
Chovia forte em Santa Maria, enquanto dois amigos estavam trancafiados em um apartamento. Um estudava para a faculdade. O outro mateava. Entre um ruído de bomba e outro, comentou: "Ó, tá batendo água". Instintivamente, a dupla percebeu que aquela frase daria uma música.
Batendo Água é a 6ª colocada na votação A Música do Rio Grande, em que 74 especialistas consultados por Zero Hora escolheram as canções que mais representam os gaúchos.
A série de reportagens multimídia está sendo publicada diariamente, até o dia 20 de setembro, com o objetivo de ajudar a preservar a memória dessas obras e de seus compositores, valorizando seus legados.
Veja nesta reportagem:
Gaúcho que supera as adversidades
É inconfundível: no primeiro acorde de gaita, Batendo Água já empolga. Não raro, o grito do sapucay (forma de expressão de origem indígena adotada na música regional) ecoa pelo baile ou em cada apresentação na sequência.
A composição de Gujo Teixeira e Luiz Marenco conta a história do gaúcho que, mesmo abaixo de mau tempo, supera qualquer adversidade. Uma canção sobre resiliência.
— Batendo Água trata da resistência desse gaúcho, que é um pouco da história do nosso povo mesmo — explica Gujo, poeta e compositor. — Trata dessa força que o gaúcho consegue quando as coisas não estão bem, de se garantir e dar a volta por cima.
Assista a vídeo sobre "Batendo Água":
Como a música foi criada
A canção surgiu por acaso em uma tarde chuvosa de março de 1997. Marenco visitava Gujo, que vivia em Santa Maria, onde cursava a faculdade de Veterinária. Em meio a uma conversa entre os dois, foi observado que estava "batendo água", em referência à precipitação. Marenco afirmou que aquela expressão daria uma música.
Gujo interrompeu os estudos e foi para o computador, escrevendo a maior parte da letra. Coube ao cantor e compositor trabalhar a melodia e, em questão de dias, estava pronta a música.
Os dois inscreveram a música na 17ª edição da Coxilha Nativista de Cruz Alta. Para a apresentação no evento, Luiz Marenco dividiu o vocal com o cantor Jari Terres.
Só que não houve tempo para ensaio. Tanto que Jari não decorou a composição e precisou de um pedestal para apoiar um papel com a letra no palco. Durante a apresentação, o papel voou, e Marenco correu para recolocá-lo a tempo da parte do parceiro.
Batendo Água não recebeu nenhum prêmio naquele festival e virou a última faixa do disco do evento. Contudo, as rádios de música regional tomaram gosto pela canção e começaram a rodá-la. Aos poucos, a composição foi conquistando o Estado.
Dezenas de regravações
A música entrou no álbum Quando o Verso Vem pras Casa, de 1999, que traz letras de Gujo cantadas por Marenco e Jari. A partir daí, Batendo Água ganhou dezenas de regravações e até versão em espanhol. Em 2017, foi homenageada pela Coxilha e pelo município de Cruz Alta com o livro Batendo Água — 20 Anos, reconhecendo a importância da canção para o festival.
— Batendo Água foi aquele boom — recorda Marenco. — Às vezes, a gente compõe uma música porque veio uma melodia. Papai do Céu nos entrega a obra, mas não sabe o que ela pode alcançar. E essa música foi muito além.
Gujo diz que Batendo Água lhe trouxe maior projeção como poeta e compositor. Após 28 anos sendo tocada por diferentes artistas e bailes, ele torce para que a canção siga replicada em almoços de domingo.
— O pai vai lá e dá play, o filho gosta e mostra para alguém. Essa é a ideia — diz Gujo. — É uma música sempre atual. Onde toca, as pessoas prendem um grito do sapucay e cantam junto. Às vezes, nem sabem o que estão cantando, mas acompanham.
Luiz Marenco interpreta "Batendo Água":
Letra de "Batendo Água"
(Gujo Teixeira/Luiz Marenco)
Meu poncho emponcha lonjuras batendo água
E as águas que eu trago nele eram pra mim
Asas de noite em meus ombros sobrando casa
Longe das casa ombreada a barro e capim
Faz tempo que eu não emalo meu poncho inteiro
Nem abro as asas de noite pra um sol de abril
Faz muitos dias que eu venho bancando o tino
Das quatro patas do zaino, pechando o frio
Troca um compasso de orelha a cada pisada
No mesmo tranco da várzea que se encharcou
Topa nas abas sombreras, que em outros ventos
Guentaram as chuvas de agosto que Deus mandou
Meu zaino garrou da noite o céu escuro
E tudo o que a noite escuta é seu clarim
De patas batendo n'água depois da várzea
Freio e rosetas de esporas no mesmo trim
Falta distância de pago e sobra cavalo
Na mesma ronda de campo que o céu deságua
Que tem um rumo de rancho pras quatro patas
Bota seu mundo na estrada batendo água
Porque se a estrada me cobra, pago seu preço
E desabrigo o caminho pra o meu sustento
Mesmo que o mundo desabe num tempo feio
Sei o que as asas do poncho trazem por dentro




