grande do Sul
Céu, sol, sul, terra e cor
Onde tudo que se planta cresce
E o que mais floresce é o amor
Eu quero me banhar nas fontes
E olhar horizontes com Deus
E sentir que as cantigas nativas
Continuam vivas para os filhos meus
Ver os campos florindo
E crianças sorrindo, felizes a cantar
E mostrar para quem quiser ver
Um lugar pra viver sem chorar
É o meu Rio Grande do Sul
Céu, sol, sul, terra e cor
Onde tudo que se planta cresce
E o que mais floresce é o amor





