
Solange Ramires, 24 anos, irá de salto alto e vestido a rigor, mas não revela a cor nem o modelo - como toda noiva que se preze. Sua consorte, Sabriny Benites, 26 anos, usará smoking e sapato clássico, mas também não antecipa detalhes - quer guardar a surpresa até o final. As duas formam o primeiro par de lésbicas do país a se casar dentro de um centro de tradições gaúchas (CTG).
Solange e Sabriny foram apresentadas às 19h desta terça-feira, no Fórum de Santana do Livramento, pela juíza de Direito Carine Labres. A identidade delas era mantida em sigilo devido às reações de parte dos tradicionalistas, que se rebelaram contra a realização de um casamento coletivo incluindo gays dentro de um CTG.
- Com o evento, estamos passando uma mensagem de que é preciso ter tolerância e respeito às diferenças - ressaltou a magistrada Carine.
"A ideia é garantir os direitos da minoria", diz juíza
As duas mulheres irão se somar a mais 28 casais heterossexuais que trocarão alianças dentro do CTG Sentinelas do Planalto, em Livramento, na cerimônia marcada para sábado. O evento tem repercussão internacional, a se julgar pelo interesse demonstrado por jornalistas de outros países. Estão convidadas autoridades do governo do Estado, do Poder Judiciário e do Ministério Público.
O polêmico casamento gay em um CTG de Livramento
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Para Solange e Sabriny, é a oportunidade de formalizar uma paixão iniciada há cinco anos. Com o documento de casadas, pretendem contrair um empréstimo para comprar a casa própria.
Garantida a união estável, Solange e Sabriny acreditam que ficarão mais seguras para o futuro. Foto: Carlos Macedo, Agência RBS
Em função do clima que se instalou em Livramento - o patrão do CTG Sentinelas do Planalto, Gilbert Gisler, o Xepa, foi ameaçado de morte por ter acolhido a ideia da juíza Carine -, Solange admite que ficou com medo, no início. Lembra que outro casal de lésbicas desistiu de participar. Mas, ao lado de Sabriny, resolveu enfrentar a situação.

- Agora estou nervosa é se não vou tropeçar com o salto alto na hora da cerimônia - diz Solange.
Sabriny jamais cogitou recuar. Como é doble chapa (cidadã uruguaia e brasileira), chegou a convidar Solange para se unirem em Rivera, a cidade gêmea de Livramento. Queria aproveitar a legislação mais liberal do Uruguai, que permitiu o casamento entre pessoas do mesmo sexo antes do Brasil.
- Não acredito que vão fazer alguma coisa - comenta Sabriny, referindo-se à revolta dos tradicionalistas mais ferrenhos.
- A gente não esperava toda essa repercussão. Mas não ouvimos ameaças de outras pessoas - completa Solange Ramires, 24 anos.
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O curioso é que as duas já frequentaram CTG, antes de se conhecerem. Quando adolescente, Solange dançou a música "Ai bota aqui, ai bota ali o teu pezinho", e rodopiou num vestidão de prenda. Sabriny também gostava dos bailados gauchescos, mas se afastou quando vetaram que entrasse de alpargatas. Como é meio uruguaia, não aceitou a proibição. No país vizinho, alpargatas são tão sagradas como o hábito de tomar mate.
- Não entendi. Então resolve sair do CTG - diz ela.
As duas estão contentes com a solidariedade de amigos e familiares. A mãe de Sabriny, uruguaia, estava hesitante, por ser evangélica, mas cedeu e irá ao casamento coletivo, que coincide com a abertura dos festejos da Semana Farroupilha.
Elas resolveram não ir pilchadas, como outros casais, que devem comparecer em charretes ou escoltados por gaúchos a cavalo. Optaram pelo rito convencional, agora estão no lufa-lufa dos preparativos finais.
Entenda a polêmica
A diretora do Fórum de Santana do Livramento, juíza Carine Labres, propôs fazer um casamento coletivo dentro de um CTG, incluindo pares gays, como forma de homenagear os festejos da Semana Farroupilha. A ideia recebeu o apoio da promotora de Justiça, Rosi Barreto.
O patrão do CTG Sentinelas do Planalto, Gilbert Gisler, o Xepa, também vereador, ofereceu as instalações da entidade, passando ser criticado e ameaçado. Tradicionalistas sentiram-se ultrajados com a proposta, porque CTGs são redutos da virilidade gaúcha.
O Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), que rege os CTGs, manifestou-se contra o chamado casamento gay. O coordenador da 18ª Região Tradicionalista em Livramento, Rui Rodrigues, chegou a declarar que o movimento é de "preservação da família tradicional". Nos últimos dias, o MTG preferiu silenciar.
O casamento coletivo
Entenda como funciona a união simultânea de vários casais
- O casamento coletivo é organizado pelo Tribunal de Justiça do Estado (TJ/RS)
- É realizado em comarcas dos municípios, de acordo com a procura
- Para se habilitarem, os casais devem ter renda familiar de até dois salários mínimos por mês. E não podem apresentar qualquer tipo de impedimento legal (como o de já ser casado)
- Não há verba específica para o evento. Na cerimônia de sábado (13/9), em Santana do Livramento, parte dos custos será paga pela juíza de Direito, Carine Labres, e pela promotora de Justiça, Rosi Barreto
- Pelo menos 10 empresas e famílias de Livramento ajudarão com doações e serviços, que vão desde a maquiagem das noivas até o álbum de fotografias
- Os casais ganharão alianças. Dois serão sorteados para desfrutarem a lua de mel no Hotel Plaza Verde, de Livramento
- Devem participar 29 casais na cerimônia de sábado. Um deles é um par de lésbicas
- Será o segundo casamento coletivo do ano em Livramento. Em março, tendo por palco o Salão do Júri, foram 56 casais, um deles de lésbicas
- Todos terão a oportunidade de oficializar uniões que de fato já ocorrem. Alguns dos pares já têm filhos ou são até avós.



